1 de outubro de 2017: o dia que fez cair Pedro Passos Coelho

Há exatamente um ano, o líder do PSD perdia com estrondo as eleições autárquicas. Foi o princípio do fim do passismo

"Tudo indica que teremos tido um dos piores resultados de sempre do PSD". Faz esta segunda-feira um ano que Pedro Passos Coelho subia ao púlpito na sede do partido, na São Caetano à Lapa, para assumir a pesadíssima derrota dos sociais-democratas nas eleições locais. Os números ainda não estavam totalmente fechados, mas já não havia dúvidas de que o partido tinha ficado longe, muito longe, das metas traçadas para a noite eleitoral. "Disse que não me demitiria em consequência de eleições locais e mantenho", dizia então Passos Coelho, mas desde logo abrindo a porta a uma não recandidatura à liderança. Mas a porta entreaberta por Passos já estava escancarada por outros. Às nove da noite de 1 de outubro de 2017, uma "atónita", "chocada" e "abalada" Manuela Ferreira Leite já vaticinava o futuro do líder do PSD: "Não tem condições" para continuar. Com pouquíssimas exceções, o partido haveria de acompanhá-la na leitura.

Uma noite "horribilis" na São Caetano à Lapa

No PSD já estava toda a gente à espera de um mau resultado, mas não tanto como antecipavam as sondagens às oito da noite - a candidata social-democrata a Lisboa, Teresa Leal Coelho, chegava a aparecer em quarto lugar, atrás do PS, CDS e PCP. No Porto, o cenário não era muito melhor, com o candidato 'laranja', Álvaro Almeida, na fasquia dos 10%, a léguas de distância do PS e do independente Rui Moreira, que viria a ganhar com maioria absoluta. No resto do país, o PSD via o PS manter todas as principais câmaras que já detinha, e ainda averbar a presidência de mais algumas, ganhas sobretudo ao PCP.

Na São Caetano à Lapa, os dirigentes nacionais do partido mantinham-se longe da vista. Mas, nas televisões, o futuro de Pedro Passos Coelho era um dos grandes temas da noite. Na SIC, Luís Marques Mendes falava num "terramoto eleitoral" e antecipava "um inferno completo" à liderança de Passos.

Para além do mau resultado global (que, apesar de tudo, no final da noite não foi tão mau como antecipavam as sondagens), o líder do partido foi responsável direto pela escolha da candidata a Lisboa, num processo que fica para história como exemplar de tudo o que não se deve fazer num processo eleitoral. Primeiro foram meses à espera do candidato Pedro Santana Lopes, que afinal não o era. Depois foram meses de indefinição, com os nomes a multiplicarem-se nas páginas dos jornais. O coordenador autárquico, Carlos Carreiras, chegou a garantir que não seria uma mulher - e foi. Em Lisboa, as estruturas locais do partido digladiavam-se, numa guerra interna que acabou com a demissão do então líder da concelhia, Mauro Xavier. Anunciado o nome de Teresa Leal Coelho, amiga pessoal de Passos, a campanha eleitoral (ou a falta dela) ainda veio ajudar ao descalabro. E, corolário da lei de Murphy - se pode correr mal, corre mal, no pior momento -, a dois dias das eleições, Sofia Vala Rocha, a quinta da lista do PSD à câmara, dava uma entrevista ao DN a arrasar Passos e Leal Coelho.

O líder do PSD não tinha como evitar a responsabilidade direta no desaire eleitoral. E não evitou. Com eleições previstas para o início deste ano, Pedro Passos Coelho foi ao Conselho Nacional do partido, dois dias depois, anunciar que não se recandidatava à liderança do partido.

Disse que não me demitiria fosse qual fosse o resultado. Reafirmo o que disse, mas como não saio ileso deste resultado não posso deixar de tirar dele consequências para futuro

Estava anunciado o fim do passismo, numa altura em que Rui Rio já mobilizava tropas para a corrida à liderança, e os passistas procuravam um nome que lhe fizesse frente. A solução mais óbvia, Luís Montenegro, o líder parlamentar da era Passos Coelho, colocou-se de fora da contenda, alegando "razões pessoais e políticas". Depois, foi a vez de Paulo Rangel dizer 'não', invocando "razões familiares".Acabaria por ser Pedro Santana Lopes - que entretanto deixou as hostes sociais-democratas para formar o partido Aliança - a congregar o apoio das forças passistas.

A 13 de janeiro deste ano, Rui Rio venceu as eleições internas entre os sociais-democratas, arrecadando 54,4% dos votos, contra 45,6% de Santana Lopes. Começou assim o discurso de vitória: "O PSD não foi fundado para ser um clube de amigos ou pensado para ser uma agremiação de interesses pessoais". Foi premonitório: os últimos meses têm confirmado que o PSD não é um clube de amigos.

Deixada a liderança, Passos Coelho renunciou também ao lugar de deputado na Assembleia da República. Dedicou-se entretanto à vida académica, com a nomeação como professor catedrático convidado do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) a causar, de imediato polémica. O antigo líder remeteu-se, entretanto, ao silêncio, quebrado há poucos dias com um artigo no jornal online Observador, muito crítico da não recondução de Joana Marques Vidal como Procuradora-Geral da República. Uma intervenção que tem dado azo a outras leituras, um ano depois do dia que ditou o fim do passismo.

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