Ana Gomes "comete um erro" se transformar Ventura no seu adversário

Avanço de Ana Gomes é uma boa notícia para a democracia portuguesa, concordam politólogos. António Costa Pinto aponta uma candidatura transversal que extravasa o espaço político da esquerda. Adelino Maltez alerta para o perigo de um duelo pessoal com o candidato do Chega.

A entrada de Ana Gomes na corrida às presidenciais é uma boa notícia para a democracia em Portugal na medida em que induz uma maior participação numas eleições habitualmente marcadas por uma elevadíssima abstenção, da mesma forma que promove uma maior polarização.

Quem o diz é António Costa Pinto, investigador coordenador no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Uma perspetiva que é corroborada pelo politólogo Adelino Maltez: "A existência destas candidaturas enriquece a democracia."

Depois de anunciar estar em reflexão sobre uma eventual candidatura, Ana Gomes confirmou ao jornal Público que será candidata a Belém. Umas eleições que somam agora três nomes à esquerda - a bloquista Marisa Matias avança oficialmente como candidata nesta quarta-feira, numa altura em que falta conhecer quem protagoniza a candidatura presidencial pelo PCP (o nome será revelado no sábado). À direita, Marcelo Rebelo de Sousa ainda não confirmou uma recandidatura de que ninguém duvida. O Chega avança com André Ventura e o Iniciativa Liberal com Tiago Mayan Gonçalves.

Com um discurso "claramente conotado à esquerda do espectro político", é neste eleitorado que a candidata socialista - que, ao que tudo indica, não terá o apoio do seu partido - terá maior repercussão. Mas António Costa Pinto sublinha que Ana Gomes tem características que lhe dão transversalidade no eleitorado. A candidata "protagoniza aquilo que se pode chamar um discurso justicialista de esquerda", que quebra as barreiras da tradicional divisão direita-esquerda. Não por acaso, André Ventura já reagiu à notícia do avanço da candidata, afirmando que se demite da direção do Chega se ficar atrás de Ana Gomes nas presidenciais.

Adelino Maltez considera que a ex-eurodeputada "vai ter a tentação enorme de transformar André Ventura no seu adversário principal. Se o fizer, comete um erro", adverte, acrescentando que esta é uma polarização que "interessa a Marcelo Rebelo de Sousa" na medida em que potencia o discurso da figura que une os portugueses e que está acima da contenda eleitoral - "Marcelo Rebelo de Sousa não está nesta corrida. Está a concorrer com Mário Soares, com Jorge Sampaio, com Cavaco Silva."

António Costa Pinto destaca duas dificuldades que se levantam à antiga eurodeputada. Por um lado, o facto de Bloco de Esquerda e PCP avançarem a título próprio - com o que o politólogo designa como "candidatos de manutenção", que visam manter o espaço dos dois partidos. Sem estas candidaturas, Ana Gomes "teria a hipótese de ser a candidata de segmentos importantes daquilo que se designa como geringonça". Por outro lado, avança sem um aparelho partidário que sustente a candidatura, uma questão que "não deve ser subestimada". E um último fator que as sondagens têm revelado: "O eleitorado do PS tem uma grande propensão para votar Marcelo Rebelo de Sousa."

Já Adelino Maltez defende que "muitas bases do PS vão fugir" para Ana Gomes. Para o politólogo, que defende que a candidata deve ter como meta passar a fasquia dos 20% (e ficar à frente de André Ventura), "este é um desafio difícil" - "mas é evidente que Ana Gomes gosta de coisas difíceis".

Olhando para a totalidade do espaço político, António Costa Pinto defende que a candidatura da ex-eurodeputada "reforça a legitimidade" do PSD, e também do CDS, apoiarem Marcelo. Embora, no caso dos centristas, seja um problema o facto de o Chega e o Iniciativa Liberal avançarem com candidatos próprios. Mas sublinha que é preciso relativizar: "Não sobrevalorizemos muito a importância destas presidenciais para a sociedade portuguesa. Toda a conjuntura é pouco favorável, a dinâmica da pandemia, a redução da campanha eleitoral."

E pode a candidatura de Ana Gomes ser divisiva dentro do PS? António Costa Pinto lembra que este cenário de um socialista que avança para as presidenciais à margem do partido não é nada a que os socialistas não estejam habituados - Manuel Alegre e Maria de Belém Roseira são dois exemplos recentes. Por outro lado, Ana Gomes "não tem nenhum peso no aparelho" socialista - "vamos ver até que ponto vai recolher apoios entre os notáveis do PS" -, e isto num contexto em que o PS "sabe que estas eleições estão potencialmente ganhas por Marcelo Rebelo de Sousa". Circunstâncias que retiram atrito à relação da candidatura com o partido.

Por definir está ainda a posição que o PS assumirá relativamente às presidenciais. A questão foi lançada por António Costa em maio quando, numa visita à fábrica da Autoeuropa em Palmela, falando na condição de primeiro-ministro e com o Presidente da República a assistir, deu como certa a reeleição de Marcelo Rebelo de Sousa para Belém. Dias depois, na SIC, Ana Gomes não poupou nas palavras, afirmando que "o PS não é o partido de Costa" e que "a democracia não está suspensa" no PS. Foi o ponto de partida para a reflexão da antiga diplomata, entretanto interrompida pela morte do marido, mas que se traduziu agora no anúncio da candidatura, que será oficializada nesta quinta-feira.

Mais Notícias