Na estrada com... Jerónimo de Sousa. Ser ou não ser do contra? Eis a questão!

Legislativas 2019

Na estrada com... Jerónimo de Sousa. Ser ou não ser do contra? Eis a questão!

Comunistas aguardam com expectativa o resultado das eleições. Só em 6 de outubro perceberão se o país lhes reconhece o mérito de, em 2015, terem colocado o país à frente do partido.

Francisco Puga não esconde a surpresa ao ver o par de jornalistas à porta da sua quinta no Minho, nos arredores de Ponte de Lima, Viana do Castelo. Mas, enquanto explica que a iniciativa da CDU em prol da produção de carne foi cancelada a seu pedido, chega outro par de repórteres e ouve-se o espanto indignado da mulher: "Não me digas que hoje vamos ser invadidos!"

Numa manhã cinzenta e com chuva miúda, já de boné na cabeça e galochas calçadas junto do estábulo onde estão 70 vacas aleitantes, Francisco Puga parece incrédulo com o aparecimento de jornalistas. "Eles [os comunistas] estiveram cá ontem e concordaram ser melhor não haver visita. Não ia ser bom para eles nem para mim", diz ao DN.

Então? É simples: também "vem a televisão e vai jogar a favor do PAN" e dos que, ao favorecerem a redução ou abolição do consumo de carne, vão "dizer disparates" e esquecer que "somos um país importador de carne", esclarece o também agricultor que se confessa mais satisfeito com os seus quatro hectares de vinha. "É bem melhor, está com uma saída fabulosa para o estrangeiro", acrescenta.

A verdade é que a comitiva de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, opta por outra alternativa - um produtor de cogumelos, em Arcos de Valdevez - para divulgar a "importância fundamental" de aumentar a produção nacional e inverter "a dependência do exterior" no setor agroalimentar. Dito de outra forma, "é a soberania alimentar que está em causa".

"Trocou bifes por cogumelos?", pergunta-lhe um jornalista. "Não. Gosto de cogumelos e de bifes", contrapõe Jerónimo, alertando que os "3000 milhões de euros" exigidos pelo défice alimentar português podem ser aplicados no apoio aos pequenos e médios agricultores e com três grandes impactos colaterais (fixação das populações, combate às assimetrias e à degradação do ambiente). "Daí não haver uma contradição insanável" entre uma coisa e outra.

"Andar para trás ou avançar?"

Equilíbrio difícil parece existir num discurso que balança entre o constante elencar das medidas propostas pelo PCP e aprovadas pelo Governo PS - que tiveram impacto objetivo na vida das pessoas - e as críticas fortes e sistemáticas ao tradicional inimigo socialista, que os candidatos entendem continuar a defender soluções de direita em casos como o da legislação laboral.

"Foram quatro anos de ação e luta", em que PCP e Verdes tiveram "uma intervenção sem paralelo" e com resultados concretos, realça Jerónimo de Sousa perante trabalhadores têxteis no Vale do Ave. "Muitas das medidas que os trabalhadores e a maioria dos portugueses reconhecem como positivas" tiveram origem nos partidos da CDU - como, elenca, a recuperação dos salários, o pagamento do subsídio de Natal, os passes únicos e a redução do seu preço, passando pelo descongelamento das carreiras e pelo aumento extraordinário das pensões (40 euros no conjunto da legislatura) até ao desagravamento do IRS e à valorização das longas carreiras contributivas.

"Andar para trás ou avançar? É o desafio dos trabalhadores" nestas eleições de 06 de outubro, alerta Jerónimo no final do encontro com profissionais do setor têxtil na Junta de Freguesia de Pevidém, em Guimarães - depois da curta passagem matinal pelo distrito de Viana do Castelo, donde esteve excluída a visita aos estaleiros navais agora geridos por privados e apesar de o cabeça de lista dos comunistas ser Jorge Machado, deputado da Comissão parlamentar de Defesa nesta legislatura.

"O que vemos no terreno não é um ambiente mau, antes pelo contrário", diz Jerónimo, adiantando: "Independentemente de [esse entusiasmo] não se traduzir em votos, há um reconhecimento do nosso papel na vida nacional" durante estes anos da geringonça.

Mas sendo "natural que valorizemos o que é de valorizar, porque foram dados passos de grande significado nos salários, nos direitos sociais", Jerónimo garante ser impossível não malhar num "Governo que na ponta final vem com estas peças profundamente negativas [as novas leis laborais] que ensombram esses avanços".

"Não havia governo" se leis laborais fossem aprovadas há um ano

O que as ações de campanha da CDU acompanhadas pelo DN nos distritos de Viana do Castelo, Braga e Porto (quarta-feira) ou Setúbal e Beja (quinta-feira) mostram é um apoio praticamente incondicional dos "militantes e independentes" que marcam presença. Quanto aos níveis de presença popular, são genericamente maiores no sul do que a norte do país - e que se reflete na escolha dos locais que Jerónimo visita: além da referida exploração de cogumelos perdida no meio do mato minhoto, o Laboratório Ibérico de Nanotecnologia em Braga - uma instituição com estatuto diplomático, equipada a embaixada.

Na Vidigueira, após um almoço dominado por um cozido de grão e vários doces (arroz doce, leite creme, brigadeiro, mousse de chocolate) que os presentes qualificaram como magnífico, Silvina Freitas Martins diz ao DN que "não é militante" do PCP.

Mas, depois de responder com um brincalhão "caluda" à interrupção de uma amiga, assume: "Gosto do partido" e a geringonça "devia de continuar porque é bom para a gente." Quanto aos críticos internos dessa solução governativa e da sua eventual reedição, a idosa insiste: "Eu concordo, não faço caso da conversa dos outros."

Francisco Paixão Janeiro, "comunista assanhado" desde os tempos da ditadura e com "duas filhas, dois genros e três netos que são todos comunistas", rejeita também, de forma enfática, a posição dos opositores internos da geringonça. "Mas eu quero" que continue, frisa, enquanto já está em curso a operação de recolher a loiça suja, dobrar as toalhas e arrumar mesas e cadeiras.

No Minho, regista-se a mesma firmeza. António Lopes, presidente da Associação de Reformados de Guimarães, é taxativo: "Era necessário fazer isto há quatro anos", pois permitiu "melhorar a reforma" - num distrito onde o seu valor médio é de 376 euros, o que significa que "há muita gente que recebe a menos."

Também Manuel Alves de Castro, ex-autarca da CDU na freguesia de Candoso e diretor do clube recreativo local, elogia a geringonça e critica os "trabalhadores que não reconhecem que o PCP está do lado deles. Quando é para pedir.... mas para votar esquecem-se de colocar a cruz" no boletim de voto. Assumindo que a geringonça teve aspetos "positivos e negativos", considera que ainda "há coisas sem justificação como haver reformas de 400 euros".

António Lopes dá outro exemplo do papel da CDU na geringonça, embora para atrasar algo que não conseguiu impedir. "Se a lei laboral fosse aprovada um ano antes, não havia Governo e só por isso é que foi a votação no último dia da legislatura".

Carla Cruz, cabeça de lista por Braga, adianta ao DN que "há um enorme reconhecimento do contributo da CDU para o que se avançou nestes quatro anos". Se isso se vai traduzir em mais votos, na sua reeleição e eventualmente num segundo deputado, diz simplesmente que prefere esperar - com o moderado otimismo que decorre de sentir que existe uma "valorização e reconhecimento do trabalho" dos eleitos comunistas pelo distrito.

Jerónimo vai insistindo em lembrar a nova herança dos comunistas. "O PCP e Os Verdes mostraram que era possível afastar o governo que infernizou a vida dos portugueses" e, sendo verdade que PSD e CDS ainda "foram governo por 11 dias porque [o presidente da República] Cavaco Silva queria que continuassem", o líder comunista conta como foi mudando o rumo da história.

"Foram avanços conquistados a pulso. Pode o Governo vangloriar-se mas muito do que se avançou começou por ter o desacordo, a oposição do PS", prossegue Jerónimo, registando que muitos desses avanços nem sequer constavam do programa eleitoral do PS em 2015. Seguem-se exemplos do que propunha a CDU e respondia o PS: "Manuais escolares gratuitos? Nem pensar! Aumento e valorização do abono de família? Custa muito caro...."

Na Vidigueira, com várias senhoras mais e menos idosas a abanar os leques devido ao calor da hora de almoço em que a cozinheira assegura "nada" ter sobrado do cozido de grão, Jerónimo enuncia outra proposta pelo qual a CDU vai bater-se na próxima legislatura e facilitadora do combate à ameaça demográfica: uma rede pública de creches gratuitas para crianças até aos três anos - algo que o leva a criticar novamente um Governo PS que "contrariou o princípio fundamental do direito à felicidade de uma criança em ter um livro novo", aprovando o recurso a manuais usados devido à "mesquinhez das Finanças" em torno de "uns milhares de euros".

Campanha gere esforço pedido a Jerónimo

A preparação do programa de Jerónimo de Sousa por parte das organizações locais do partido, em articulação com a Soeiro Pereira Gomes "no terreno" através do experimentado António Rodrigues, revela algumas diferenças face a anteriores campanhas para as legislativas.

Um exemplo é o do secretário-geral do PCP viajar pela primeira vez numa carrinha de vários lugares, em detrimento do habitual automóvel ligeiro de quatro portas. "É muito mais confortável, porque oferece melhores condições de trabalho" durante as sucessivas viagens, explica Paula Barata, outra veterana das campanhas da CDU e assessora parlamentar do Partido.

Outra alteração, natural em quem continua a percorrer o país em dias sucessivos e esgotantes apesar de ter 72 anos, é a gestão física do envolvimento de Jerónimo nos comícios: enquanto antes subia ao palco com os restantes candidatos e os ouvia de pé até chegar à sua vez de intervir, agora permanece sentado na plateia até o chamarem - e depois discursa com a energia e convicção de sempre.

O próprio candidato assume este sábado em Palmela, após uma semana de campanha e citado pela Lusa, os efeitos de ter mais 15 anos que António Costa e 10 que Rui Rio: "Não estou propriamente fresco como uma alface, mas estou em condições de prosseguir esta batalha com entusiasmo até ao fim." É verdade que "Isto é duro, por vezes [há] grandes percursos, mas, quando se tem ânimo e ideal, tem-se a coragem suficiente para travar esta batalha", garante.

Reações diferentes a norte e no sul

Mas nem sempre a mesma mensagem suscita reações iguais e é no Vale do Ave (Pevidém) ou em Vila Nova de Gaia - na presença da antiga eurodeputada Ilda Figueiredo e após o histórico Honório Novo ter participado duas horas antes no jantar do Porto - e não em Moura que a plateia reage com assobios, quando Jerónimo evoca a aprovação dos contratos a prazo pelo PS em 1976 (apresentada como precursora do recente aumento do período experimental de seis meses para jovens e desempregados de longa duração).

Em Moura, no Largo General Humberto Delgado e junto ao qual está um enorme cartaz do Bloco com os rostos de Catarina Martins e de Mariana Aiveca, os poucos presentes só reagem - com aplausos - após o líder comunista concluir essa evocação com um "depois admiram-se que os jovens procurem emigrar, jovens que tanta fazem no Alentejo".

Outro detalhe curioso na comparação do público presente nas ações de campanha em Vila Nova de Gaia e Moura - ou mesmo Serpa - é a presença de elementos simbólicos exibidos pelos presentes. Ao contrário do Alentejo, no norte usam-se boinas do Che e bandeiras com o rosto do guerrilheiro que os músicos cubanos presentes evocam numa das canções entoadas em uníssono com a plateia.

Em Moura, o que se vê são os trajes tradicionais de quem divulga as canções alentejanas, como as 10 mulheres do coro feminino com chapéus de palha sobre lenços amarelo-torrado que ali se fazem ouvir. Em Serpa, num jantar onde uma empenhada e bem disposta militante vai passando entre as mesas para convencer os presentes a formalizar o seu apoio à CDU com "uma assinatura, uma rubrica, uns gatafunhos", o coro masculino usa os habituais chapéus negros, coletes e lenços ao pescoço.

De volta a Moura e num espaço com reduzida presença de apoiantes, apesar de o mandatário concelhio, João Ramos, dizer que vê "um largo repleto de pessoas" numa sessão pública que passara para o fim da tarde desse dia de trabalho, o secretário-geral do PCP insiste que "não pode ser de esquerda quem se põe ao lado do patronato e das multinacionais" para aprovar uma medida como a do referido alargamento do período experimental sem direito, depois, a férias ou subsídio de desemprego.

"Sou completamente contra"

Maria Carapinha, encostada a uma montra e com um ar distante, escuta os oradores e vai batendo algumas palmas. "É a minha cor", responde a única voz comunista dissonante registada pelo DN quanto à geringonça.

Apoiar "um governo PS, para mim, não tem cabimento", exclama a alentejana, depois de vencida a timidez. "Não sou a favor, sou completamente contra", reforça Maria Carapinha, pois "o que o PCP conseguiu não é suficiente" para compensar o que o executivo socialista fez de negativo.

Na base desta posição está uma história pessoal, conta, pois o ter deixado de ser precária na autarquia (desde o início deste ano e após 19 anos com contratos a prazo) é insuficiente face ao prejuízo - agravado pela ausência de informação oficial prévia e resposta posterior - causado pelas alterações no subsídio por deficiência que a filha recebia.

Esse sentimento de alguma frustração, mesmo entre militantes comunistas, com os resultados alcançados pela CDU no contexto da geringonça regista-se também num episódio ocorrido em Serpa, no final do jantar preparado para mais de 300 pessoas sentadas em mesas redondas e que se revelam insuficientes face ao número de participantes, reconhece ao DN, com ar algo preocupado, o responsável pela organização do partido em Beja, João Pauzinho.

Terminado o comício e enquanto Jerónimo se prepara para ler uma declaração aos jornalistas sobre Tancos, à margem da campanha, um popular mostra a sua irritação frente aos jornalistas que aguardam pelo líder comunista: "Daqui a 10 anos estas terras estão todas estéreis. Onde é que vai acabar o Alentejo? Não temos ninguém que nos defenda. Estão a deitar químicos [para o solo]. Já não posso beber água do meu furo."

Quando um assessor tenta afastá-lo do púlpito, acentua-se a indignação: "Dá-me licença? Isto é um comício e eu sou português e tenho o direito da palavra." Nova insistência do Partido? Resposta pronta: "Oh meu amigo, isto é um comício, isto é um comício e eu tenho..." - momento em que tudo se resolve, quando os seguranças o agarram pelo braço direito - rapidamente, sem barulho e sem cerimónias - e o arrastam dali enquanto ele se limita a ir dizendo "ai é assim? estou a falar...".

Mesmo quando um dos elementos do PCP lhe diz que a questão da água e do impacto das culturas intensivas tem sido abordado nas intervenções dos candidatos, o homem não se cala. E quando alguém lhe coloca um braço sobre os ombros e o vai levando para longe, continua: "Não ouvi uma palavra... gosto que digam como está o Alentejo."

Esforço e honra

A mensagem do PCP e dos Verdes mantém-se firme: "Quem votou na CDU deve sentir-se orgulhoso. Os [seus 17] deputados fizeram o que disseram e honraram o voto" recebido em 2015. Mas a verdade é que os partidos da coligação têm de continuar a esforçar-se porque há quem, como Maria Rosa Prazeres e Joaquina Rosa Prazeres, continue hesitante.

Em Moura, após vários minutos a ouvir os argumentos de um funcionário que distribui panfletos com as caras dos candidatos e mensagens da CDU no distrito de Beja, as duas irmãs continuam muito hesitantes sobre ir votar e ainda mais em votar comunista. Ambas dizem ao DN sentir-se "muito frustradas", por exemplo, com o aumento anual de 10 euros na reforma ao longo desta legislatura.

"Não mata a fome a quem ganha 250 euros de pensão... até tenho vergonha de dizer" o valor, confessa Maria Rosa. "Pode ser que mude de ideias" e vá votar, sendo certo que no PSD e CDS "está fora de questão", acrescenta, enquanto a irmã Joaquina pondera mesmo se vale a pena repetir o voto no PS. "Não sei se vou votar na CDU" mas, "se for só o Costa a mandar, há coisas que depois não faz", diz.

Joaquim Almaça, uns metros ao lado e também de Moura, acrescenta: "O Governo [da geringonça] deve continuar mas com o apoio dos partidos de esquerda para não haver maioria absoluta. Não serve para nada", remata.

Este alerta é precisamente um dos eixos centrais do discurso da CDU, cujos candidatos o repetem à exaustão por todo o país e que tem em Jerónimo de Sousa o seu principal mensageiro: "Os grandes interesses apostam numa mudança das circunstâncias para se andar para trás. Vejam como hoje acenam com novas crises reais ou imaginárias." Mas no fim, assegura o secretário-geral comunista, o que conta são três questões: "O que fizemos? O que votámos? O que defendemos" nestes quatro anos? Com base nos registos oficiais, a conclusão em vésperas de nova eleição legislativa é apenas uma: "Só nos honra ir para junto do povo."

Notícia corrigida quarta-feira para indicar que Honório Novo, ao contrário do que por lapso escrevemos, participou na ação de campanha de Jerónimo de Sousa no Porto.

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