Graça Freitas. Uma falsa frágil, como as orquídeas que ama

Era uma cientista sólida e discreta até chegar ao topo da Direção-Geral da Saúde, lhe cair uma pandemia no colo e entrar na nossa TV diariamente. Quem é esta mulher de pose serena e voz segura que assume não saber tudo?
Com o perfil da diretora-geral de Saúde o DN, publicado a 21 de março de 2020, inicia a republicação de trabalhos relacionados com a covid-19.

Numa noite em que o céu tinha um brilho mais forte
E em que o sono parecia disposto a não vir
Fui estender-me na praia sozinho ao relento
E ali longe do tempo acabei por dormir.


As primeiras linhas da letra de Estrela do Mar, de Jorge Palma, uma das canções de que confessa mais gostar, falam de uma noite sem sono e de solidão. Também por estes dias não serão muitas as horas que a diretora-geral da Saúde dorme, e não poderá deixar de se sentir só: o facto de ser o rosto da resposta à pandemia, com o que isso implica de responsabilidade e, em termos de julgamento público, de atenção a cada tonalidade do discurso, da expressão, a cada gesto e hesitação, não são partilháveis.

Como o pneumologista Filipe Froes, o representante da Ordem dos Médicos para as questões do coronavírus, outro rosto que os portugueses conheceram agora, Maria da Graça Gregório de Freitas abrirá todas as manhãs os olhos claros "com centenas de mails para responder e a sensação de estar a acordar já com atraso". A sensação de que as horas acordadas são poucas para tudo o que há a fazer, cada interrupção um desvio no raciocínio, na capacidade de pensar sobre o que está a suceder e o que fazer.

É sem dúvida preciso ser forte para lidar com tanta pressão - e manter aquilo que os ingleses chamam de grace under fire (graça debaixo de fogo). Manter a serenidade e a bonomia - até alguma frescura; transmitir segurança. E, apesar de assumir que há coisas que ainda não sabe porque não se sabem, conseguir ainda assim tranquilizar quem a ouve.

"É uma falsa frágil. Determinada, muito corajosa, mas delicada. Não é agressiva. E nesta situação em que estamos em combate, tem levado alguma pancada de forma injusta."

Adalberto Campos Fernandes, o também médico que enquanto ministro da Saúde do anterior governo a nomeou para o cargo, quando o antecessor, Francisco George, saiu por limite de idade, em 2017, reconhece-lhe essa força. "É uma falsa frágil. Determinada, muito corajosa, mas delicada. Não é agressiva. E nesta situação em que estamos em combate, tem levado alguma pancada de forma injusta."

Mas não é altura para sentimentos. Mesmo se sabemos, porque o contou ao Público em agosto de 2018, da reação que teve quando nove anos antes viu a diretora da Organização Mundial de Saúde declarar o início da pandemia de gripe A: "Chorei porque conheço pessoas cujos avós morreram na pandemia de 1918."

"Ninguém no país tem a experiência e o rigor que ela tem"

Com a gripe A acabou afinal por morrer pouca gente; as mortes ficaram pelas dezenas. "Estou muito grata à natureza por termos tido uma pandemia benigna", diz na citada entrevista, na qual confessa que o pior momento que enfrentara desde que entrara na DGS, em 1996, não dizia respeito ao seu tempo de diretora - apesar de nele ter enfrentado várias crises, incluindo dois surtos de legionela -, mas precisamente a um coronavírus, o da pneumonia atípica ou SARS, surgido em 2003, quando era (foi-o de 1996 a 2005) chefe da Divisão de Doenças Transmissíveis. "Não sabíamos o que a provocava e, até se perceber que era um novo coronavírus, foram dias de profunda angústia."

Angústia até perceber: eis algo que não tem faltado no caso do covid-19, que até esta sexta-feira matou mais de dez mil pessoas no mundo, mais de mil só em Espanha, mais de quatro mil só em Itália.

Assume-o Constantino Sakellarides, que esteve no posto agora ocupado por Graça Freitas de 1997 a 1999 e como ela é especialista em saúde pública. "A maior qualidade que podemos ter é modéstia intelectual. E a última semana tem sido dramática: pensávamos há duas semanas coisas que não pensamos hoje. Começámos a abordar esta ameaça com o modelo da gripe pandémica e já o abandonámos; agora passámos para o modelo do ébola. É que este vírus tem uma mortalidade muito menor do que os anteriores coronavírus, mas transmite-se muito mais. As decisões antes tomadas tinham que ver com o modelo da gripe, que tem uma fase de contenção e a seguir de mitigação. Porém o estudo do Imperial College de Londres que saiu há dias diz que tem de se associar o modelo de supressão. Na Science saiu também há dias um artigo com a estimativa de 80% de casos não reportados na China e agora o apelo da Organização Mundial de Saúde é testar, testar, testar." Faz uma pausa; tem riso na voz quando comenta o que viu no dia anterior nas TV, comentadores e políticos a perorar sobre o que deve e não deve ser feito: "Estava parvo a olhar para aquilo. Isto não é para leigos. Não se podem interpretar os dados disponíveis à luz do senso comum. Deixemos as pessoas que estão preparadas para fazer o juízo sobre os dados fazê-lo."

"O que sempre me impressionou nela são duas coisas: o conhecimento do que está publicado e a capacidade de traduzir esse conhecimento em ação concreta, saber não só o que fazer mas quando atuar."

E esse, o da preparação, assevera, é o caso de Graça Freitas. "Conheço-a há muito, seguramente há 25 anos ou mais, sei como ela pensa e tenho tido contacto com ela. Quando fui dirigir a DGS ela estava com a Ana Maria Sande Silva no setor de controlo de doenças infecciosas e eu costumava dizer que dormia descansado. O que sempre me impressionou nela são duas coisas: o conhecimento do que está publicado e a capacidade de traduzir esse conhecimento em ação concreta, saber não só o que fazer mas quando atuar. E por outro lado excelente capacidade de síntese. Sempre que tínhamos de fazer um comunicado sobre saúde era com essas duas colegas que o planeávamos. Ela tem essas qualidades que não perdeu e ninguém no país tem a experiência e o rigor que ela tem, capacidade para tomar decisões e de as comunicar de forma clara."

"As aulas dos outros professores eram enfadonhas, as dela não"

Os elogios de Sakellarides são emulados por outro ex-diretor-geral da Saúde, José Pereira Miguel. "Não me lembro de onde a conheci. Penso que por estar ligada a um centro de saúde e que o primeiro trabalho que fizemos juntos tinha que ver com a forma como a hipertensão era controlada nos centros de saúde." Convidá-la-ia a seguir para sua assistente na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa - foi-o mais de 20 anos, até ele se jubilar. "Tenho pena de que não tenha feito uma carreira académica, de que não se tenha doutorado, tinha todas as condições. Fui patrão dela, por assim dizer, por duas vias, quando fui para a DGS, onde ela fez um trabalho extraordinário, foi distinguida com a medalha de prata de serviços distintos do Ministério da Saúde por causa da gripe."

Como pessoa, di-la "de diálogo e bom gosto, educadíssima, respeitadora dos outros. Abnegada, está sempre disponível para ajudar. Sensata, reflete sobre as coisas, não lhe salta a tampa. E muito leal, algo que para quem é dirigente é um aspeto fundamental. Tem também uma capacidade de ser relativamente fria em relação a decisões que têm de ser tomadas". Algo precioso numa situação que Pereira Miguel vê como "nunca vista pelo escalar. Vejo críticas por aí de pessoas que não sabem do que estão a falar - é muito injusto".

"As aulas dela eram diferentes. Fazia uma coisa que era andar no meio de nós, sentar-se connosco no anfiteatro, era só ela, sem mais nada, e fazia-nos ficar atentos. As dos outros professores eram enfadonhas, as dela não."

Rodrigo Marques, 36 anos, internista de saúde pública que foi aluno da atual diretora da DGS, acrescenta outras qualidades: "As aulas dela eram diferentes. Fazia uma coisa que era andar no meio de nós, sentar-se connosco no anfiteatro, era só ela, sem mais nada, e fazia-nos ficar atentos. As dos outros professores eram enfadonhas, as dela não." Ficou com a impressão de alguém "extremamente simples, muito acessível, muito disponível", mas também "muito assertiva: as coisas eram feitas à maneira dela. Fomentava a discussão de igual para igual, era descontraída. Mas era rigorosa e exigente e as regras eram para cumprir".

Se estivesse a ler este texto à medida que é escrito, Graça Freitas diria agora o que disse à jornalista Alexandra Tavares Teles, que a ouviu para um perfil publicado na Notícias Magazine em fevereiro: "Sou uma pessoa absolutamente normal, nem perfeita nem santa."

"Gostava de lhe dar o abraço que sinto que ela merece"

Uma pessoa nascida no Huambo, há 62 anos, filha de uma "mãe que trabalhava só em casa" e um funcionário público da Administração do Território de Angola, então colónia onde viveu com a família "em muitos concelhos, muitas localidades pequenas, apesar de a minha escolaridade ter sido feita num colégio numa cidade".

E que não se lembra, diz numa entrevista de junho de 2019 a um site relacionado com saúde, do que a fez querer ser médica: "Não sei se a figura do delegado de saúde, muito importante naquele território, terá tido influência. (...) Fui sabendo o que era a Saúde Pública, e para mim Saúde Pública era pensar mais além, de forma mais vasta do que apenas numa pessoa individual, num doente e numa relação médico-doente."

Certo é que quando chegou a altura de entrar na faculdade foi na de Medicina, ainda em Luanda, que entrou. O ano era 1974; não o terminaria ali, partindo para Portugal em 75. "Uma transição muito pacífica", assegurou ao Público, sem adiantar mais. Fez o internato no Hospital de Santa Maria, foi a seguir, durante oito meses, para o Centro de Saúde de Ponte de Sor, no Alentejo, onde se confrontou "na primeira linha com os doentes".

Na mesma altura em que ela e a humanidade se confrontavam com uma lição de humildade: "Acabei o curso em 1980 e a tendência de as doenças transmissíveis desaparecerem era já tão grande que se pensava que, com os antibióticos, os anti-inflamatórios, os antisséticos, sobretudo com as vacinas, a humanidade ia deixar de ser afetada por estas doenças. Exatamente no ano em que acabo o curso (...) emerge a sida."
Lá se ia, conclui, "a nossa arrogância", "o pensamento de que dominaríamos a natureza". Talvez por isso se tenha dedicado ao Plano Nacional de Vacinação, que diz ser "um pouco a obra da minha vida": é preciso nunca baixar os braços, nunca facilitar, nunca ceder à falsa sensação de segurança que fez, diz, as pessoas "perderem o medo das doenças porque ninguém as vê".

Calhou a Graça Freitas, de quem o antecessor, Francisco George, declina falar ("Acho que não devo falar da minha sucessora"), liderar a luta do país face a esta terrível lição de humildade.

"É uma profissional excecional, sabedora, competentíssima, uma cientista séria como temos poucos em Portugal. E uma mulher voluntariosa como têm de ser todas as mulheres dirigentes, porque se nos exige muito mais do que aos homens; somos muito mais observadas e criticadas."

Para a jurista Leonor Furtado, que até há pouco tempo foi dirigente da Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, a batalha não podia estar mais bem entregue. "É uma profissional excecional, sabedora, competentíssima, uma cientista séria como temos poucos em Portugal. E uma mulher voluntariosa como têm de ser todas as mulheres dirigentes, porque se nos exige muito mais do que aos homens; somos muito mais observadas e criticadas." Suspira. "Ser dirigente superior mulher é complicado porque se está muito só. Imagino numa situação destas."

Para além dessa solidão, as duas mulheres partilham o amor pelas orquídeas - flores de aspeto frágil mas muito resistentes. "É muito corajosa, enfrentou uma situação de doença grave e celebra ter ultrapassado isso", reflete a magistrada do Ministério Público, que vai agora para o Supremo Tribunal Administrativo. "Gostava agora de lhe dar o abraço que sinto que ela merece - mas não se pode dar abraços agora."

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