Michel Barnier e o Brexit: "Este é um momento grave"

Michel Barnier, negociador-chefe da União Europeia para o Brexit, esteve esta manhã na Assembleia da República. E defendeu que "é necessário que haja decisões e não tempos suplementares"

Michel Barnier, o homem que nos últimos 18 meses negociou com o Reino Unido os termos da saída da União Europeia, defende que cabe agora à primeira-ministra, Theresa May, definir qual o próximo passo, depois do chumbo do acordo no Parlamento britânico. Numa audição na Assembleia da República, na manhã desta quinta-feira, Barnier defendeu que o acordo de 600 páginas, rejeitado na última terça-feira, mantém-se como a melhor solução para as duas partes - "Este continua a ser o melhor acordo possível".

Quanto a um adiamento do Brexit, que está marcado para o próximo dia 29 de março, Michel Barnier não fechou a porta, mas questionou "quanto tempo e para quê?". "Por enquanto a questão não foi apresentada", disse aos parlamentares portugueses, sublinhando que o ponto fundamental é outro: "É necessário que haja decisões e não tempos suplementares".

Falando na comissão parlamentar de Assuntos Europeus, Barnier disse que este "é um momento grave", sublinhando que o Brexit não é "business as usual". Mas manifestou esperança que, depois da coligação negativa de vontades que ditou o chumbo do acordo, Theresa May possa encontrar uma "coligação positiva" que permita ultrapassar o impasse atual.

Barnier, que já tinha avisado quarta-feira no Parlamento Europeu que o cenário de uma saída sem acordo "nunca foi tão elevado", explicou que, nesse cenário, "haverá medidas de contingência". E deu um exemplo: no momento em que sair, o Reino Unido deixará de imediato o céu único no espaço europeu e serão necessárias medidas para evitar a "rutura de comunicações em matéria de aviação".

E se a saída desordenada lança um cenário de incertezas, um dado é certo: a saída "não será feita num clima de confiança se não houver acordo".

Sobre a disponibilidade da UE para reabrir negociações, o antigo comissário europeu sublinhou que as linhas vermelhas foram definidas pela parte britânica ("As linhas vermelhas são do Reino Unido, não são nossas") e acrescentou que se houver alteração nesse quadro, não será pela UE que as duas partes não voltarão a falar: "Se o Reino Unido mexer nas linhas vermelhas, nós mexemos, estamos prontos". "Estamos abertos para tornar mais fácil este diálogo", diria ainda, apontando para a relação futura entre o Reino Unido e o bloco europeu. Mas alertou também para o imperativo respeito pelos princípios da UE e para a "indivisibilidade" das quatro liberdades da União - livre circulação de pessoas, mercadorias, serviços e capital.

Barnier para o PCP: "Diz que a UE deve desaparecer porque não é útil? É exatamente o que diz o Sr. Farage"

Com cinco minutos de intervenção para cada partido, durante a audição parlamentar, as posições críticas do Bloco de Esquerda e do PCP mereceram a reação mais veemente do antigo comissário europeu. Em resposta à deputada comunista Paula Santos, Barnier rejeitou que a União Europeia tenha tido uma atitude de vingança perante a decisão dos britânicos de abandonar a UE. "Não há chantagem, não há manobras, não há pressão, não há ameaças. Não é justo dizer tal coisa, não é verdade. Nós respeitamos a vontade britânica, não há nenhuma revanche", garantiu. "Nunca fui agressivo durante esta negociação, nunca", tinha já dito antes.

E retorqui também ao PCP: "Diz que a União Europeia deve desaparecer porque não é útil? É exatamente o que diz o Sr. Farage", afirmou, referindo-se a Nigel Farage, antigo líder do partido conservador e eurocético britânico UKIP, e atual deputado ao Parlamento Europeu.

Defendendo que o Brexit é uma "situação em que todos perdem", o político francês saiu em defesa da União Europeia. Afirmando-se como "apaixonadamente patriota e definitivamente europeísta" - e referindo que uma coisa existe para além da outra e não em vez da outra -, invocou as proteções que são dadas pela UE aos seus membros: "São insuficientes, mas existem". " Imagine que estas normas possam desaparecer, cada país fica sozinho face às potências", afirmou Barnier, antecipando que "em 2050 a Alemanha será o único dos países europeus no G8". Sem a União Europeia "somos subcontratantes, sob a influência de russo e americanos" - a União Europeia "faz com que estejamos à mesa e não sentados atrás a a ver serem tomadas decisões sobre nós".

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