O dia em que a fronteira reabriu com máscaras, distanciamento e protocolo "meio" furado

Três meses e meio depois de terem sido encerradas, as fronteiras entre Portugal e Espanha voltaram a abrir na totalidade. Duas cerimónias que contaram com as presenças do rei Felipe VI de Espanha, do Presidente da República e dos primeiros-ministros dos dois países marcaram a data. Momentos rápidos mas com alguns momentos fora do protocolo.

Um dia histórico, dois locais históricos, uma manifestação que afinal eram duas, um presidente que sem surpresa furou o protocolo e levou um rei a chegar-se perto das pessoas que os chamavam e ainda ouviu uma senhora dizer que gostava muito dele pois lembrava-lhe o filho. Ao que Filipe VI retribuiu com um sorriso por detrás da máscara e um aceno.

Esta bem pode ser a sinopse deste 1 de julho de 2020 que fica para a História - lá está o Dia H - como o dia em que a totalidade das fronteiras entre Portugal e Espanha voltaram a abrir depois de terem sido fechadas ao trânsito rodoviário e aéreo a 16 de março, às 23.00 no caso de Portugal Continental e as 00.00 de dia 17 em Espanha devido à pandemia de covid-19. Nestes três meses e meio só estavam autorizados a atravessá-las veículos de mercadorias e trabalhadores transfronteiriços e apenas em locais escolhidos pelas autoridades.

Por isso esta quarta-feira a ansiedade dos dois lados da fronteira era grande já que a partir de agora volta a ser possível circular entre os dois países com o que de bom tem para o comércio: por exemplo, os restaurantes de Elvas já estavam a receber reservas para o fim de semana e havia esta manhã quem já estivesse a preparar uma ida ao comércio do lado espanhol. E o movimento nas estradas já mostrava maior circulação entre os dois países.

Uma satisfação que se estendeu aos principais governantes dos dois países: o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, o Rei Filipe VI de Espanha e os primeiros-ministros António Costa e Pedro Sánchez. E transmitida pelas respostas dos líderes dos governos numa conferência de imprensa que teve lugar depois das duas cerimónias que assinalaram esta reabertura de fronteiras.

Antes mesmo desse primeiro momento - que teve lugar no Museu Arqueológico de La Alcazaba de Badajoz e que durou cerca de 20 minutos, o tempo suficiente para se ouvir os hinos dos dois países e os quatro intervenientes darem um pequeno passeio pela muralha - já António Costa tinha utilizado a rede social Twitter para assinalar o momento.

"Hoje assinalamos ao mais alto nível a normalização do trânsito terrestre da fronteira entre Portugal e Espanha. É um reencontro entre vizinhos que são irmãos e amigos. Desta fronteira aberta depende a nossa prosperidade partilhada e um destino comum no projeto europeu", escreveu o primeiro-ministro.

Nessa antecipação acrescentou: "A pandemia ofereceu-nos uma visão de um passado ao qual não queremos voltar: um continente de fronteiras encerradas. A liberdade de circulação consolidou-se no espírito dos cidadãos europeus como um dos princípios fundamentais da ideia de #Europa."

A história com fortalezas e o papel das laranjas

A ideia de Europa unida e a importância que o regresso da livre circulação de pessoas e bens entre os dois países - e no Espaço Schengen e até a abertura das fronteiras externas da UE a alguns países - regressou aos discursos na conferência de imprensa em Elvas onde já não participaram Marcelo Rebelo de Sousa e Filipe VI.

"Esta é uma ocasião muito importante. Esta é a fronteira mais antiga da Europa e simbolicamente visitámos dois locais simbólicos - duas fortalezas. Voltámos a ser vizinhos muito próximos", sublinhou nesse momento o primeiro -ministro português frisando, no seu "melhor portunhol", que a "Europa precisa de mensagens positivas e esta reabertura de fronteiras é uma delas".

Costa fez essa referência à história dos dois países e das suas "guerras" e conquistas junto à porta principal do Forte de Elvas talvez lembrando-se de alguns episódios em que a História cruzou os interesses de Portugal e Espanha.

Um deles aconteceu em Elvas quando a cidade foi cercada em maio de 1801 pelo exército liderado pelo ministro Manuel Godoy e este terá decidido enviar à rainha de Espanha um ramo de laranjas. Um gesto que fez com que este conflito entre portugueses e espanhóis - os primeiros numa coligação com Inglaterra e os segundos com França - entrasse para a História como a "Guerra das Laranjas".

Mas nem só de guerras se fez esta relação ibérica que tanto foi elogiada e lembrada esta quarta-feira. "A abertura desta fronteira [em Elvas] é uma oportunidade de desenvolvimento pois partilhamos não só história, cultura, afinidade, mas também a visão do que ocorreu com a pandemia e quais são os desafios e as transformações que temos por diante, não só na Península Ibérica, mas também no contexto europeu", explicou António Costa.

Também o líder do governo espanhol Pedro Sánchez aproveitou a oportunidade de manifestar a sua "imensa felicidade" pela reabertura da fronteira esperando que não seja necessário voltar a fechá-las.

"Queria transmitir em primeiro lugar a imensa felicidade em nome do governo de Espanha por estar aqui com o Governo português a reabrir as fronteiras que esperemos que jamais tenham de voltar a ser encerradas como consequência de uma pandemia", afirmou.

Pedro Sánchez transmitiu "a enorme gratidão do governo de Espanha" e "da sociedade espanhola à sociedade portuguesa e ao Governo português", pelo apoio durante os últimos meses. "Durante as semanas mais duras da pandemia que vivemos em Espanha, contei com o apoio, carinho e incentivo do primeiro-ministro português. E, em momentos em que as coisas estão a correr bem, agradece-se e muito" essa "relação cordial", afirmou.

Bad​​​​​​ajoz: 8 pela República, talvez outros tantos pelo Rei. E duas bandeiras

Antes destas palavras de elogio mútuo e de realce da importância das relações entre os dois países - a que não escapou a importância do Conselho Europeu onde Portugal e Espanha vão tentar que sejam aprovadas as propostas de fundo de recuperação de 750 mil milhões de euros e o Quadro Financeiro Plurianual (2021/2022) e os desejos dos dois primeiros-ministros de que as divergências entre países sejam ultrapassadas, tais como as reticências de Holanda, Suécia, Dinamarca e Áustria - os governantes cumpriram a agenda prevista para assinalar a reabertura das fronteiras.

Primeiro em Badajoz, no largo junto ao Museu Arqueológico de La Alcazaba, onde pelas 10.45 locais (menos uma hora em Portugal Continental) Filipe VI e Pedro Sánchez receberam Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Juntos ouviram os hinos dos dois países tocados por um quarteto da Orquestra da Extremadura e depois passearam - sempre de máscara que apenas tiraram durante os hinos - por poucos minutos nas muralhas.

Sem declarações dos políticos o único momento de frisson acabou por ser protagonizado por cerca de duas dezenas de espanhóis que estavam na Plaza Alta da cidade. Quando oito dessas pessoas viram o rei começaram a agitar duas bandeiras e a gritar "Viva a República" perante o olhar de oito policias que estavam na praça. Do outro extremo responderam talvez outros tantos espanhóis com uns sonoros "viva o Rei". E pronto em menos de cinco minutos acabou este "momento contestatário/de apoio" ao monarca. Assim como, a cerimónia do lado espanhol.

Era então hora de ir a Elvas e a viagem teve uma pequena paragem no parque de estacionamento junto às instalações do antigo posto fronteiriço, sem ser necessário sair dos autocarros, para uma passagem de testemunho: da policia espanhola que acompanhava a comitiva para os elementos da Guarda Nacional Republicana que passaram a ser responsáveis pela segurança dos quatro autocarros e outros veículos que seguiram para o Castelo de Elvas.

Elvas: protocolo "adaptado", uma mãe que arrancou um sorriso ao rei e duas 'manifs' numa

A viagem de Badajoz a Elvas, que durante o tempo em que Franco governou em Espanha (1936-1975) recebeu muitos espanhóis que fugiam do regime, demorou mais do que qualquer uma das cerimónias - que não tiveram mais de 20 minutos cada. Uma deslocação de atravessamento do Caia que ajudou a relembrar mais um episódio histórico que teve lugar na margens do rio: em 1729 os reinos de Portugal e Espanha trocaram de princesas: D. João V entregou a infanta Maria Bárbara de Bragança como esposa de D. Fernando, príncipe das Astúrias e a filha do rei de Espanha D. Filipe V a infanta Maria Ana Vitória casou com D, José príncipe do Brasil e herdeiro da coroa portuguesa.

Do lado português os 20 minutos de cerimónia para ouvir os dois hinos e o passeio que permitiu aos quatro governantes estarem sozinhos junto à muralha da zona junto ao castelo a admirar a vista, foram antecedidos por alguns momentos mais descontraídos do que aconteceu do lado espanhol. E mais ao jeito de Marcelo Rebelo de Sousa.

Tal como aconteceu em Badajoz, também aqui houve protestos. Mas estes mais organizados e numa manifestação que afinal eram... duas. Uma do Partido Ecologista "Os Verdes" que querem o fecho da central nuclear de Almaraz - que está em linha reta a 110 quilómetros da fronteira portuguesa - e outra da ProToiro-Federação Portuguesa de Tauromaquia contra as políticas do Governo para o setor.

Mas, na verdade, os protagonistas da cerimónia quase não deram pelo protesto, mesmo que os elementos da ProToiro tivessem cantado o hino em voz bem alta.

Mais sorte tiveram algumas das moradoras na rua que dá acesso ao castelo. Tanto chamaram por Marcelo que este não resistiu: depois de uns acenos lá seguiu para junto das baias com os seguranças atrás onde ficou uns minutos a uma distância mais ou menos de segurança. Nesta viagem "arrastou" o Filipe VI que acabou por se chegar junto das pessoas e ouvir Maria Luís Abelha dizer que gostava muito dele pois lembrava-lhe o filho "que morreu no Iraque há 16 anos e que era muito parecido com o rei, além de que hoje teria 52 anos, a mesma idade do monarca". FIlipe VI ouviu acenou e, por trás da máscara, mostrou um sorriso.

Depois seguiu com Marcelo para junto das bandeiras portuguesas e espanhola onde ouviram os hinos tocados por alguns elementos da Banda da Armada. A seguir deram o tal passeio e dirigiram-se para um hotel onde passado algum tempo se separaram dos líderes dos respetivos governos que regressaram para junto da porta do castelo para a conferência de imprensa já referida e que também demorou pouco mais de 15 minutos.

Momento em que tanto Costa como Sánchez - além dos elogios, das referências à necessidade de apoio mútuos dos países - deixaram os conselhos que todos temos ouvido bastante nos últimos meses: é necessário usar máscara, gel desinfetante e distanciamento social, o que esta quarta-feira não foi possível em alguns momentos entre a comitiva.

Atitudes que podem evitar a possibilidade de as fronteiras entre Portugal e Espanha voltarem a fechar, frisou o primeiro-ministro.

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