Desinfeção das escolas: pode fazer-se mas não é necessária

Várias câmaras municipais e juntas de freguesia estão a promover a desinfeção das escolas antes do início do ano letivo. A limpeza é importante, mas a "fumigação" não é obrigatória, nem sequer necessária, dizem as autoridades.

Completamente vestidos de branco, com máscaras e capuzes - não se lhes vê um bocadinho de pele, só os óculos por trás das viseiras -, os funcionários de desinfeção têm tido uma semana bastante ocupada. À medida que se aproxima o início do ano letivo, várias escolas estão a reforçar a sua habitual limpeza de verão com uma desinfeção dos espaços. Tudo para garantir que as aulas começam sem vestígios de covid-19.

Foi o que aconteceu em Lagos, por exemplo, onde a autarquia realizou, no início do mês, a desinfeção de todas as escolas públicas: "As áreas comuns das escolas foram e serão regularmente alvo de intervenções de limpeza e desinfeção", anunciou a autarquia, sublinhando que esta medida se insere num plano mais vasto de prevenção de covid-19, que inclui, por exemplo, a contratação de mais 30 funcionários para as escolas e a realização de ações de formação com as direções das escolas.

A Câmara de Cascais começou no dia 1 a desinfetar todas as 64 escolas públicas do concelho, numa megaoperação que vai estender-se até dia 17. "E a seguir, já depois das aulas começarem, vamos continuar a operação de desinfeção das escolas privadas", explica ao DN o vereador da educação Frederico Pinho de Almeida, garantindo ainda: "Vamos continuar a fazer a desinfeção das escolas com uma periodicidade quinzenal, tal como já fazemos nos 80 lares do concelho com uma periodicidade semanal."

A Câmara de Cascais começou a fazer a desinfeção das ruas e espaços públicos logo em março, respondendo aos muitos apelos dos moradores, e continua a fazê-la mas só em algumas zonas que considera de risco. "Não se consegue reduzir o risco a zero mas tentamos reduzi-lo o máximo possível", explica o vereador da Educação, que nesta quinta-feira participou numa reunião com os diretores de todos os agrupamentos escolares e das associações de pais e a delegada de saúde para acertar os últimos detalhes para o regresso às aulas.

Entre as medidas já implementadas, destaca-se a realização de testes covid-19 a todo o pessoal docente e não docente das escolas públicas (um grupo de cerca de três mil pessoas), possibilitando ainda a realização dos testes aos trabalhadores dos colégios privados. "Esta é uma preocupação muito grande da autarquia e estamos a fazer tudo para transmitir um sentimento de confiança e segurança em toda a comunidade para este arranque das aulas", afirma Frederico Pinho de Almeida.

Em Lisboa a decisão é das juntas

Em Lisboa, equipas constituídas por elementos com as pastas da Educação e da Saúde, assim como da Proteção Civil, visitaram todas as escolas do município para fazer uma vistoria e perceber que medidas seria necessário tomar com vista a um regresso às aulas em segurança. "Em algumas escolas foi necessário fazer pequenas obras e ajustes para garantir o distanciamento social, depois houve que colocar sinalética para orientar a entrada e saída de alunos e perceber como se poderia fazer o desfasamento dos horários dos recreios e das refeições", explica ao DN fonte oficial do gabinete do vereador da Educação da CML.

Quanto à desinfeção dos espaços, a autarquia não considerou que esta fosse necessária: "A maioria das escolas está fechada desde março, outras estiveram a funcionar mas fecharam em junho. Não há qualquer evidência científica de que seja necessária uma desinfeção neste momento", explica.

Em todo o caso, sublinha, a limpeza é atualmente uma competências das juntas de freguesia: "Algumas freguesias continuam a promover a desinfeção dos espaços públicos, nomeadamente nas zonas com maior concentração de pessoas, como as paragens de autocarro." Da mesma forma, algumas juntas de freguesia decidiram realizar, nesta semana, a desinfeção das escolas. Foi o caso da Junta de Freguesia de Marvila.

É mesmo necessário desinfetar as escolas?

Apesar das imagens impactantes dos homens vestidos de branco que, sobretudo durante os dois meses de confinamento, andaram a desinfetar vilas e cidades por todo o país, existem dúvidas sobre a eficácia deste tipo de desinfeção, feita com pulverização, não só porque, de acordo com os epidemiologistas, o contacto humano com o vírus a partir de superfícies infetadas é relativamente limitado, mas sobretudo porque o recurso em larga escala à dispersão de desinfetante à base de lixívia pode ter um impacto negativo na saúde de quem o inala.

Logo em março, a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, afirmou: "Não há nenhuma evidência científica de que estas desinfeções sejam eficazes. Não é prioritário ter trabalhadores a desinfetar ruas. O que vai travar a covid-19 é estarmos distantes uns dos outros."

Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmava que "a pulverização ou fumigação de espaços exteriores, como ruas ou mercados, não é recomendada para destruir o novo coronavírus ou outros agentes patogénicos porque é inativada pela sujidade".

Além disso, a OMS avisava ainda que esta medida, "mesmo feita no exterior, pode ser perigosa para a saúde humana", e recomendava que "em caso algum devem ser pulverizadas pessoas" porque "não reduz a capacidade de um infetado propagar o vírus por gotículas ou contacto". Pulverizar cloro ou outros produtos químicos tóxicos sobre as pessoas pode causar irritações dos olhos e da pele, broncoespasmos e problemas gastrointestinais, alerta a organização.

Por tudo isto, a entidade mundial para a saúde pública não recomendava "a aplicação sistemática de desinfetantes em superfícies por pulverização ou fumigação nos espaços interiores". "Se for preciso aplicar desinfetantes, convém fazê-lo com um pano ou um toalhete embebido de desinfetante."

Desta forma, a desinfeção - tal como está a ser feita em várias escolas - não é uma das medidas previstas na diretiva sobre "Limpeza e desinfeção das superfícies em ambiente escolar no contexto da pandemia de covid-19", publicada em maio pela Direção Geral da Saúde (DGS) em conjunto com as Forças Armadas e a Direção-Geral dos Estabelecimentos Escolares (DGEstE). Este documento refere apenas a necessidade de fazer uma "desinfeção húmida", com uma solução de hipoclorito de sódio (lixívia).

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