Jerónimo de Sousa: "O PCP não é parte de uma alegada maioria, mas sim força de oposição"

Um dia depois da abstenção no Orçamento do Estado, que viabilizou as contas públicas para o próximo ano, Jerónimo de Sousa diz que a abstenção no OE se deve à inclusão medidas com impacto na vida dos trabalhadores, mas sublinha o "distanciamento" face às opções do Governo.

O voto de abstenção do PCP que viabilizou o Orçamento do Estado para o próximo ano resulta da "persistência e determinação" do partido "em não desistir do país, em não desistir de nenhum combate antes de o travar" e permitiu "inscrever no OE medidas que terão tradução na vida dos trabalhadores e do povo".

Um dia depois da aprovação do OE na Assembleia da República, pela primeira vez num cenário de abstenção do PCP e voto contra do BE, Jerónimo de Sousa abriu o XXI congresso do partido a afirmar que o voto da bancada comunista se deveu às medidas que o partido conseguiu inscrever no documento, mas sublinhando também que esta foi uma "abstenção que marca o distanciamento face a opções que o governo assume num orçamento que é da sua responsabilidade".

"O PCP não é agora, como não foi antes, governo ou parte de uma alegada maioria, mas sim força de oposição a tudo o que contrarie ou fala retroceder os direitos dos trabalhadores e do povo", disse Jerónimo de Sousa, na abertura do congresso que se realiza até domingo no pavilhão Paz e Amizade, em Loures, e que conta com a participação de 600 delegados e nenhum convidado, nacional ou estrangeiro.

O líder comunista deixou também o aviso de que uma resposta global à atual crise "exige medidas a partir do orçamento, mas também para além dele".

Antes, no longo discurso inaugural do XXI congresso, Jerónimo de Sousa tinha evocado a geringonça da passada legislatura para dizer o mesmo - não se tratou de um "governo de esquerda ou uma maioria de esquerda", mas de um "governo minoritário do PS" que manteve no essencial as "opções de classe" que o caracterizam - não revertendo a legislação laboral ou não fazendo regressar empresas e setores estratégicos à esfera pública. Mas, ainda assim, a anterior legislatura "não foi um tempo percorrido em vão", traduzindo também um percurso de "defesa e reconquista de direitos" que só "foi possível pela iniciativa e intervenção decisiva" do PCP.

Numa intervenção que se prolongou por mais de uma hora, o líder comunista passou em revista a situação internacional, defendendo que a eleição de Joe Biden como presidente dos Estados Unidos nada mudará na política externa do país, que prosseguirá o "objetivo de domínio hegemónico mundial".

Num contexto global de "grandes perigos de retrocesso social e civilizacional" outro bloco onde o PCP não vê mudanças é a União Europeia, e sobretudo a União Económica e Monetária, um dos "principais obstáculos ao desenvolvimento do país". Afirmando que a UE tem demonstrado que "não permite espaço a refundações nem democratizações" no seu funcionamento, Jerónimo acrescentou que a saída do Reino Unido "fez cair por terra as teorias da irreversibilidade da União Europeia".

PCP "não se dá ao privilégio e ao egoísmo de se resguardar"

A realização do congresso comunista numa altura em que o país está em estado de emergência tem motivado muitas críticas, sobretudo à direita, e esta foi uma das primeiras questões abordadas por Jerónimo de Sousa no discurso desta manhã, com o líder comunista a alertar para o que chamou de "retrocesso pandémico" - "crescentes medidas musculadas", "abuso de poder" e "reforço do controlo" que, à "boleia da pandemia vão minando a própria democracia" um pouco por todo o mundo. E foi neste contexto que justificou a reunião magna dos comunistas, este fim de semana, de um partido que "não se dá ao privilégio e ao egoísmo de se resguardar enquanto centenas de milhares de trabalhadores continuam nos seus locais de trabalho", a "resistir à intensificação da exploração" feita a pretexto da pandemia.

Garantindo que foram tomadas todas as "medidas de prevenção para realizar em segurança o congresso", o secretário-geral comunista afirmou que a reunião "demonstrará que a realização de atividades é compatível com a defesa da saúde". E advertiu para "forças de regressão" que se têm empenhado em "rebaixar e a colocar ao mesmo nível direitos cívicos e políticos fundamentais" com outras questões menores. "Sabemos como tudo começa, mas não sabemos como acaba, sabemos como muitas vezes acaba mal para os direitos dos povos, para a liberdade e a democracia", avisa o líder comunista.

Num discurso que terminou a falar para dentro, com Jerónimo a pedir um PCP "mais forte e influente" ainda que a conjuntura seja "complexa e difícil", a maior ovação dos congressistas ouviu-se quando foi feita referência a João Ferreira, candidato presidencial do partido e um dos nomes mais apontados para a sucessão a Jerónimo. Uma sucessão futura, dado que o atual líder deverá manter-se neste congresso.

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