O primeiro dia em que houve menos novos casos. O que é que isso quer dizer?

O epidemiologista Henrique Barros e o matemático Jorge Buescu dizem que só uma descida continuada de três a cinco dias permite definir uma tendência. É cedo para pensar que o isolamento já está a dar resultados, até porque a curva continua a subir

Todos os dias o número de infetados com o novo coronavírus em Portugal tem desenhado uma curva de subida exponencial. Mas esta quinta-feira - se analisarmos a última semana - o crescimento percentual foi mais baixo: 22%, quando tem andado na ordem dos 40% nos restantes dias. Atualmente, segundo os dados oficias da Direção-Geral da Saúde há 785 pessoas infetadas no nosso país, mais 143 do que na quarta-feira. No dia anterior, por exemplo, tinha-se registado 194 novos casos (mais 43%). O que significam estes números? Querem dizer que o isolamento dos portugueses está já a dar resultados? Significa que os resultados dos rastreios atrasaram? Há mais pessoas infetadas mas não fizeram o teste ao covid-19? Ou simplesmente não quer dizer nada?

Para o epidemiologista Henrique Barros ainda é cedo para tirar conclusões. Podem ser todos estes fatores em conjunto ou apenas circunstancial. Certo para este especialista, presidente do Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto, é que só um crescimento menor de infetados durante três, quatro ou cinco dias, permitirá chegar a uma conclusão. Também o matemático Jorge Buescu, que tem estudado o alastrar da pandemia do novo coronavírus, aponta nesse sentido: "Um ponto não serve para marcar uma tendência. Para se avaliar de uma forma consistente tem que se registar durante três, quatro dias."

Henrique Barros considera "absolutamente cedo para se deitar foguetes". Até porque, sublinha, houve uma diminuição global, mas o mapa da Direção-Geral da Saúde mostra um aumento significativo na zona norte, onde o número de infetados subiu de 289 para 381 (32%) de quarta para esta quinta-feira.

Mas tanto o epidemiologista como o matemático fazem questão de alertar para uma realidade: os números continuam a crescer, esse facto não sofreu alteração. Simplesmente nestas 24 horas aumentou percentualmente menos do que em qualquer outro dia da última semana. E estes dados são insuficientes para tirar conclusões.

"Não é por ter sido decretado ontem o estado de emergência que há estes números"

"Não temos capacidade para explicar, uma parte pode até ter a ver com o isolamento, mas há outras variáveis. E não é por ter sido decretado ontem o estado de emergência que há estes números. Precisávamos de três a cinco dias de descida continuada para que fosse consolidada", afirma Henrique Barros.

Alerta igualmente que a curva não vai cair a pique para zero e que irá prolongar-se por mais tempo. As autoridades sanitárias têm, aliás, referido que o pico do contágio em Portugal será final de abril, maio.

Jorge Buescu, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, diz que se trata de uma flutuação estatística na subida que continua a ser exponencial e que isso se deve a inúmeras variáveis. Basta por, exemplo, ter havido uma melhor gestão da crise nos hospitais, de não ter ocorrido nenhum caso anómalo. Ou de não ter acontecido uma situação como a de Ovar, onde num dia foram identificados vários casos de contágio entre a comunidade, o que levou o Governo a declarar o estado de calamidade municipal, antes do Presidente da República decretar o estado de emergência nacional, em vigor desde as zero horas desta quinta-feira.

Numa linguagem técnica, explica, usa-se a denominação sinal e ruído. Ou seja, o vírus é o sinal e o ruído tudo o que acontece à volta.

"A maior parte dos casos são invisíveis. Teremos uma ordem de grandeza de 10 mil casos"

"A única forma segura de controlarmos este bicho, esta besta apocalíptica é não contactarmos com pessoas. A maior parte dos casos são invisíveis. Nesta altura, estaremos numa ordem de grandeza de 10 mil casos em Portugal. Como é que conseguimos congelar os números de hoje e não haver nem mais um do que estes 10 mil? O único congelador que temos é o isolamento, com um contacto social zero", alerta Jorge Buescu.

Ficar em casa, ficar em casa. Esse é também o conselho do epidemiologista Henrique Barros que aponta sobretudo para a faixa etária mais vulnerável ao covid-19, os idosos, e os doentes crónicos. "Temos que tentar de tudo para os proteger porque também se morre de solidão e de fome em casa."

E se os números desta quinta-feira são positivos, uma boa notícia, o matemático não deixa de referir que nos próximos 12 dias o aumento continuará a ser exponencial. "Hoje estamos a discutir o expoente."

No domingo passado, Buesco referia ao DN que o número de casos estava a duplicar a cada dois dias e que, se nada sucedesse em contrário, na segunda-feira teríamos mais de 300 casos (a DGS anunciou 331) e dentro de uma semana haverá três ou quatro mil pessoas infetadas.

"O que o modelo mostra nos países que analisei, que são Portugal, Itália, França, Espanha e Alemanha, é que a progressão epidémica é uma curva exponencial, que parece saída de um livro de matemática", diz. "No mundo real, que é suficientemente complicado para os modelos simples não funcionarem, não costuma ser assim. Esta é a primeira vez que vejo uma curva assim no mundo real", disse então ao DN.

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