Catarina Martins: "Há setores do PS que veem o BE como problema para a maioria absoluta"

Em vésperas da XI Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, a coordenadora bloquista fala do aumento de crispação dos socialistas e garante que o BE só entrará num governo quando "tiver votos" para isso

"Há talvez setores do PS que consideram que o Bloco de Esquerda pode ser um problema para o objetivo da maioria absoluta e tenham decidido que ganhariam alguma coisa com algum tipo de crispação", afirmou Catarina Martins, em entrevista à agência Lusa, quando questionada sobre a subida de tom e crítica dos socialistas em relação aos bloquistas.

No entanto, a líder do BE ressalva que "não é toda a gente que pensa assim no PS", uma vez que já compreenderam que há "um acordo para cumprir e que o Bloco manteve exatamente a mesma postura todos os dias, independentemente das flutuações de outros lados".

Sobre se António Costa está no grupo dos que encaram o BE como um problema para as próximas eleições, Catarina Martins diz querer pensar que o primeiro-ministro está empenhado em concluir a legislatura.

"Eu quero pensar que o senhor primeiro-ministro está tão empenhado como eu em levar a legislatura até ao fim, no cumprimento dos acordos que fizemos em 2015 e indo mais além deles, sempre que é possível", afirma, na véspera da XI Convenção Nacional do BE, que decorre no sábado e no domingo, em Lisboa.

Programas sim, governo... nem por isso

A coordenadora do BE, Catarina Martins, admite que o partido pode vir a ser chamado a "desenhar programas" após as legislativas de 2019, mas adverte que "o Bloco não vai integrar um governo que não é o seu".

"A esquerda não está condenada a, simplesmente, impor alguns limites à ação do Partido Socialista. A esquerda pode ter a responsabilidade de desenhar programas", realça a dirigente bloquista, numa entrevista à agência Lusa em que sublinha que, após as próximas legislativas, voltará a ser "a relação de forças a determinar as soluções" de Governo.

Catarina Martins lembra que, em 2015, quem passou muito tempo a desenhar cenários, "falhou-os todos", porque os partidos da esquerda conseguiram entender-se com o PS para travar o governo PSD/CDS-PP e a política de austeridade de cortes dos rendimentos.

A dirigente bloquista recusa-se, contudo, a indicar a fasquia eleitoral que poderá levar, desta vez, os bloquistas para um governo de esquerda, defendendo que ainda há um caminho longo a percorrer até às eleições legislativas de 2019.

"Nós só estaremos no governo quando tivermos os votos para estar", assegura, depois de reconhecer que a execução da estratégia económica do partido será "mais fácil se o Bloco tiver votos e força para isso".

o país não pode contar que haverá sempre uma conjuntura externa favorável"

"É preciso ter a clareza de dizer para onde é que nós queremos ir depois deste percurso. Fizemos o acordo para parar o empobrecimento do país - era tão modesto, mas tão importante quanto isso em 2015 -, afastámos a direita, acabámos com os cortes em salários e pensões, parámos a privatizações", lembra a líder do BE.

Mais políticas sociais

E, agora, "o que fazer daqui para a frente?". "Para o Bloco, este é o tempo de pensarmos que isto não é tudo o que o país precisa, porque nós temos problemas estruturais gravíssimos e precisamos de olhar para o país que temos", defende.

"Nós achamos que falta muito. Falta reequilibrar as relações laborais, porque a precariedade ainda é regra... regras laborais mais fortes, um Estado social mais capaz, recuperar o universalismo do estado social", indica.

Catarina Martins aproveita para salientar que, em Portugal, "ter filhos é um sinal de empobrecimento", sustentando que "questões como recuperar o universalismo do Estado social ou os passes dos transportes serem para toda a gente são pequenos passos que devem ser alargados" na próxima legislatura.

Mas, a coordenadora do BE adverte que "uma coisa é fazer convergências sobre matérias centrais, outra coisa é achar que um partido político pode governar com um programa que não é seu". "Isso é impossível, isso não existe", acentua, manifestando "muita preocupação com a política europeia", designadamente quanto à "retórica sobre uma invasão de imigração".

"Nós só estaremos no governo quando tivermos os votos para estar"

Conjuntura externa

A líder do BE alerta que "o país não pode contar que haverá sempre uma conjuntura externa favorável", defendendo, por isso, que "as questões da estratégia económica para o futuro são fundamentais". Catarina Martins sublinha que até aqui "foi possível haver crescimento económico porque se recuperaram salários e pensões" e foi até possível uma "consolidação orçamental".

Mas, diz, Portugal tem "uma economia muito vulnerável a choques externos", pelo que precisa de "uma estratégia de longo prazo" que amorteça efeitos das crises económicas. Esta tema abrangerá "uma boa parte do debate" político da Convenção Nacional do BE, que decorrerá no sábado e no domingo no pavilhão do Casal Vistoso, em Lisboa.

Assim, acrescenta Catarina Martins, a estratégia passa por "recuperar o controlo de alguns bens comuns, em setores estratégicos", mas, também, pela "capacidade de apostar no investimento", sobretudo em áreas relacionadas com "o território e alterações climáticas".

A "reconversão energética", a aposta na tecnologia "de uma outra forma", para "com isso criar emprego e emprego qualificado", mas também "gerar riqueza e defender o clima", são ideias preconizadas pela dirigente bloquista.

"Ricardo Robles errou, reconheceu o erro e em 72 horas tínhamos mudado o vereador, mas não teve nenhum comportamento ilegal"

A relação com os comunistas e a renovação

À pergunta se o BE e o PCP são hoje partidos mais próximos ou mais antagonizados, Catarina Martins responde, primeiro, que é preciso valorizar "muito o trabalho e a convergência" com os comunistas.

"Registo que mantemos diferenças profundas - e para nós amargas - como, por exemplo, o PCP não ter apoiado a despenalização da morte assistida e permitir à direita chumbar um projeto que é uma ambição do país", lamenta.

No entanto, a deputada do BE assinala "também que em matérias como a adoção por casais do mesmo sexo, a posição do PCP tem vindo a evoluir e deu alguns passos que há uns anos se acharia impossível dar", tendo a expectativa que o partido "faça parte das ideias progressistas também no campo dos direitos e liberdades individuais".

A XI Convenção Nacional, reunião magna do partido que começa no sábado, é, para Catarina Martins, "um momento de balanço", precisamente no dia em que passam três anos sobre a assinatura dos acordos que viabilizaram o Governo minoritário do PS.

"É verdade que é um momento em que o Bloco se confronta com as próprias responsabilidades que teve, acrescidas, e também que coincide com o momento em que já há uma colaboração estreita, pensada, quotidiana entre uma geração mais nova dirigente porque o Bloco nestes últimos anos procedeu a uma enorme renovação", destaca.

"Para o Bloco, este é o tempo de pensarmos que isto não é tudo o que o país precisa"

Para a dirigente, "o BE tem neste momento uma convergência grande de direção sobre os caminhos que tem de seguir", desvalorizando qualquer impacto da polémica que envolveu o antigo vereador bloquista na Câmara de Lisboa, Ricardo Robles.

A polémica Robles

"O BE considera que Ricardo Robles errou, reconheceu o erro e em 72 horas tínhamos mudado o vereador, mas não teve nenhum comportamento ilegal. Nós reconhecemos os erros e corrigimos, mas não houve sequer nenhum comportamento ilegal. Não sei se há muitos partidos que tenham o mesmo comportamento que o Bloco", aponta.

A Convenção acontece no ano em que o partido perdeu uma das suas figuras de destaque, o antigo coordenador João Semedo - que partilhou com Catarina Martins, entre 2012 e 2014, a liderança 'bicéfala' - e que morreu em julho último.

"O João foi muito mais, na política, do que esses dois combates [Lei de Bases da Saúde e despenalização da eutanásia] que foram os últimos e que foram muito importantes. Foi a capacidade de interlocução, de criar pontes. Foi saber que a determinação na política do programa nunca é o sectarismo, nunca é dizer que não conseguimos construir pontes ou dialogar com outros", elogia.

Marisa Matias

Catarina Martins elogia o "trabalho extraordinário" desempenhado pela eurodeputada do BE, Marisa Matias, que "é reconhecido não só em Portugal, mas em toda a Europa e mesmo do ponto de vista internacional".

No entanto, questionada sobre se Marisa Matias voltará a ser cabeça de lista nas eleições europeias do próximo ano, remete a decisão para os órgãos próprios do partido. "Vamos fazer esse percurso de debate. Acho que a Convenção é também um momento muito importante e eu diria que esse é um tema que não pode ficar de fora", salienta.

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