Para que serve este congresso do PSD? Unidade, alianças e como roubar espaço ao PS

Rui Rio quer mobilizar o PSD e diz que conta com todos. Mas poderá desafiar os opositores a darem a cara pelo partido. Montenegro e Pinto Luz também lhe vão exigir resultados.

Rui Rio entra no 38.º Congresso do PSD em Viana do Castelo com a liderança reforçada, depois de ter batido na segunda volta Luís Montenegro. Mas o partido ainda ficou dividido e há feridas por sarar. Os combates eleitorais estão aí ao virar da esquina, com as regionais dos Açores já neste ano e as autárquicas no próximo. Um dos temas incontornáveis deste congresso é o da unidade, capaz de pôr o partido todo a remar para o mesmo lado. Mas será mesmo assim?

O líder eleito reforça a ideia de que está disposto a trabalhar para a unidade se os que o desafiaram se mantiverem fiéis. "Andar com a unidade na boca, como fez Luís Montenegro, é muito bonito, mas é preciso ver como se ela se efetiva", diz ao DN, um dia antes do congresso, um destacado membro do partido. "Não há unidade sem propósito. Qual é o compromisso que os críticos querem?", questiona a mesma fonte.

E deixa as pistas para a unidade a que Rui Rio apela. "Na comissão política e na comissão permanente (o núcleo duro da direção) não faz sentido estarem representados. As várias listas ao Conselho Nacional, eleitas pelo método de Hondt, vão garantir essa representatividade." Mas, continua, "resta saber se este será um palco para se demarcarem novamente".

Na abertura do congresso, Rui Rio prometeu tentar conquistar a "confiança" dos que lhe quiseram conquistar o lugar nas diretas do PSD e "com boa fé". Mas os lugares não vão estar à espera deles.

Neste sábado ficar-se-á a saber se Montenegro continuará a marcar o seu território no partido - embora esteja numa posição mais desfavorável, depois de ter perdido as diretas - e se Miguel Pinto Luz vai reposicionar-se como uma reserva do futuro. O ex-candidato fez saber, antes do congresso, que iria intervir no congresso e que não patrocina nenhuma lista ao Conselho Nacional. O vice-presidente da Câmara de Cascais não precisa de o fazer porque os seus apoiantes vão movimentar-se em Viana para o fazer, numa lista que deverá ser encabeçada por Bruno Vitorino, presidente da distrital do Setúbal do PSD.

Ambos chegaram a Viana do Castelo muito reservados e prometer ouvir o líder eleito. Pinto Luz ainda lançou uma farpa quando questionado se será "fiel" a Rio: "Sou sempre fiel ao PSD". Outro apoiante do Montenegro, Pedro Duarte, que em tempos se posicionou como potencial candidato à liderança, deixou também o recado: Quando domingo sairmos espero que nos sintamos um partido com um líder e não um líder com o partido".

Luís Montenegro também terá os seus ativos no partido a garantir que os 47% que conseguiu nas diretas são refletidos no órgão máximo entre congressos. Mas não abriu o jogo no primeiro dia de congresso.

Mas no partido, mesmo junto do seu núcleo duro, espera-se que Rui Rio desafie os críticos, e muitos dos que estiveram do outro lado da barricada, a darem a cara nas eleições autárquicas de 2021 e alguns a assumirem candidaturas capazes de os colar aos resultados do partido.

O combate autárquico, apelo à mobilização do partido para esta eleição, será outro dos temas de fundo do congresso. Um tema que se interliga a outro que deverá suscitar o debate das bases do PSD: o da união ou não das direitas para combater as alianças à esquerda, ainda que agora mais diluídas nesta legislatura.

No longo discurso inaugural, Rio rejeitou a complacência com os casos de corrupção no poder local, garantiu que no PSD serão escolhidos os melhores. "Um autarca não é uma escolha de um amigo nem a de um líder de fação. E estabeleceu também a fasquia da vitória que quer nas eleições autárquicas. "É preciso recuperar o terreno perdido em 2013 e 2015".

"É importante nesta fase o PSD dar sinais de que está aberto a todas as colaborações, e o primeiro teste são as autárquicas", afirma outra fonte da direção do partido. Uma maior aproximação ao CDS, com o qual o PSD tem várias câmaras em coligação, mas também "com outras forças à direita do PS e com movimentos independentes".

Se o Chega de André Ventura cabe neste chapéu de alianças também dará pano para mangas. No PSD há quem defenda que sim, como um dos principais apoiantes de Luís Montenegro, o autarca da Famalicão Paulo Cunha, como há quem rejeite liminarmente essa possibilidade.

Mas o líder eleito do PSD, sem nunca mencionar qualquer força, deixou perceber que essa não é a sua opção. Lembrou os fenómenos extremistas a Europa, para alertar para o facto de nas eleições legislativas de outubro já haver sinais de que "há no nosso sistema partidário sinais de degradação".

O estilo de oposição que Rui Rio fará ao governo também divide o PSD e foi, aliás, um dos pontos em que Luís Montenegro se tentou demarcar, em contraponto ao líder eleito, prometia uma oposição mais aguerrida ao PS e ao governo, sem cedências e sem acordos. Será esse um dos motes do seu discurso aos delegados.

Rui Rio manteve firme a ideia de que o PSD não rejeita acordos que sejam a bem do país e das reformas necessárias, tem agora o trunfo de se ter batido no debate do Orçamento do Estado pela descida do IVA da eletricidade, apesar de a proposta não ter vingado. Mas permiti-lhe demonstrar que não "se pode estar eternamente a fazer oposição, mas é preciso escolher o tempo e os temas adequados para o fazer".

"Não adianta insistir na política do bota-abaixo", disse aos delegados, num dos momentos em que foi mais aplaudido num congresso muito morno.

No primeiro discurso de abertura do congresso, na sexta-feira, já esteve lá tudo, Rio a tentar acordar o partido para os combates eleitorais e a apontar as propostas para o país.

Sem fechar a porta coligações à direita, colocou o PSD como o líder dessa opção à direita, sem especificar com que partidos os sociais-democratas se poderão entender. E voltou a apontar 2021 como um ano em que o PSD poderá ter de se preparar para "governar Portugal".

Rejeitou esse caminho do PSD para a direita e quer mantê-lo ao centro, a tentar conquistar o eleitorado descontente do PS. "Deslocar o PSD para a direita é desvirtuar os nossos princípios e os nossos valores e afunilar eleitoralmente o partido, em direção a um espaço onde hoje já praticamente nada mais há a ganhar".

A renovação dos rostos dos órgãos do PSD também é esperada. Fontes do partido asseguraram ao DN que Rui Rio deverá renovar a comissão permanente do PSD, o núcleo duro da direção, e a comissão política, que é um órgão de decisão mais alargado e com várias inerências. É dada como muito provável a saída do vice-presidente José Manuel Bolieiro, que é o candidato do partido às regionais dos Açores, que se realizam em outubro, já que o líder eleito social-democrata quer que se concentre no combate na região autónoma.

Combate aliás que elegeu como uma das prioridades para 2020. Com a saída de José Manuel Bolieiro abrir-se-ia espaço para entrar uma figura muito cara a Rio, André Coelho Lima, mandatário distrital de Braga da sua candidatura e que seria uma aposta para a Câmara Municipal de Guimarães. Elina Fraga, antiga bastonária da Ordem dos Advogados, é outro dos nomes tidos como prováveis para sair da direção.

Seguro é já que Paulo Rangel, o cabeça de lista do PSD nas europeias, vai liderar a lista de Rio ao Conselho Nacional e que Arlindo Cunha, antigo ministro de Cavaco Silva, também integrará a lista oficial.

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