Expresso assume "lapso" e "erro" e queixa-se ao Facebook, Twitter e YouTube

Semanário emite "esclarecimento aos leitores" sobre fuga de informação com conversa sigilosa com o primeiro-ministro

O semanário Expresso assumiu esta tarde "por inteiro" a "responsabilidade" pelo "erro" de ter enviado para a RTP e SIC excertos, com som, de uma conversa off the record que jornalistas do semanário tiveram com o primeiro-ministro depois de uma entrevista que lhe fizeram - o já chamado "Expresso Leaks".

O jornal admite também, num esclarecimento aos leitores emitido esta tarde, que cometeu um "lapso". "Após a entrevista, foram recolhidas imagens para construção do vídeo de promoção da conversa mantida com António Costa. Os microfones usados na entrevista foram desligados, mas por lapso o microfone interno da câmara não - pelo que ficou em fundo o som da conversa off the record, reservada, que o primeiro-ministro teve com os jornalistas presentes na entrevista."

Nessa conversa, António Costa tratava como "cobardes" os médicos que terão recusado uma ordem da ARS do Alentejo para acudirem aos utentes de um lar de Reguengos de Monsaraz no qual um surto de covid-19 acabaria por provocar 18 mortos.

"No final da tarde de sexta-feira, o Expresso enviou para duas televisões os sons da entrevista, incluindo algumas dessas imagens, conhecidos como "planos de corte" (que são imagens que ajudam as televisões a enquadrar com outras imagens as peças sobre a entrevista). Esses planos de corte incluíam a imagem e áudio de sete segundos que resultaram na polémica conhecida. Esse envio é um erro da responsabilidade do Expresso, que assumimos por inteiro", lê-se, no tal "esclarecimento aos leitores".

Som manipulado

Segundo esta nota, o excerto de sete segundos que foi parar às redes sociais no sábado à noite não é o excerto original mas sim, na verdade, um vídeo filmado com telemóvel a partir do vídeo original que passava num monitor. E houve edição de som, aumentando-o, para que se tornasse perfeitamente audível.

"No sábado à noite, o Expresso recebeu via Whatsapp um vídeo com os mesmos sete segundos, mas que não é o original do Expresso. Em concreto, houve edição de som, aumentando-o de forma a que fosse perfeitamente audível; e foi gravado de um monitor, o que facilmente pode ser comprovado na sua visualização, por comparação com a qualidade de imagem do vídeo original. Alguém gravou o vídeo com um telemóvel ou outro dispositivo, fazendo-o correr primeiro via Whatsapp, depois junto de outras redes sociais", diz o esclarecimento do semanário.

Porque a conversa off the record foi filmada com captação de som e porque depois um excerto dessa conversa foi enviada para duas televisões (RTP e SIC), o semanário diz que "continuará o apuramento de responsabilidades internas" e "tendo já tomado medidas que evitem que o erro se volte a repetir".

"Direitos de propriedade"

Mas vai mais longe: "Paralelamente, o Expresso denunciou junto do Facebook, Twitter e Youtube o referido vídeo por violar os direitos de propriedade que nos pertencem" - ou seja, quer que aqueles sites o coloquem offline.

A direção do semanário afirma também que "assim que se apercebeu que esse vídeo foi enviado [para a RTP e para a SIC], o Expresso pediu às duas televisões que não o usassem e que o apagassem do arquivo". E explica porquê: "Tratava-se de uma conversa confidencial entre uma fonte e os jornalistas, que são parte integrante do trabalho dos órgãos de comunicação social" e "a preservação destas regras é crucial quer para a manutenção da confiança entre as partes, quer para um eficaz apuramento factual da verdade dos factos - fator cada vez mais determinante nas democracias".

Ou seja: "Como diz o nosso Código Deontológico [dos Jornalistas], 'o jornalista não deve revelar, mesmo em juízo, as suas fontes confidenciais de informação, nem desrespeitar os compromissos assumidos, exceto se usarem para canalizar informações falsas'", sendo que "estas regras aplicam-se, naturalmente, a qualquer fonte de informação do jornal".

Mas, seja como for, "tratando-se de uma conversa já fora do âmbito da entrevista, e apesar de a sua divulgação ter fugido ao controlo do jornal, a direção do Expresso lamenta profundamente a gravação e difusão deste vídeo". Salienta também que "nenhuma das televisões usou esse vídeo nas peças que passaram".

"Gravação amadora ilegal"

Esta foi a segunda nota da direção do semanário sobre o caso. No domingo, numa primeira reação ao vídeo que já circulava massivamente pelas redes sociais, o jornal dizia que se tratava de "uma gravação amadora de um ecrã de computador, que reproduz uma recolha de imagens de uma conversa off the record, privada, do primeiro-ministro com jornalistas do Expresso".

O jornal "repudiava absolutamente" a divulgação do vídeo, pela qual dizia que "não tem responsabilidade". E deixava uma ameaça. "Sendo esta gravação amadora ilegal, o Expresso reserva-se o direito de desencadear também os imprescindíveis mecanismos jurídicos para processar os responsáveis pela sua difusão."

Ao mesmo tempo, desculpava-se perante o primeiro-ministro: "Tratando-se de uma conversa já fora do âmbito da entrevista, e apesar de a sua divulgação ter fugido ao controlo do jornal, a direção do Expresso lamenta profundamente o ocorrido e pede, consequentemente, as devidas desculpas ao primeiro-ministro pela quebra de confiança, ainda que involuntária". Também assegurava aos leitores do jornal que "a divulgação de conversas reservadas não é nem nunca será a nossa forma de atuação".

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