Rio discorda de Marcelo e diz que crise é "transversal" ao regime

O líder do PSD, Rui Rio, discordou hoje da análise do Presidente da República sobre a possibilidade de uma crise na direita portuguesa, considerando-a uma visão "otimista" e "superficial", já que a crise é "transversal" ao regime.

"A crise não está só à direita, a crise está no regime comum todo. Neste momento está à esquerda no poder e portanto disfarça à esquerda. Mas o problema é transversal, nós temos uma crise efetiva de regime, com um descrédito muito grande de todo o sistema partidário, não é à direita nem à esquerda", declarou.

Rui Rio, que falava aos jornalistas à margem da Convenção Nacional de Relações Externas e Defesa Nacional do Conselho Estratégico Nacional (CEN), em Albufeira, defendeu que o regime e o sistema partidário precisam de ser revitalizados e que os portugueses estão descontentes com os partidos "como um todo".

Para o presidente do PSD, se este "fosse só um problema do PSD, ou do CDS, ou da direita", haveria possibilidades de, "com facilidade, revigorar a democracia, porque era só parte da democracia que estava em causa", o que, afirmou, não é o que se verifica.

"O PSD tem de ser revitalizado, o CDS também, mas o PS, quando deixar o poder, e os partidos mais à esquerda quando deixarem de ter influência no poder, os portugueses verão que, infelizmente, a crise é transversal", referiu. Segundo Rui Rio, perceber que portugueses estão descontentes com o sistema partidário em geral "é o primeiro passo para poder resolver as coisas", de contrário "é o primeiro passo para ficar tudo na mesma, ou pior".

O Presidente da República considerou na sexta-feira que "há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos" e defendeu que, num contexto destes, o seu papel "é importante para equilibrar os poderes".

UE, NATO e espaço lusófono como prioridades

Na convenção, a intervenção de Rui Rio definiu as prioridades que Portugal deve ter em termos de relações internacionais e de defesa. "Portugal é um Estado euro-atlântico e Lusófono, membro de uma tripla aliança: a União Europeia, a NATO e a CPLP." Esta frase abriu o caminho para Rui Rio enunciar os vetores da estratégia que defende.

Em primeiro lugar, a União Europeia, "um espaço de congruência entre os nossos valores e interesses essenciais: a liberdade, a democracia, os direitos humanos, o estado de Direito, a economia de mercado, o desenvolvimento económico-social, a segurança física e material dos portugueses".

O líder do PSD diz não ter "dúvidas de que a União Europeia tem de se tornar uma grande potência mundial se quiser ter relevância no sistema internacional cada vez mais dominado pelo equilíbrio tripolar Estados Unidos-China-Rússia". E aponta o rumo com críticas a quem faz concessões a partidos anti-UE. "As nossas prioridades neste âmbito são muito concretas e claras, não fazendo quaisquer concessões a partidos extremistas, de direita ou de esquerda, seja para conseguir maiorias parlamentares, seja para formar governo. Que não reste nenhuma dúvida: o PSD não se coligará, formal ou informalmente, com forças partidárias anti-União Europeia e anti-Euro", disse Rui Rio em Albufeira, lembrando que "durante o mandato do próximo Governo, Portugal assumirá a presidência rotativa do Conselho da UE no primeiro semestre de 2021.

Outras prioridades a nível da UE situam-se na atenção ao Brexit e à NATO. "Não podem existir dúvidas sobre o caráter essencial e insubstituível da Aliança Atlântica para a proteção da Europa", considera o dirigente social-democrata. A imigração e as mudanças climáticas foram também elencadas por Rio como temas de relevo no futuro.

Denunciar e combater o populismo

A reforma dos partidos políticos está igualmente mas preocupações. "Outro problema fundamental dos nossos dias, em parte decorrente desta questão, consiste na ascensão de partidos populistas, extremistas e anti-europeus. É preciso denunciá-los e combatê-los energicamente, sem cedências morais e programáticas, desmascarando o carácter antiliberal, antieuropeu e xenófobo do populismo extremista de direita e de esquerda."

O segundo vetor é a ligação transatlântica, que o PSD defende sem ambiguidades. "Vemos, por isso, com preocupação algumas variações que parecem estar em curso na política externa portuguesa, seja por opção, seja por influência da denominada geringonça. A este propósito, permitam-me um parêntesis para dizer que ainda estou hoje para perceber a razão pela qual o governo português se fez representar por segundas linhas na cerimónia nacional comemorativa dos 70 anos da NATO. A nossa preferência neste vetor está naturalmente na relação bilateral com os Estados Unidos da América - a superpotência mundial que é também a grande potência atlântica - e na relação multilateral institucionalizada na NATO. É aí que se garante de forma decisiva a segurança dos espaços territoriais continental e insulares de Portugal", afirmou.

O terceiro vetor "é o espaço lusófono, sendo ele que assegura a singularidade portuguesa e distingue o nosso país de todos os outros, traduzindo-se na relação especial, bilateral e multilateral, com os Países de Língua Oficial Portuguesa; seja na política, seja na economia, seja na cultura, seja, acima de tudo, nos afetos". Rio dedicou muito tempo do seu discurso a este vetor, referindo a importância de valorizar a Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas.

No campo de defesa, defendeu uma maior ligação das Forças Armadas à segurança interna e proteção civil. "As separações do passado cedem hoje lugar à cooperação, à integração e à interoperabilidade." E terminou, tal como tinha começado, com uma citação de Sophia de Mello Breyner, acrescentando agora outro poeta maior da língua portuguesa: "Sophia de Mello Breyner falou por Portugal, que há de sempre voltar junto ao mar para viver o que não viveu. Luís Vaz de Camões batizou o país como o local "Onde a terra se acaba e o mar começa"."

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