Rara, mas mais comum em mães tardias. O que é a embolia de líquido amniótico que matou Vânia?

Vânia, 42 anos, morreu horas depois do nascimento do seu terceiro filho, no hospital de Setúbal, com uma embolia de líquido amniótico. Um caso raro, mas comum entre mulheres que têm filhos mais tarde.

"A embolia de líquido amniótico continua a ser uma situação rara, mas catastrófica, com elevada mortalidade", explica um artigo publicado na revista cientifica da Ordem dos Médicos, Acta Médica Portuguesa. Sendo rara, a embolia por líquido amniótico tem maior risco de ocorrer em cesarianas e partos com fórceps, em mulheres mais velhas, e foi esta causa de morte de Vânia Graúdo, 42 anos, que entrou no sábado na maternidade do Hospital de São Bernardo, em Setúbal. Morreu na segunda-feira, horas depois do nascimento de Rafael, o seu terceiro filho.

"A partir dos 40, é sempre uma gravidez de risco, mas a minha irmã esteve sempre bem, não tinha problemas de saúde", contou ao DN a irmã de Vânia, Paula Oliveira, que vive no Luxemburgo. No entanto, o destino trocou-lhes as voltas, há uma semana, e o parto, que era para ter sido uma cesariana, não correu como esperado.

No primeiro telefonema que o hospital fez no dia 3 de agosto, data da morte, terá sido dito à família que houve complicações no parto, que iam fazer tudo para salvar Vânia, mas que não tivessem muitas esperanças. "Foi transmitido que o líquido amniótico foi para o sangue e que a minha irmã começou a ter convulsões, começou com uma hemorragia. Fizeram três transfusões, mas o sangue já estava envenenado e ela rejeitou o sangue novo. Entrava pela veia e saía por baixo. Fez duas paragens cardíacas, mas não conseguiram reanimá-la", disse Paula Oliveira.

Em resposta, ao DN, o hospital de Setúbal apontou que "a embolia de líquido amniótico é uma das hipóteses de primeira linha perante um quadro clínico súbito após a rutura da bolsa de águas." A morte de Vânia, acrescenta o São Bernardo, ocorreu após paragem cardiorrespiratória sem resposta às medidas tomadas.

Segundo o artigo publicado na Acta Médica, assinado por Rosalinda Rodrigues, Filomena Nunes e Manuel Meirinho, médicos do serviço de Ginecologia/Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, a embolia é uma das principais causas de morte em obstetrícia nos países desenvolvidos, embora os casos fatais tenham vindo a diminuir ao longo dos anos com a melhoria dos diagnósticos e da prestação de cuidados intensivos.

"A taxa de mortalidade registada nos Estados Unidos [por embolia de líquido amniótico] em 1979 era de 86%, e em 1995 era de 61%. O registo de mortes maternas no Reino Unido refere, entre 1997- 2000, 30% como mortalidade associada a esta situação", continua o documento.

A embolia de líquido amniótico, descrita pelos obstetras acima referidos como "imprevisível" e "súbita", pode acontecer durante o parto (espontâneo ou cirúrgico) e no pós-parto, sendo mais frequente entre mulheres que escolheram ter filhos mais tarde. "Em cerca de 70% dos casos, o quadro clínico é dominado por manifestações cardiopulmonares, 18% por coagulopatia e 9% por convulsões", acrescentam os autores.

Não existe nenhum teste de diagnóstico para a embolia de líquido amniótico, sendo este feito por exclusão de partes.

A morte de mulheres grávidas, durante o parto ou até 42 dias após o nascimento da criança, tem vindo a aumentar em Portugal, uma tendência registada nos países desenvolvidos e que se pode justificar, nomeadamente, pelo facto de cada vez mais as mulheres optarem por ter filhos mais tarde. Em 2018, morreram no nosso país 15 mulheres, mais quatro do que no ano anterior e mais três do que em 2016.

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