"Houve um tempo em que os professores diziam aos pais que não falassem português com os filhos, em casa"

Na última semana um grupo de 50 jovens lusodescendentes encontrou-se nas Caldas da Rainha para esbater preconceitos e desenhar um projeto comum, de técnicas de empregabilidade, com um lado solidário. A iniciativa foi da Cap Magellan, a maior associação de jovens lusodescendentes, sediada em Paris. Luciana Gouveia, a delegada-geral (que tinha apenas cinco anos quando a associação foi criada) acredita que os objetivos continuam a fazer sentido: acabar com os clichés da emigração.

Terminou por estes dias mais um encontro de jovens Lusodescendentes. O que vos ficou destes dias nas Caldas da Rainha?
O encontro tem-se realizado todos os anos, mas em formatos diferentes. No fundo tem-se vindo a desenvolver ao longo do tempo. A primeira edição era só um dia - em que havia formações, num formato muito mais restrito, e à noite eles participavam numa ação de prevenção rodoviária no Estádio de Leiria, em que havia um festival de música.

Como é que evoluíram para este formato, que dura uma semana?
Neste formato é a segunda edição, a primeira foi em Trás-os-Montes, no ano passado. Já há dois anos, quando Cascais foi capital europeia da Juventude, estávamos num formato de três dias que se estava a aproximar deste.

E o que é, afinal, este encontro?
O objetivo do encontro começou pela vontade de reunir jovens lusodescendentes a residir fora de Portugal e com portugueses de Portugal. A ideia é combater um pouco os estereótipos e clichés que temos uns sobre os outros. Tudo isso para chegar á conclusão de que, obviamente há diferenças, mas no fundo a noção de ser português lá fora ou cá dentro é idêntica. Porque há uma espécie de portugalidade e cultura comum quer nos reúne. E é isso que trabalhamos ao longo dos dias nestes encontros de jovens lusófonos, de vários países europeus.

Que são?
França, Reino Unido, Bélgica, Alemanha, Áustria, Dinamarca, Portugal e Espanha. Além disso continuamos a reunir portugueses de Portugal, com essa mesma ideia de combater estereótipos e construir algo em comum. No ano passado, por exemplo, o que se fez foi criar uma rede de jovens e de animadores de juventude.

Porque também há pessoas mais velhas, já com 40 anos...
A definição de jovem é um pouco ambígua...Eu tenho 35 anos, somos os novos jovens. Mas a ideia é criar uma rede e trabalhar técnicas de empregabilidade que depois serão aplicadas em cada país por esses jovens ou por animadores. A rede criada no ano passado continuou essa dinâmica durante o ano. Alguns dos participantes voltaram este ano, até porque a temática é próxima.

Em que é que diferiu este encontro, deste ano, nas Caldas da Rainha?
Este ano criámos aquilo a que chamámos projeto solidário, que engloba a Plataforma de Apoio aos Refugiados e uma empresa das Caldas, a Confeitaria Monte Verde. Os participantes tiveram o desafio de desenhar um projeto solidário que ligue a temática da inclusão e do emprego a refugiados, que vão continuar a trabalhar mesmo depois do encontro. Por isso, há essa ideia de que o encontro não terminou na sexta-feira, mas perdura. Vamos ver como é que o projeto avança até ao próximo encontro.

Para participar nestes encontros há alguns pré-requisitos, por parte dos jovens?
O mais importante - e que tem a ver com o trabalho da associação - é a valorização da língua portuguesa. Por isso têm de expressar-se em português. Temos também lusófonos, de são Tomé e Príncipe, Cabo Verde, brasileiros. De resto, os requisitos são: ou ser jovem ou ser animador de juventude, estar envolvido no meio associativo também é importante.

Esta é apenas uma das atividades da Cap Magellan, que conta já com quantos anos?
Com 30 anos. É a maior associação de jovens lusodescendentes em França. Foi criada por um grupo de estudantes que estava um pouco farto dos clichés a que se associa a emigração; não se reviam nas associações mais tradicionais, de folclore e futebol - e queriam mostrar que a cultura portuguesa era mais do que isso. A associação foi criada em 1991 e em 93 foi logo criada o departamento de estágios e emprego; em 1998 protocolo com o IEFP em Portugal, que ainda está em vigor.

Mas a associação é mais do que os eventos, que este ano estão um pouco suspensos.
Sim, é muito trabalho de fundo neste acompanhamento de jovens e difusão da temática de cidadania. Estamos cá sempre no verão com uma campanha de prevenção rodoviária, este ano como não há discotecas e festivais temos as mesmas equipas de voluntários a sensibilizar nas praias e nos parques de estacionamento; quando há eleições sensibilizamos para a importância de votar, e agora temos também uma campanha de divulgação do ensino superior em Portugal.

A ideia é captar mais jovens lusodescendentes para estudarem nas universidades portuguesas?
Existe uma quota de 7% dedicada aos lusodescendentes, que nunca é preenchida. São 3.000 lugares e no ano passado foram preenchidos 250 apenas.

Porquê?
O processo é muito burocrático. Demasiado burocrático. Estamos sempre em contacto direto com a Secretaria de Estado do Ensino Superior e outras entidades. Mas há informações que não são claras, por exemplo a questão das equivalências. O grande problema é a falta de informação e divulgação. Eu própria frequentei o ensino superior em Portugal e entrei pelo processo normal quando poderia e deveria ter beneficiado dessa quota e integrado esse contingente.

E afinal, 30 anos depois, os objetivos continuam a fazer sentido?
Costumo dizer que os clichés têm sempre um fundo de verdade. E por isso continuam a fazer sentido, sim. Em 2008 tivemos nova vaga de emigração, desta vez com jovens diplomados. Além disso continua a fazer todo o sentido defender que um jovem português fora de Portugal continua a ter os mesmos direitos - o cartão jovem, por exemplo, por isso temos um protocolo com o IPDJ. E depois há outra coisa engraçada, aqueles que já têm 40 ou 50 anos, e que até podem ter ligação fraca com Portugal, casamentos mistos, virem de uma época em que os professores diziam aos pais para não falarem português aos filhos em casa - e quando agora têm filhos contactam a Cap Magellan para conhecer melhor a cultura portuguesa. Temos muitos contactos desses.

Ao longo desta década que leva como delegada-geral da associação, apercebeu-se de que mudanças entre os jovens lusodescendentes? Há um maior interesse por Portugal?
Portugal está na moda. E em muitos aspetos há que rentabilizar e tirar proveito desse fenómeno. A maior parte das associações em França dedica-se ao folclore, à gastronomia, às feiras. Muitas têm muitos jovens, mas isso é a ponta do iceberg. Nós somos 500 mil portugueses em França, um milhão e meio se juntarmos os lusodescendentes, a maioria deles pode não estar organizado nesse tipo de associação, e quando procura algo alternativo pode encontrar na Cap Magellan uma resposta a esse desejo. Quando organizámos concertos com Madredeus, GNR, Xutos e Pontapés, era porque mais ninguém fazia.

Mas conseguem chegar também a esses jovens que estão nas associações mais tradicionais?
Sim, eles acabam por vir também. Nas ações de prevenção rodoviária os voluntários são jovens da rede associativa. E se as associações deles não fazem, eles participam nas nossas ações. Temos uma rede de 17 representantes em 17 universidades de todo o país. E depois há sempre a questão do futebol: ganhámos o Euro e isso foi muito importante, contribuiu para manter o interesse em Portugal.p>

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