Vem aí a redução do período de quarentena?

A França deverá diminuir o período de isolamento dos casos positivos de 14 para sete dias. Nos EUA já são 10 dias. Em Portugal, a diretora-geral da Saúde já deixou essa possibilidade em aberto, "mas só com evidência científica robusta".

À medida que alguns países, como a vizinha Espanha, enfrentam uma segunda vaga da pandemia de covid-19 vão também surgindo as notícias de redução do período de quarentena, até aqui de 14 dias na generalidade dos países. Esta terça-feira, 8 de setembro, foi a vez da França anunciar que o conselho consultivo propõe a diminuição para sete dias, ou seja, menos uma semana de isolamento para os casos positivos.

Na América, o Centro de Controlo de Doenças (CDC) recomenda dez dias, o Reino Unido está a estudar uma quarentena de sete para quem chega ao país. Em Portugal, a diretora-geral da Saúde já disse que "só com evidência científica robusta" é que o período de isolamento será diminuído, mas deixou essa possibilidade em aberto. E está em estudo pelos peritos, apurou o DN.

As decisões dos governos para a diminuição da quarentena deve-se ao facto de os especialistas disporem de um maior conhecimento do vírus, nomeadamente de já ser adquirido que o tempo de incubação é, em média, de 5/6 dias. Mas também de, após mais de 27 milhões de casos, haver maior capacidade de diagnóstico, explica Ricardo Mexia, presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública. "O encurtamento desse período ajuda a reduzir o impacto na disrupção da vida das pessoas e na economia", adianta.

Filipe Froes, pneumologista, afirma que "está provado que em alguns doentes os 14 dias são excessivos" e, como há muitos pacientes com sintomas ligeiros e até assintomáticos, esses podem fazer um isolamento inferior, por exemplo, de dez dias. "Eventualmente esse confinamento até pode ser mais curto, mas neste momento existe evidência estabelecida que nos permite dizer que, em determinadas condições, dez dias podem ser suficientes."

E isso obriga a rever as normas? "Obriga, porque isso reduz o retorno à vida normal, profissional e familiar sem que seja posta em causa a segurança de ninguém", diz o também coordenador do grupo de crise para a covid-19 da Ordem dos Médicos. Acrescentando que o CDC americano já apresenta fundamentos para os dez dias de isolamento. Com algumas particularidades - desde que o doente esteja apirético há mais de três dias, sem medicação para baixar a febre, e com melhoria acentuada dos sintomas; e para os assintomáticos a contar do último teste.

Redução para sete dias sem a robustez de dez

Para o pneumologista, a diminuição da quarentena para sete dias - como está a ser estudado pelas autoridades britânicas, por exemplo - "ainda não tem a robustez dos dez dias, mas não quer dizer que em algumas circunstâncias não possa acontecer". O que Froes recusa é que essa redução seja feita com base em critérios para ir ao encontro da vontade das pessoas sem que se salvaguarde os interesses de saúde pública. "Reduzir com base de que as pessoas já estão saturadas é a mesma coisa que ter de passar um antibiótico a um doente durante sete dias, mas ele ao fim de três dias estar saturado e eu deixar de lhe dar o remédio por uma semana. É uma cedência da inteligência à estupidez. Temos de adaptar a atuação com base no conhecimento, mas nunca pondo em causa a segurança individual e coletiva."

O médico está criticar em concreto as palavras do ministro da Saúde francês. Porque Olivier Véran considerou que menos dias de isolamento irá promover "uma maior adesão" dos cidadãos. "Vemos que um grande número de franceses não respeita a quinzena de isolamento."

O parecer do conselho consultivo francês foi conhecido nesta terça-feira, mas a decisão final do governo só deverá ser anunciada na sexta-feira, para poder obter a opinião de mais peritos. Ainda assim, o ministro fez questão de alertar para o facto de o risco de contágio ser maior nos primeiros cinco dias, o que pode evidenciar qual será o veredicto do executivo. "O contágio diminui muito significativamente, e depois de uma semana permanece, mas é muito fraco."

Tanto Filipe Froes como Ricardo Mexia acreditam que Portugal poderá vir reduzir o tempo de isolamento, eventualmente para os dez dias, desde que não esteja posta em causa a segurança da população. A diretora-geral da Saúde já disse, a esse propósito, que isso seria "extraordinariamente positivo".

"Temos grandes expectativas de que venha a ser claramente estabelecido que o período de contágio é muito pequeno a partir dos dez dias."

"Temos grandes expectativas, nós e toda a comunidade em todo o mundo, de que venha a ser claramente estabelecido que o período de contágio é muito pequeno a partir dos dez dias de início de sintomas ou contacto com caso de doente", afirmou Graça Freitas no passado dia 31 de agosto. "Vemos com muita expectativa positiva poder encontrar esse período, mas vamos ver se há essa evidência", concluiu.

E, quando se fala numa segunda vaga da pandemia do novo coronavírus, falar em encurtar o tempo de isolamento não poderá parecer contraditório? "Uma segunda vaga, ou segunda onda, não é um conceito muito técnico, é uma coisa quase semântica. É verdade que agora podemos vir a ter um impacto muito maior, fruto da retoma da atividade letiva suspensa desde março, do regresso de férias, do outono e do inverno, que têm maior circulação de vírus respiratórios. É plausível um aumento, como já se está a verificar em diversos países, como Espanha e França", diz Ricardo Mexia, ao mesmo tempo que sublinha que a chave está numa comunicação assertiva e clara do que são os verdadeiros fatores de risco.

Coordenação europeia, precisa-se

O governo alemão está, por outro lado, a avaliar se porá fim à obrigatoriedade de os passageiros que chegam de zonas de risco fazerem testes à covid-19. Em contrapartida, o ministro da Saúde, Jens Spahn, sugeriu impor uma quarentena de, no mínimo, cinco dias.

Um dos fatores que poderão justificar esta decisão é a sobrecarga dos serviços de saúde alemães com os testes gratuitos para viajantes.

Filipe Froes considera que o entendimento das autoridades alemãs para impor uma quarentena obrigatória passa pelo facto de o período médio de incubação ser 5,2 dias - os sintomas podem, contudo, ocorrer entre o segundo e o décimo dia. "Apanham a maior parte dos casos, mas perdem os que desenvolvem os sintomas mais tarde e os assintomáticos - e sabemos neste momento que a maior parte das pessoas são assintomáticas. Eu preferia fazer o teste. Se quero ir a uma reunião de três dias à Alemanha, e se tenho de esperar cinco dias, então não vou."

"O pior que pode acontecer é um indivíduo entrar num país e fazer cinco dias, noutro 14, noutro um teste, noutro não poder viajar."

À medida que os países vão começando a encurtar o período de isolamento, começa a ser também necessário que o Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC) estabeleça recomendações globais para a União Europeia, entende Froes.

"Precisamos de ter maior articulação e coordenação na área da saúde pública no espaço comum. O pior que pode acontecer é um indivíduo entrar num país e fazer cinco dias, noutro 14, noutro um teste, noutro não poder viajar. Dirão que há diferentes níveis. Mas, para diferentes níveis, estabelecemos diferentes intervenções. E, em diferentes países, as intervenções são iguais de acordo com o nível. Tudo claro, transparente e coerente."

Perante o que já se sabe sobre o SARS-Cov-2 e ao mesmo tempo que os países vão incentivando o regresso à normalidade, é de esperar uma redução do período de quarentena no mundo inteiro? "Não sei se é expectável. Vai depender da avaliação de risco pelas entidades. Desde que não haja aumento de risco, e se o número de pessoas que têm período de incubação superior a dez dias continuar a ser muito reduzido, poderá haver essa possibilidade", sustenta, por seu turno, Ricardo Mexia.

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