"Ditadura de gosto". Forcados avançam com protesto em todo o país

Forcados, cavaleiros, ganadeiros e outros atores da tauromaquia aguardam pela reabertura das praças de touros para voltar à atividade. Mais do que da falta de apoio, queixam-se da "ditadura de gosto" da ministra da Cultura. Agora, marcaram uma manifestação de protesto para mais de 30 cidades e vilas do país, a 27 de junho

É uma espécie de pega de caras aos efeitos da pandemia na tauromaquia, a que se junta o que consideram ser a descriminação por parte da ministra da Cultura "à arte de pegar touros". Depois do protesto que, no início do mês, levou vários elementos ligado ao universo das touradas a acorrentarem-se junto ao Campo Pequeno, em Lisboa, os forcados avançam agora para uma ação a nível nacional. Pedem o regresso das corridas de touros e a reabertura das praças, para voltarem à atividade, numa altura em que se contabilizam milhões e euros de prejuízo neste setor.

A Associação Nacional de Grupos de Forcados (ANGF) - que representa 39, de todo o país - convocou um protesto nacional para o próximo dia 27 de junho, marcado para mais de 30 cidades e vilas do país.

"De uma forma totalmente ordeira e ordenada, sem palavras de ordem, respeitando os demais cidadãos, iremos demonstrar, para já localmente, a nossa indignação para com o comportamento inaceitável deste governo", sublinha a associação, em comunicado.

Mas aquilo que começou por ser uma iniciativa dos forcados, apenas, rapidamente se tornou numa causa de todo o setor tauromáquico - que também vive dias difíceis, sem ver arrancar a época, mesmo depois de aprovado um plano de contingência com a Direção Geral de Saúde (DGS) e com a Inspeção Geral das Atividades Culturais (IGAC).

Além dos forcados, as marchas que no sábado, 27, vão decorrer por todo o país, contarão com a participação de tertúlias taurinas, cavaleiros, ganadeiros, matadores/novilheiros, bandarilheiros, campinos, emboladores, bandas, escolas de toureiro, empresários e aficionados em geral.

"Isto é uma arte"

O mote foi dado pelo Grupo de Forcados Amadores das Caldas da Rainha, numa carta aberta ao Governo e à população, divulgada na semana passada. "Sentimos que nos estavam a faltar ao respeito. Pegar touros é uma arte, nós fazemos isto por gosto, e não podemos aceitar que a ministra da Cultura - que se assume publicamente contra as touradas - nos ignore e discrimine", disse ao DN Francisco Mascarenhas, cabo do Grupo de Forcados Amadores das Caldas da Rainha. Entretanto, a associação dos forcados reuniu a meio desta semana e decidiu avançar para o protesto em todo o país. "O que está a acontecer é quer este Governo e a ministra da Cultura em particular estão claramente a atacar a tauromaquia, e assim os milhões de aficionados, também", afirma ao DN Diogo Durão, presidente da ANGF. "Não podemos aceitar que a ministra e o Governo imponham aqui uma ditadura de gosto", sustenta, lembrando que Graça Fonseca rejeitou um barrete que um Grupo de Forcados lhe quis oferecer em Évora, na semana passada. "A única coisa que ela aceitou foi um livro, em Elvas".

No comunicado divulgado na quinta-feira, a associação recorda que "milhares de pessoas que vivem exclusivamente deste setor estão a passar enormes dificuldades financeiras, apenas e só porque este governo decidiu que não podem trabalhar. Que o que fazem profissionalmente, com brio, entrega, honestidade e responsabilidade, pagando os seus impostos e sustentando as suas famílias, é uma questão "civilizacional"".

E o que fez, afinal, transbordar o copo no meio dessa mágoa? O espetáculo de Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, no Campo Pequeno, logo no início deste mês, uma iniciativa que marcou o regresso dos espetáculos culturais, contando com a presença da própria ministra, do Primeiro-Ministro, António Costa, e do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Nesse dia, vários membros da associação de forcados e outros setores da atividade tauromáquica acorrentaram-se junto ao Campo Pequeno, como sinal de protesto. Diogo Durão também lá esteve, inconformado com o "o contrassenso que é, um espaço originalmente uma praça de touros, abrir para receber um espetáculo como aquele e não estar disponível para o tipo de atividade cultural que deveria acolher - as corridas de touros".

De resto, foi ali mesmo que decorreu a última iniciativa (Dia da Tauromaquia) em território nacional, a 29 de fevereiro, antes de declarada a pandemia, conforme recorda ao DN Hélder Milheiro, secretário-geral da Protoiro - Federação Portuguesa da Tauromaquia. "A época iniciou-se a 1 de fevereiro, como habitualmente, mas nem tivemos tempo de a por em marcha. Embora saibamos que muito está perdido, só queríamos voltar a trabalhar, como todos os outros setores de atividade.

Há duas semanas, em reunião com a DGS e IGAC, a Federação acordou o conjunto de normas que vão vigorar no plano de contingência para as praças de touros. A esta altura contavam já estar a laborar, mas até agora o que foi aprovado "continua por publicar".

Hélder Milheiro recusa, para já, falar de valores absolutos e concretos no que respeita aos milhões de prejuízos causados pela falta de atividade que a pandemia provocou. "A única coisa que sabemos é que este é um ano catastrófico. Por isso, qualquer que seja a atividade que voltemos a ter servirá apenas para o minimizar", acrescenta o responsável, numa altura em que a Federação tem em marcha um estudo de impacto económico, ao nível nacional. Para já, há apenas alguns dados dispersos, que permitem avaliar o impacto direto do prejuízo: "há cerca de três mil toiros que passaram os quatro anos e não podem ser lidados, e muitos ganadeiros já os enviaram para o matadouro. Só isso representa um impacto de seis milhões de euros; no ano passado tivemos 469 mil entradas de espetadores nas touradas. Só de bilheteira o impacto anda nos cinco milhões de euros".

Uma questão de gosto?

O facto de Graça Fonseca assumir publicamente ser contra as touradas é uma espinha atravessada na garganta dos diversos atores da tauromaquia, que reclamam igualdade de tratamento. "A ministra não tem que ter gosto. Tem, isso sim, a obrigação política e democrática de respeitar todas as áreas por igual, na função que desempenha". De resto, o mesmo responsável recorda que há, entre os milhares de aficionados no país, "membros de todos os quadrantes políticos, da esquerda à direita, à exceção do BE e do PAN". E sublinha as reuniões já tidas com a Comissão de Cultura no parlamento, e até a audiência com Marcelo. Para mais, o setor estranha "esta mudança de atuação, até por parte do Primeiro-Ministro, pois que quando era presidente da Câmara entregou as chaves da cidade de Lisboa ao grupo de forcados. Além disso, há muitos grupos com várias menções honrosas do Governo, nos últimos anos", declara Diogo Durão, da associação de forcados.

Confrontada com as críticas do setor, fonte do gabinete de Graça Fonseca diz apenas que a ministra remeteu para a IGAC o acompanhamento do plano de contingência, que estará nas mãos da DGS.

Nas propostas [urgentes] do setor tauromáquico face à Covid-19 (compiladas num documento já entregue ao Governo) estão ações como o apoio social de sobrevivência para os artistas impedidos de trabalhar nestes meses, a suspensão ou moratória do pagamento de contribuições fiscais, isenção do pagamento de IMI das praças de toiros durante o ano de 2020, criação de uma linha financeira de apoio à criação e manutenção dos cavalos ao encargo dos artistas (durante a paragem de atividade), o mesmo se aplicando para a criação do toiro bravo da lide, entre outras.

O documento, a que o DN teve acesso, foca também propostas de retoma de atividade, que apontavam para 1 de junho a data de recomeço - o que até agora ainda não aconteceu. A criação de um plano de segurança sanitário, o apoio a fundo perdido para os equipamentos (máscaras, desinfetante, termómetros), a transmissão de cinco espetáculos no canal público de televisão, descida de 6% da taxa de IVA nos espetáculos, a criação de incentivos fiscais aos artistas, promotores e ganadeiros, suspensão ou redução significativa das taxas de licenciamento e custos administrativos dos espetáculos tauromáquicos durante os anos de 2020 e 2021, entre outras. Há ainda um conjunto de medidas estruturais apontadas pela federação.

Em média, uma corrida de touros cria 170 postos de trabalho diretos, de acordo com os dados da Federação, que estima uma organização de mais de 200 espetáculos anuais, com 500 mil espetadores. Pela tv calcula-se que assistam dois milhões às corridas.

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