Informação da rádio pública "é como a urgência de um hospital"

Conselho de Redação da rádio pública portuguesa vai ao Parlamento exigir "mínimo de condições de trabalho" e que profissionais sejam "tratados com dignidade e não como um fardo" na empresa.

Os jornalistas da rádio pública portuguesa vão na próxima terça-feira ao Parlamento exigir "um mínimo de condições de trabalho" e que sejam "tratados com dignidade e não como um fardo numa empresa que parece querer ver-se livre" destes profissionais.

Nos últimos meses - refere o requerimento do PS, que solicitou a audição do Conselho de Redação da RTP-Rádio e Televisão de Portugal "sobre a escassez de recursos na estação pública de rádio" - agravaram-se os problemas, com uma crescente "insatisfação" dos profissionais da rádio que exigem "medidas para a salvaguarda do serviço público de rádio em Portugal"

Numa carta dirigida à ministra da Cultura, datada de 18 de fevereiro de 2019, a que o DN teve acesso, aquele organismo dos jornalistas da rádio pública avisam Graça Fonseca "que a realidade da informação do serviço público de rádio já ultrapassou todos os limites aceitáveis", recusando que seja "sério dizer às pessoas que existe, de facto, um serviço público de rádio".

"O próprio provedor do Ouvinte não se tem cansado de alertar para a falta de condições da informação (e não só) do serviço público de rádio para prestar um serviço digno e de referência"

Segundo o Conselho de Redação, "o próprio provedor do Ouvinte não se tem cansado de alertar para a falta de condições da informação (e não só) do serviço público de rádio para prestar um serviço digno e de referência". Para estes profissionais, "nas circunstâncias atuais, é impossível" garantir "que a rádio pública possa oferecer um serviço de qualidade e de excelência aos seus ouvintes, dentro e fora do país".

Em causa está o facto de a rádio ser o "parente pobre da RTP (Rádio e Televisão de Portugal)": "Podemos sempre fazer de conta, e tomar como boas as palavras do Conselho de Administração da RTP de que tudo está a correr no melhor dos mundos e que até estão previstos vários investimentos, etc., etc. Mas podemos garantir-lhe que não está."

Para o Conselho de Redação, só se pode "olhar para a informação da rádio que se produz atualmente como um serviço de urgência de um hospital: pronto a responder, a qualquer momento, às necessidades dos utentes". Nada mais. "Se os anos da troika corresponderam a uma verdadeira sangria de jornalistas, o período do Governo a que V. Exa. pertence não inverteu essa tendência", lê-se na carta enviada a Graça Fonseca.

"A transferência de jornalistas da rádio para a televisão sem qualquer contrapartida tem contribuído para este défice, para o qual não há resposta da empresa"

Segundo descrevem os jornalistas, "a redação continua a encolher, o que demonstra o descontentamento com as condições de trabalho e a falta de perspetivas futuras"; "a integração de jovens precários através do PREVPAP [programa de integração de trabalhadores com contratos precários] veio finalmente colmatar algumas falhas mas é insuficiente"; ou "a transferência de jornalistas da rádio para a televisão sem qualquer contrapartida tem contribuído para este défice, para o qual não há resposta da empresa", como no "caso mais recente" da saída de Maria Flor Pedroso para diretora de Informação da televisão, "cuja saída não foi compensada".

"Nessa altura", por oposição, "a televisão foi autorizada a fazer duas contratações externas e a rádio lamentavelmente não viu disponibilidade, por parte da Administração, para reforçar os seus quadros."

O Conselho de Redação, que será recebido na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, na Assembleia da República, na terça-feira à tarde, há ainda "problemas técnicos" diários "e falta de material, resultado do fraco investimento nas condições de emissão radiofónica".

Graça Fonseca pode "ser mais uma governante que encolheu os ombros e nada fez perante uma realidade que já não consegue ser disfarçada"

A rematar a carta dirigida à ministra da Cultura, os jornalistas da rádio pública defendem que o apelo que lhe fazem "é também uma oportunidade: a de ficar na história como a ministra que prestou um serviço aos portugueses salvando o serviço público de rádio". Pelo contrário, avisam, também pode "ser mais uma governante que encolheu os ombros e nada fez perante uma realidade que já não consegue ser disfarçada".

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