Jornada mundial da juventude: "Ser católico é muito mais que ir à missa"

300 jovens portugueses estão no Panamá para participar até domingo na Jornada Mundial da Juventude. O DN falou com três, de paróquias e de idades diferentes. Todos gostariam de ouvir que a próxima cidade a recebê-las é Lisboa. Marcelo Rebelo de Sousa e Fernando Medina partem no final da semana.

É a primeira vez que Cláudia Reis vai fazer uma viagem tão longa, muitas horas de voo para chegar ao Panamá. Confessa que quando começou a pensar na ideia, com um grupo de amigas, sentiu algum receio. Sobretudo por ter de ir ao outro lado do mundo. Aos 23 anos, a sua vida de viajante apenas a levou a cidades europeias. Mas o bichinho que trouxe das jornadas de 2016, em Cracóvia, as primeiras em que participou, levaram-na a avançar para este projeto em 2019.

Cláudia é da paróquia de Freiria, de Torres Vedras, partiu no domingo de manhã do Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, com mais três amigas para o Panamá. Integrava o último grupo de 20 pessoas que partiam para as Jornadas Mundiais da Juventude, nas quais Portugal irá estar representado por 300 jovens de 12 dioceses, do Algarve a Aveiro, de Braga a Coimbra, passando por Guarda, Lamego, Viseu, Viana do Castelo, Vila Real, Porto, Lisboa e Leiria-Fátima. Lá irão estar também representantes de seis congregações e movimentos, seis bispos e 30 voluntários, que estão naquele país já há duas semanas a participar na organização do evento.

Cláudia nasceu numa família católica. Admite que fez os primeiros anos de catequese empurrada pelos pais. Hoje só tem a agradecer-lhes. "À medida que ia crescendo ia percebendo que aquela fé era algo que também era real para mim, nunca tive dúvidas", afirma. Fez os 12 anos do catecismo, até ao crisma, mas depois sentiu que "queria algo mais para a minha fé". Foi quando decidiu integrar as Equipas de Jovens de Nossa Senhora. Não se arrepende. "Foi uma forma de continuar a minha vivência."

Para Cláudia, uma jovem técnica de prótese dentária, ser católico é muito mais do que ir à missa. "Mais importante do que isso é sermos bons, humildes, sabermos ajudar o próximo. É isto que penso que é ser cristão." É também desta forma que tem entendido a mensagem do Papa Francisco, de quem diz: "A sua forma de comunicar é mais direta, chega mais facilmente aos jovens, pede-nos que sejamos exemplo." É assim que tenta conduzir a sua vida.

Ir às jornadas é "uma injeção de fé", diz. Foi o que sentiu quando esteve em Cracóvia e se viu no meio de tantos jovens de vários países. "Encontramos de tudo. Jovens de países como o nosso ou de países em que os cristãos ainda são perseguidos e estão ali a assumirem-se e a dizer: 'Somos católicos', sem medos. É isso que é muito gratificante, é um abanão para nós, que não vivemos essa experiência e que, por vezes, por tão pouco temos medo ou vergonha de nos assumirmos."

As jornadas são tudo "partilha, alegria, emoção, choro, por vezes, etc.". Sobre o que espera ouvir nestas em particular, Cláudia afirma que "não crio grandes expectativas, assim o que acontecer ainda sabe melhor." Há algo em que não quer pensar muito, para quando, quase de certeza, o Papa o afirmar poder saborear o que vai sentir no momento: que a próxima a receber os jovens será Lisboa, em 2022.

"O povo do Panamá é muito acolhedor"

António Ribeiro Matos, de 29 anos, da paróquia de Santo Condestável, em Lisboa, e a trabalhar na equipa da Pastoral dos Salesianos, diz ao DN que se o nome de Lisboa for pronunciado "será uma enorme alegria", mas para ele a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) é muito mais do que este anúncio.

No Panamá desde o dia 4 de janeiro a trabalhar como voluntário na organização do evento, juntamente com o povo panamiano, com católicos mexicanos, espanhóis, polacos e de tantos outros países, António diz que "a vivência é tão forte que quase não tenho palavras para descrever o que se vive nestes dias. Todos os que aqui estamos podemos não nos ver nunca mais, mas ficaremos ligados para sempre".

Este jovem, que já tinha estado presente na JMJ de Colónia, na Alemanha, em 2005, e na de Cracóvia em 2016, quis experimentar ir neste ano como voluntário e trabalhar na organização do evento. "O querer servir, o querer estar disponível para fazer o que for preciso" foi o que o encaminhou para esta missão. Neste momento está a trabalhar como voluntário na área internacional e no acolhimento aos outros jovens que vão estar na jornada. A experiência "tem sido muito rica e gratificante. O povo do Panamá é muito acolhedor. Tem vivido esta organização com grande emoção e amor, transmitindo isso a quem vai chegando".

Mas o mais importante para António em qualquer jornada é "a dimensão do servir e o encontro com Cristo. O poder ser rosto de Cristo, o ser igreja na sua igreja que é tão única e ao mesmo tempo diversa em todo o mundo. A grandiosidade das jornadas é a sua diversidade".

Jornada mundial em Lisboa é bom para a diocese e para o país

Cláudia Lourenço, diretora do Serviço de Juventude do Patriarcado de Lisboa e que partiu no domingo de Lisboa para poder participar na sua sexta jornada, afirma que o mais importante numa jornada mundial "é perceber que a nossa fé é universal, que a fé não é uma coisa que se diz que se tem da boca para fora. É estar ao lado de uma pessoa da Papua -Nova Guiné e rezar como ela, fazer o mesmo silêncio, acreditar como ela que a nossa vida faz sentido porque acreditamos em Jesus Cristo. É claro que depois em cada jornada há sempre coisas diferentes, sobretudo culturalmente, tudo depende do país que organiza, mas quando olho à volta o que é espantoso é a universalidade da fé."

Aos 42 anos, Cláudia Lourenço diz que nunca teve dúvidas existenciais acerca da fé. Nunca colocou a questão do acreditar ou não, mas, confessa: "Houve uma altura na minha vida em que a minha fé entrou numa certa rotina. Eu continuava muito envolvida nos grupos de jovens, mas era como se a minha vida na igreja fosse sempre igual." Foi quando decidiu ir pela primeira vez à Jornada Mundial da Juventude em Roma, em 2000. "Era do que estava a precisar. Ali encontrei tantos outros que também sentiam como eu a alegria de serem católicos e todos os desafios que daí surgem. Ali percebi o alcance da fé, o que podemos fazer pelo mundo. E isso foi o que me deu força e vontade para continuar o meu trabalho." Admite que a experiência num evento destes "vai muito para lá daquilo que possamos estar à espera. É uma vivência real do que é ser cristão, do que é ser católico".

A sua função profissional foi durante muitos anos ser gestora de eventos. Hoje é secretária na paróquia do Campo Grande. Trabalha voluntariamente no Patriarcado. Foi para aqui que os desafios a chamaram. Cláudia sabe que Lisboa se candidatou à organização das próximas jornadas mundiais e é isso que gostaria de ouvir no final da missa do dia 27 da boca do Papa Francisco. "Não sou só eu que gostaria de ouvir. Muitos outros jovens e católicos gostariam que tal acontecesse. Se Lisboa receber este evento não é só a capital que vai ter esta vivência. "A jornada da juventude é dos maiores eventos que se realizam no mundo inteiro em termos de concentração de pessoas e de espiritualidade. É algo bom para a diocese, mas também para Portugal. Vai implicar que o país inteiro receba peregrinos de todo o mundo para fazerem o período de pré-jornada."

Presidente Marcelo e Fernando Medina a caminho do Panamá

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e o presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, partem no final da semana para o Panamá, para estarem presentes na missa de domingo que encerra o evento. A expectativa é que o Papa Francisco solte o nome de Lisboa como a próxima cidade a acolher a Jornada Mundial da Juventude, mas até lá ninguém assume formalmente que assim será. Da Igreja portuguesa estarão presentes seis bispos e o cardeal-patriarca.

No entanto, é a JMJ que conta com menos portugueses. O facto de ser do outro lado do mundo, num mês de aulas, trabalho, e com despesas elevadas impediu que outros pudessem aceitar este desafio. Em Cracóvia, em 2016, estiveram presentes mais de 1200 portugueses, nestas estarão apenas 300. Ao todo, e segundo dados difundidos pela organização, no Panamá estarão 200 mil jovens de 155 países.

De Portugal irá também a primeira imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, talhada segundo indicações da irmã Lúcia, que não sai de Portugal desde o ano 2000. A igreja panamiana "recebeu autorização do Vaticano para que os fiéis possam obter o perdão diante da imagem de Nossa Senhora", refere um comunicado da organização. A imagem chegou ontem ao Aeroporto Internacional de Tocumen e hoje estará na missa das 09.00 locais (14:00 de Lisboa), que dará início à JMJ e que será celebrada pelo arcebispo do Panamá.

Se se confirmar Lisboa, e como o DN noticiou na sua edição de sábado, há já três locais que poderão acolher este evento em 2022: o Campo de Tiro de Alcochete, a base aérea do Montijo ou a da Ota.

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