Waleed Aly, o muçulmano que conquistou a Austrália

O apresentador, filho de país egípcios, defendeu a igualdade de oportunidades e denunciou a discriminação religiosa no seu país. Waleed Aly venceu a maior distinção da área da televisão no seu país

Quando Waleed Aly lançou o livro Pessoas Como Nós: Como a Arrogância Está a Dividir o Islão e o Ocidente, em 2007, já o público australiano estava familiarizado com a presença do muçulmano, de ascendência egípcia, na televisão.

Esta não é a história de alguém que, contra todas as probabilidades, vingou no panorama mediático australiano: Waleed Aly frequentou as melhores escolas, formou-se em Direito e aprendeu com os melhores.

A primazia das suas opiniões e comentários, políticos e sociais, nos espaços dos outros (programas e jornais), foi assumindo uma preponderância que culminou no convite para apresentar o programa The Project.

O prémio Gold Logie de Melhor Personalidade na Televisão, que lhe foi entregue no início deste mês, é o reconhecimento de um trabalho que não tem confissão religiosa atribuído, ainda assim, por uma população maioritariamente cristã. "Aceito este prémio em nome das muitas pessoas que interpretam a minha presença, neste palco, como também uma vitória para elas. Uma pessoa - que todos vocês conhecem - abordou-me e disse-me: "o meu nome é Mustafa mas não posso usar esse nome na indústria televisiva senão não conseguiria arranjar trabalho"", partilhou Waleed Aly com uma audiência incrédula.

Na plateia, a única mulher cujos cabelos estavam tapados batia palmas, não escondendo o orgulho no marido, com quem tem dois filhos. Aly retribuiu o olhar encantado de Susan, do palco para a plateia, com uma revelação surpreendente: "Há muitas coisas que poderia dizer sobre a Susan mas a verdade é que - e isto é um pequeno segredo que guardo há muito tempo - se ela tivesse o meu trabalho seria muito melhor do que eu: é mais perspicaz, mais engraçada, infinitamente mais encantadora e simpática e estou muito contente por ela não ter o meu trabalho senão eu não o teria [risos]. Mas a razão de ela não o ter é que tem coisas mais importantes para fazer. Ela muda as pessoas, muda-as para melhor. E isso pode ser visto no seu trabalho com a comunidade. Infelizmente não dão prémios a trabalhos como o dela mas um dia, se a vida for justa, pode ser que lhe deem uma estátua."

Educado por país egípcios segundo as diretrizes sunitas do Islão, Waleed Aly formou-se primeiro em engenharia mas foi no Direito que se profissionalizou, em 2002. O apresentador, antes de o ser, trabalhou cinco anos ao lado de um juiz do tribunal australiano da Família e fez ainda uma incursão pro bono no Centro de Direitos Humanos.

Com presença assídua nos media, apenas em 2015 Aly assumiu permanência fixa na televisão australiana, ao apresentar The Project, de cujo elenco de comentadores já fazia parte, ainda que intermitentemente, desde 2009. "Um programa que não chega aos ecrãs de televisão das pessoas mas sim aos corações das pessoas. Estou imensamente orgulhoso dele", revelou Aly no discurso de aceitação do Golden Logie.

The Project, transmitido nas noites de segunda a sexta-feira, centra-se na atualidade e dá grande liberdade de opinião aos apresentadores. Um dos momentos de maior repercussão de Aly foi o seu monólogo de cinco minutos sobre a alegada grandeza do Estado Islâmico, e de como cabe a cada um combater essa mesma expansão. ISIS é Fraco, o nome do segmento, desconstruía a organização do califado islâmico, evidenciando a forma como o grupo terrorista se apropria de todos os ataques isolados, nos diferentes pontos do globo, de forma a iludir a real dimensão da rede.

A forma como Aly abordou o tema foi uma novidade para muitos ocidentais, visto o apresentador ter descrito na primeira pessoa que é ao confundir-se o terrorismo com o Islão, a religião que Waleed pratica, que o Estado Islâmico ganha mais força.

Muito do sucesso de Aly reside na sua capacidade de oratória, que não separa o profissional do pessoal quando entende que assim deve ser: sincero com o seu público e fiel a si próprio. Paradigma disso mesmo foi quando abordou o tema do autismo , condição diagnosticada ao filho, de 13 anos, em 2011. Com a mulher, Waleed tinha acordado de que não abordaria o assunto familiar e íntimo com o grande público, mas Ali sentiu que o estigma da condição que afeta cerca de 116 000 australianos estava a assumir contornos que necessitavam de um interlocutor. Depois de falar com Susan, o apresentador, em 2014, levou o tema ao programa, com que na altura ainda colaborava de forma intermitente.

Além de melhor personalidade de televisão, Waleed arrecadou também o galardão para melhor apresentador de televisão. A noite de entrega de prémios da revista TV Week ficará para sempre marcada no mundo audiovisual australiano, e ainda mais na mente de Aly, que sente que recebeu um prémio não apenas pelo seu trabalho, mas por todos aqueles que se viram impedidos de serem quem realmente são devido às barreiras religiosas e culturais.

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