Idosos são os que mais faltam a consultas e evitam urgências

Barómetro da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova mostra o risco de problemas com doenças não-covid. Por outro lado, há cada vez mais confiança na resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Os portugueses estão cada vez mais confiantes na capacidade de resposta dos serviços de saúde à covid-19. Estes são os dados que relevam do Barómetro da Opinião Social Covid-19 da Escola Nacional de Saúde Pública de que o DN é parceiro - e que conta com mais de 170 mil respostas. Na primeira semana deste barómetro apenas 9,4% das pessoas estava muito confiante, esta percentagem mais do que duplicou na quinta semana, para 21,6%. Hoje, apenas 14% das pessoas consultadas diz estar pouco ou nada confiante - essa percentagem chegava aos dois terços na primeira semana.

É provável que este sentimento de confiança contribua para amenizar um dos grandes problemas que o Sistema Nacional de Saúde está a viver, e que tem a ver com a falha do tratamento de doentes não-covid, que se estima vir a ter consequências gravosas no estado de saúde geral dos portugueses.

De facto, quando se pergunta se tiveram necessidade de recorrer a outras consultas, 75,3% dos que responderam a este inquérito disseram não ter necessitado e 24,7% ter necessitado. Mas destes, mais de metade, ou precisamente 57,6%, não a teve. Por motivos voluntários, 22,4% decidiu não ir. E porque os serviços a desmarcaram, 35,2%. Quem teve consulta, fê-la presencialmente, 21,2%, e à distância, 21,2% - um número bastante elevado face ao que costumava acontecer.

Dos que não tiveram consulta, quase dois terços são idosos - 73% dos idosos - e, destes, 30% não foi, por vontade própria. "Esta é uma conclusão importante, uma vez que se trata de um grupo de risco para a COVID-19 e é natural que tenham aderido mais às medidas de confinamento. Não nos podemos é esquecer que é precisamente este grupo quem mais precisa de cuidados de saúde", diz Sónia Dias, coordenadora científica do Opinião Social. Sem surpresas, foi também nos escalões mais baixos económicos que se verificaram as proporções maiores de pessoas que, tendo necessidade, não tiveram consulta.

Das 186 pessoas que reportaram ter dois ou mais problemas de saúde (morbilidade múltipla) e que necessitaram de consulta, 62% não a tiveram, comparativamente a 53% das que têm apenas um problema de saúde. Numa análise mais aprofundada sobre as pessoas com morbilidade múltipla, 71% das que não tiveram consulta foi por desmarcação por parte dos serviços e 29% foi por iniciativa própria.

Os que escolheram ir à consulta que tinham marcada são os que sentem em menor risco se contraírem covid-19 - 43%. A maior parte das consultas realizadas aconteceu nas áreas de Psiquiatria, Reumatologia e Endocrinologia - e sobretudo à distância. Por outro lado, as especialidades de Pediatria, Ortopedia e Ginecologia/Obstetrícia são as que mais realizaram consultas de forma presencial. As que menos se realizaram foram de Oftalmologia, Dermatologia e Otorrinolaringologia - com maior número de desmarcações.

No caso das consultas de especialidade de Medicina Geral e Familiar (médico de família) os números são mais animadores: foram realizadas 56% das consultas (27% presencialmente e 29% à distância), e só 21% foram desmarcadas pelo próprio e 23% pelo serviço.

Mais ou menos o mesmo se passou com as urgências. 94,9% referem não ter necessitado de ir e apenas 5,1% ter necessitado - e, destes, 34% decidiram não ir, voluntariamente. Foram os idosos os que mais fugiram das urgências - 45,5% - para apenas 29,8% dos 26-45 anos e 28,9% dos 46-65 anos.

Mesmo assim, mais de um terço dos que não foram acharam que o motivo que lá os levaria era grave - e estavam a sofrer de problemas relacionados com doença cardíaca, diabetes e doença respiratória. Esta poderá ser a ponta do icebergue que os números da mortalidade elevada não covid parecem revelar.

Apesar do stress a que estão sujeitos, a grande maioria dos que responderam ao inquérito não revela tomar ansiolíticos e antidepressivos - 83%. Dos que referem tomar, 14% iniciou a toma durante o período de COVID-19, 9% aumentou a dosagem, mas a grande maioria, 77%, não alterou a forma como o faz.

Como sempre acontece, são as mulheres as mais consumidoras destes medicamentos, (19% comparativamente com 12% dos homens). E são também os mais idosos quem mais consome (34% dos idosos, 23% entre os 46 e os 65 anos, 14% entre os 26 e 45 anos; e 9% entre os 16 e os 25 ano). Na verdade, são os mais jovens (entre os 16 e os 25 anos) os que mais dizem ter iniciado a toma no período da crise covid-19. Mas são os idosos quem mais aumentou a dosagem.

A propósito das mudanças no relacionamento, a gestão do stress e a agressividade em tempos de covid-19 em Portugal, e porque as medidas de confinamento podem causar tensão e stress, em parceria com o Barómetro COVID-19, investigadores da ENSP-NOVA, juntam-se à equipa da Universidade de Gent para estudar este fenómeno. Pode responder ao questionário aqui.

* Nota sobre o Barómetro Covid-19

Projeto de investigação da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa (ENSP-NT) com equipa multidisciplinar de investigadores, médicos de saúde pública, epidemiologistas, estatísticos, economistas, sociólogos e psicólogos. Semanalmente são apresentados no Diário de Notícias dados efetivos e análises científicas sobre a pandemia, com o objetivo de contribuir ativamente para a sua compreensão, assegurar uma ferramenta de apoio à tomada de decisão e gerar conhecimento.

Autores: Sónia Dias (coordenação científica), Ana Rita Pedro (coordenação executiva), Ana Gama; Ana Marta Moniz, Beatriz Lourenço, Carla Nunes, Cláudia Parreira, Fernando de Avelar, Patrícia Soares, Pedro Laires e Rui Santana. www.ensp.unl.pt

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