Rui Rio, Salvador Malheiro e Ribau Esteves no moliceiro da ria de Aveiro

Legislativas 2019

Na estrada com Rui Rio... o lápis, o otimista, as ruas e as provas de força

Na reta final da campanha eleitoral, Rui Rio apostou forte nos distritos em que o PSD tem mais força. Em Viseu e Aveiro testou a força do partido, embalado pela subida nas sondagens. Após os debates com António Costa, renasceu a esperança nos militantes.

Os idosos sentados no banco de jardim na Avenida Alfredo de Sousa, que se estende aos pés do Santuário da Nossa Senhora dos Remédios, em Lamego, viram-se submersos em câmaras, máquinas fotográficas, jornalistas de microfone em punho e, lá no meio, Rui Rio com um molho de lápis na mão. De olhos arregalados recebem a oferta, que pouco lhes serve. "Não sabemos escrever", explicam. "Não é preciso, é só pôr a cruz", atira Fernando Ruas, o ex-presidente da câmara de Viseu, agora cabeça de lista do partido pelo distrito, mesmo ali ao lado do presidente do PSD.

Um dos idosos ainda reage mal. Os jornalistas interpelam-no: "como se chama?" A resposta é desarmante: "Não sei, já me esqueci, perdi a cabeça". Mas pelo sorriso dá para perceber que não queria mesmo dizer o nome e que o PSD não seria a sua opção. Terça-feira, perto da hora de almoço, a arruada de Rui Rio em Lamego, agora governada por um socialista, resumiu-se a meia dúzia de pessoas na rua, que o cumprimentaram e a uma investida, rápida, na Escola Superior de Tecnologia e Gestão e num lounge café. Os lápis, a versão ecológica substituta das canetas em época eleitoral, foram sempre desbloqueadores, não de conversa, mas no contacto entre o líder do PSD e a população.

Em mangas de camisa, Fernando Ruas desconstruiu aquele vazio de gente. "É bom sinal, quer dizer que estão todos a trabalhar!" Rio prefere gracejar: "Não sabiam que vínhamos" A JSD, sempre atrás do líder na volta a Portugal, preenche o resto com as cantorias ensaiadas: "Se queremos estabilidade financeira, Rui Rio queremos; se queremos justiça a funcionar, PSD vamos votar".

Mas a aparente falta de mobilização é contrariada por um ainda vice-presidente da bancada parlamentar do PSD, António Leitão Amaro, natural de Tondela, que resolveu não se recandidatar. "A mobilização é boa, o partido está coeso aqui". A garantia é importante, já que o líder da distrital do PSD de Viseu, Pedro Alves, foi um dos apoiantes de Rui Rio que esteve ao lado de Luís Montenegro quando desafiou a liderança do partido.

O envolvimento das estruturas na campanha percebe-se melhor no dia seguinte, já que Rui Rio não se aventurou, estranhamente ou talvez não, na baixa de Viseu, antigo "cavaquistão", liderado ainda pelo partido. A falta de gás na campanha das europeias, quando Paulo Rangel por lá passou, pode justificar esta opção do líder social-democrata. Para Viseu ficou reservada uma outra "prova de força" do partido, mas já lá vamos.

Em Santa Maria da Feira, quarta-feira, há dezenas de militantes junto à Câmara Municipal à espera do líder. Ali se vê a força do PSD numa autarquia que lidera. Os bombos animam o dia. Rui Rio sai em cortejo pelo centro da cidade, de sorriso estampado no rosto. Mesmo a animação provocada pela subida nas sondagens não muda uma vírgula no que programou fazer na campanha. Não é dos políticos que gosta de entrar em loja sim loja não, prefere ir apertando a mão aos que se plantam à porta para o ver passar ou acenar aos que estão às janelas. "Já há poucos políticos genuínos, e ele é um deles", comenta Ângelo Correia, militante histórico do PSD e antigo ministro da AD, que foi fundador do partido em Aveiro, e que deu o ar da sua graça.

Rio recebe também um apoio inesperado. "O PS e o governo abandonaram-nos, temos confiança em vocês!", diz um lesado do BES a Rio, que o ouve com atenção. Pouco depois, entra na Confeitaria do Castelo, uma das que faz a célebre fogaça, doce tradicional de Santa Maria da Feira. E com a mesma atenção ouve Diogo, o mestre pasteleiro, que as faz à mão, explicar os segredos milenares e mostrar como se molda a massa do doce tradicional de Santa Maria da Feira. "Eu não ponho a mão na massa", garante aos jornalistas Rio, talvez inspirado ainda pelo lamento dos lesados.

O renascimento do "cavaquistão"

De regresso a terça-feira à noite a Viseu, um dos raros jantares-comício, no Pavilhão Multiusos, faz-nos entrar na dimensão do PSD, maior partido de Portugal. Era a prova de força de Rui Rio. Um banho de multidão, a combinar com a subida nas sondagens. Um militante orgulhoso empunha o cartaz: "Penedono está consigo". Os 2100 militantes entraram às 20.00 para o pavilhão e só perto das 23.00 começaram a jantar um arroz à Valenciana. Até lá esperaram pacientemente. Ouviram os discursos e tiveram direito a uma animação algo inusitada, dado o perfil soft da campanha de Rio. Um grupo português a cantar em espanhol canções muito populares.

O speaker que anima as grandes iniciativas do PSD pede muitas bandeiras no ar. "O futuro primeiro-ministro de Portugal está entre nós", anuncia. As bandeiras laranja erguem-se, embaladas por uma outra música eletrónica em tom épico.

O presidente da Câmara, Almeida Henriques, ex-mandatário de Pedro Santana Lopes nas diretas do PSD, é o primeiro a discursar e a pedir o apoio no partido para acabar com as "cativaçõeszinhas" de Mário Centeno. O ministro das Finanças é, aliás, mais invocado nos ataques do partido do que o próprio António Costa. Fernando Ruas, que esteve "exilado" em Bruxelas como eurodeputado, admite as saudades que já tinha ver plateias daquela dimensão e lembra: "Aqui nunca o punho erguido (símbolo do PS) meteu a mão". É pela sua voz que vem o ataque mais feroz a Costa. "O senhor vem dizer que enlameamos as instituições [por causa do caso de Tancos]? Logo o senhor, que pertenceu ao governo de José Sócrates".

Rui Rio, de camisa branca, a passar em dois ecrãs gigantes - um cenário cuidado pela equipa de multimédia e de som que o acompanha - não segue o registo de ataque personalizado. Mas galvaniza os militantes logo na abertura dos discursos. "Estamos na terra de Viriato, o chefe dos lusitanos. No domingo escolhemos o novo chefe dos lusitanos. Vai ter a marca do cavaquistão que vai renascer".

Já em Lamego tinha lembrado que há uns meses quando as sondagens ainda davam o PSD em mau estado, ele já defendia que no final da campanha estaria a disputar os votos "taco a taco" com o PS.

É neste ponto do discurso no comício de Viseu, que entra o primeiro separador de música popular, que se repete várias vezes ao longo do discurso e que é muito fora do tom do político Rio. Mas por muito que o líder não goste de "gritos", e os tenha evitado a todo o custo, animar a malta faz falta.

Bipolarização

Rio parte para o discurso da bipolarização. "A escolha do governo é entre o PSD e o PS". Desfia as criticas ao governo de Costa, sem nunca mencionar o seu nome. As carga fiscal que é a maior de sempre desde o "túmulo de D. Afonso Henriques"; a degradação dos serviços públicos, com particular enfoque para o Serviço Nacional de Saúde. "O verdadeiro ministro da Saúde de Portugal é o ministro Mário Centeno", o que também já tinha dito no Centro Hospitalar Tondela/Viseu, para criticar a falta de investimento na saúde.

As farpas foram mais duras no final. "Quando o PS chega trata tudo como se fosse o dono disto tudo". E porque já tinha falado bastante do caso de Tancos - só o voltou a fazer quando a esquerda decidiu marcar a discussão do caso no Parlamento para o pós eleições -, atacou outro flanco frágil dos socialistas, o familygate. "Há um que se notabiliza que é o presidente do PS, o campeão da colocação de familiares na administração pública portuguesa". Aos ataques de Carlos César, que tem sido dos mais duros com o PSD, respondeu ainda: "É um homem com excelente olfato, já que disse que lhe cheirava à vitória do PS na Madeira. Espero que também esteja a cheirar o mesmo no domingo". Entra a música popular "PSD põe Portugal em marcha".

O líder do PSD volta ao ataque a Centeno quando garante que o PSD quer descer os impostos aos portugueses, alegando que se furtou ao debate com o seu ministro sombra das Finanças, Joaquim Sarmento, que está ali no jantar e que o tem acompanhado na volta enquanto mandatário nacional. De tal forma que numa ação de campanha em Aveiro, na quarta-feira, desabafava que estava pouco habituado a estas andanças políticas. Foi o presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves, que o animou: "Mas agora já está a apanhar o ritmo do presidente".

A rábula da corrupção

Ora foi precisamente em novo terreno fértil para o PSD, Aveiro, que Rui voltou a respirar nova lufada de campanha em grande. Ali o partido tinha-lhe preparado uma boa receção, a ele e à cabeça de lista pelo distrito, pela primeira vez uma mulher, jovem advogada e professora universitária, Ana Miguel Santos.

Em três moliceiros, um dos que também andou com Pedro Passos Coelho na campanha das legislativas de 2015, a partir do Lago da Fonte Nova, pelo Canal do Côjo, bandeirinhas do PSD a ornamentar as pontes, a comitiva desembarca junto ao antigo edifício da Capitania do Porto, onde o esperava uma receção e tanto e muitos vivas ao PSD.

Em cortejo segue para o Mercado Manuel Firmino. Mais uma iniciativa arrojada da campanha de Rui Rio, mais um talk/comício ali mesmo paredes meias com as bancas de peixe que costumam animar o mercado durante o dia. O arrojo foi o de criar um momento de stand up comedy a anteceder a sessão de perguntas dos militantes e simpatizantes do PSD. Dois atores fizeram uma rábula à volta do tema da corrupção, muito ao estilo do "não meto a mão na massa" de Rui Rio, mas adaptado às moscambilhas para obter graus académicos... e que no PSD também causaram os seus estragos.

A atriz: "Não acabei a licenciatura"

O ator: "Não faz mal, podes ir para o mestrado que até te dá créditos a mais."

Ângelo, o otimista

Nestes dois dias de campanha em distritos com ventos favoráveis, sentiu-se algum nervosismo no staff de Rui Rio para saber os resultados das sondagens. A da RTP era a mais fresquinha e bailavam algumas perguntas sobre os números. A nova subida do PSD animou e deu um novo fôlego às iniciativas programadas.

"Há um mês isto era uma desgraça", admite ao DN Ângelo Correia, ainda em Santa Maria da Feira. Referia-se à mobilização do partido para as eleições que, segundo ele, teve um ponto de viragem com os debates nas televisões. "Sobretudo o primeiro com António Costa, em que Rio ganhou levou o partido e o país a olhar para ele de outro modo", frisou.

O antigo ministro da Administração Interna da Aliança Democrática mostra-se muito otimista. "Agora acredito que o partido chegue, pelo menos, aos 29 ou 30% e, assim, que autoridade têm os críticos de Rio para avançarem? Quem faria melhor do que ele?"

Ângelo Correia acredita que com esse resultado o presidente do partido se segura na liderança e que António Costa será obrigado a fazer acordos à direita e à esquerda se ganhar as eleições sem maioria absoluta. "Claro que Rio só fará os que considerar serem bons para o país", vaticinou o militante histórico do partido, que em tempos foi dos principais apoiantes de Pedro Passos Coelho.

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