"Talvez tivesse valido a pena ter tido coragem de fazer cercas sanitárias noutros locais"

A Câmara de Ovar reativou o gabinete de crise devido a mais casos de infeção por covid-19. O presidente da autarquia garante ao DN que é "prevenção" e diz que esta atitude tem faltado ao Governo na gestão da pandemia.

A Câmara Municipal de Ovar reativou esta terça-feira o seu Gabinete de Crise e o Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil devido ao aumento local de casos de infeção pelo novo coronavírus. O presidente da autarquia garante ao DN que se trata de agir em "prevenção", ao invés do que está a acontecer com o Governo no resto do país, que se limita a "gerir a espuma dos dias". Salvador Malheiro defende mesmo que "o país se calhar estava melhor" se tivessem sido feitas cercas sanitárias em bairros ou ruas quando a situação de contaminação comunitária se começou a agravar.

"Hoje em Ovar estamos claramente melhor do que o resto do país. Em março e abril, o município estava muito pior do que o resto do país. Em março/abril tínhamos 500/600 caso ativos e Portugal tinha 25 mil casos ativos. Hoje temos no país 50 mil casos ativos e em Ovar 140, reduzimos dois terços". O que não impediu que fosse reativado o gabinete de crise, que o autarca justifica.

"Ativamos este plano municipal de emergência sobretudo numa atitude preventiva, para estarmos prontos a atuar para termos os meios de proteção civil ao nosso dispor para caso a situação se complique podermos dar uma resposta em tempo real", afirma. O estado é agora de alerta em Ovar, mas "nada mudou no quotidiano dos cidadãos", garante Salvador Malheiro. Lembra até que há muitos municípios que mantêm ativo os planos municipais de emergência, que Ovar desativou em julho depois de a pandemia estar controlada na autarquia. "Tínhamos um ou dois casos".

A reativação do plano visa dotar a autarquia de um grau de operacionalidade maior. "Permite-nos monitorizar em tempo real. O que estamos a perspetivar nos próximos dias ou semanas, e caso a situação se complique, dotar infraestruturas municipais para receber infetados que não tenham condições de recuperar nas suas casas, para encerrar infraestruturas municipais que prestam serviço público, designadamente cemitérios, parques ambientais, casas de espetáculos. Estarmos prontos, caso seja necessário, evacuar alguma instalação ligada à terceira idade em tempo real", sublinha o autarca de Ovar.

Esta decisão "preventiva", insiste, "entra em contraponto com uma atitude generalizada por parte do nosso Governo de estar só a gerir a espuma dos dias". A estratégia devia ter sido, afirma "muito mais de prevenção e de preparação". "Tivemos sete meses para podermos preparar tudo isto e à escala nacional e somos confrontados com os mesmos problemas, e até com uma intensidade maior."

"O que estamos a perspetivar nos próximos dias ou semanas, e caso a situação se complique, dotar infraestruturas municipais para receber infetados que não tenham condições de recuperar nas suas casas, para encerrar infraestruturas municipais que prestam serviço público, designadamente cemitérios, parques ambientais, casas de espetáculos. Estarmos prontos, caso seja necessário, evacuar alguma instalação ligada à terceira idade em tempo real"

Salvador Malheiro, que se confrontou com o primeiro e único cerco sanitário a um município na primeira fase da pandemia, frisa que "sete meses foi tempo mais do que suficiente para preparar uma segunda vaga, que todos os cientistas e todos os entendidos na matéria já perspetivavam há muito tempo". "O que é certo é que vemos uma enorme insuficiência de recursos humanos e técnicos para fazer o rastreio e testar quem precisa e para tomar medidas preventivas antes da situação se agravar", referiu.

Recorda os tempos da cerca sanitária, em março e abril, em que a sua comunidade acatou, cumprindo todas as regras. "Acatámos porque a situação em Ovar era muito grave e à volta de Ovar a situação era calma e no resto do país também. Hoje é diferente, Ovar está melhor do que Portugal, até porque esse cerco sanitário funcionou e as pessoas cumpriram".

Replica o sucesso para aquilo que devia ter sido adotado pelo governo. "Deviam ter sido tomadas outras medidas em locais muito específicos do nosso território, que pode ser uma escala muito mais pequena do que os municípios, à escala de um bairro, de uma rua onde fosse evidente essa contaminação comunitária. Essa poderia ter sido uma medida preventiva adotada e se calhar hoje não estávamos na situação que estamos. Aqui funcionou. Conseguimos estancar o contágio para o resto do território".

O autarca social-democrata e vice-presidente do PSD deixa a crítica ao executivo de António Costa: "Não houve a coragem de o fazer, mas talvez tivesse valido a pena ter tido essa coragem de fazer cercas sanitárias noutros locais".

""Deviam ter sido tomadas outras medidas em locais muito específicos do nosso território, que pode ser uma escala muito mais pequena do que os municípios, à escala de um bairro, de uma rua onde fosse evidente essa contaminação comunitária"

Esta será a segunda vez que fica em funcionamento a referida estrutura, que, reunindo diferentes forças ligadas à Proteção Civil e à Saúde Pública, foi inicialmente instituída no mês de março, teve o seu pico de atividade durante o cerco sanitário a que o município esteve sujeito entre 18 de março e 17 de abril, e seria depois encerrada em 9 de julho.

O último boletim epidemiológico da autarquia referia esta segunda-feira o aparecimento de "30 novos casos de covid-19" no espaço de 24 horas, o que perfazia um total de 143 casos ativos no município - que abrange um território com cerca de 55.400 habitantes e 148 quilómetros quadrados.

Em termos globais, esses últimos diagnósticos contribuíam assim para um total acumulado de 1.003 casos de infeção pelo vírus SARS-CoV-2 desde o início da pandemia, assim como 41 óbitos.

Em Portugal, onde os primeiros casos confirmados se registaram a 02 de março, o último balanço da Direção-Geral da Saúde indicava 2.343 óbitos entre 121.133 infeções confirmadas.

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