"Mudanças rápidas conseguem-se mais facilmente com medidas punitivas"

É a polémica do dia. O governo manifestou a intenção de apresentar à Assembleia da República uma proposta de lei que torne obrigatório o uso de máscara na rua e a instalação da app StayAway Covid, com multas pesadas para quem não cumprir e as vozes contra não tardaram em fazer-se ouvir. Obrigar será a melhor estratégia?

A psicóloga Ana Moniz, autora de Este Livro Não É para Fracos, sobre autoridade, liderança, assertividade e coragem diz que depende do objetivo.

"O que a psicologia nos diz é que as consequências fazem os comportamentos acontecer. Vimos isso com o uso de cinto de segurança, por exemplo, ou com a proibição de fumar em espaços fechados. Se queremos mudanças rápidas, estas conseguem-se mais facilmente com medidas punitivas, como as multas".

Ana Moniz não tem uma opinião fechada relativamente à intenção do governo de tornar obrigatório o uso de máscara e a instalação da app StayAway Covid, mas reconhece que em situação de crise possam justificar-se medidas mais autoritárias.

"As pessoas aderem muito melhor às medidas se forem envolvidas na decisão, se acharem que a ideia partiu delas ou se as entenderem como importantes para atingir um objetivo.

"Em crise, a ordem de comando pode ser a única forma de impor um comportamento. A instalação da app levanta uma série de questões, nomeadamente técnicas, de proteção de dados e de eficácia, mas o uso de máscara na rua pode justificar-se como medida de contenção da disseminação da infeção, num momento em que os números estão a aumentar muito".

Mas, para a psicóloga, mesmo em crise, convém investir em campanhas de responsabilização individual porque "as pessoas aderem muito melhor às medidas se forem envolvidas na decisão, se acharem que a ideia partiu delas ou se as entenderem como importantes para atingir um objetivo, que neste caso é comum", diz lembrando a reação da população português quando foi imposto o confinamento, em março.

A sociedade portuguesa tem uma cultura de desresponsabilização individual e de desconfiança em relação ao poder, o que pode tornar mais difícil a adoção generalizada das medidas de proteção, sem obrigatoriedade.

"É essencial explicar às pessoas que se trata de evitar que fiquemos todos infetados ao mesmo tempo e assim diminuir a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde e o colapso que significaria o descontrolo da situação. Há que apelar à responsabilidade individual e fazer campanhas de sensibilização com figuras públicas que as pessoas oiçam", diz, reconhecendo, no entanto, que a sociedade portuguesa tem cultura de distância e desconfiança em relação ao poder e ao mesmo tempo de desresponsabilização, o que pode tornar mais complicado garantir que medidas de proteção como as máscaras sejam adotadas por todos sem conferir-lhes um caráter obrigatório.

"É muito fácil encontrar razões para não fazer uma coisa que nos é desconfortável e não podemos deixar de ter em consideração o crescimento dos movimentos negacionistas que criam um caldo de cultura para que as medidas não sejam cumpridas", diz Ana Moniz, que reconhece que não é fácil ter uma posição clara e fechada sobre a questão da obrigatoriedade ou não de determinadas medidas de contenção da covid-19.

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