Demitiu-se o diretor do serviço de cirurgia e transplantação do Curry Cabral

Américo Martins, demitiu-se por ter visto impedida a proposta de reorganização com circuitos independentes no hospital, disse esta quinta-feira fonte do hospital.

O diretor do Serviço de Cirurgia Geral e Transplantação do Hospital Curry Cabral, Américo Martins, demitiu-se na quarta-feira por ter visto impedida a proposta de reorganização do serviço na unidade, disse esta quinta-feira à Lusa fonte do hospital.

"O Conselho de Administração não aceitou a criação de dois circuitos independentes" no Curry Cabral para manter, como propunham os médicos, os serviços destinados aos doentes oncológicos e transplantados no Curry Cabral, adiantou a fonte.

Na semana passada, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central esclareceu que a transferência do transplante hepático do hospital Curry Cabral para Santa Marta decorre da necessidade de garantir aos doentes "a máxima segurança" durante a pandemia covid-19.

Eduardo Barroso diz que Curry Cabral como hospital covid é "erro trágico"

Na terça-feira, o médico cirurgião Eduardo Barroso, que dirigiu o Centro Hepato-Bilio-Pancreático e de Transplantação (CHBPT), disse à Lusa que transformar o Hospital Curry Cabral, em Lisboa, é um erro trágico lamentando que os especialistas não tenham sido consultados.

Esta oferta do Curry Cabral, em Lisboa, para ser um hospital covid na minha opinião é um erro trágico, porque é um hospital que tem uma oferta quase única", disse à Lusa Eduardo Barroso.

O cirurgião afirmou que "de todos" os hospitais da Grande Lisboa, o Curry Cabral deveria ser o primeiro fora da lista "por causa da especificidade da grande unidade de transplantação, que é a maior do país".

"Porque é que o hospital Curry Cabral é um hospital covid? Porquê? Porque tem um serviço de infeciologia com 16 ou 20 camas para tratar esses doentes? Toda a gente sabe que a haver uma curva exponencial de doentes deste tipo são precisas centenas senão milhares de camas. O facto de haver um hospital só dedicado ao covid não quer dizer que os outros fiquem livres de covid", afirma Eduardo Barroso.

Na opinião deo médico de 71 anos, os especialistas deviam ter sido ouvidos para que fosse agilizada a possibilidade de serem tratados com eficiência os doentes oncológicos ou os transplantados ou mesmo aqueles que podem vir a precisar de um transplante "nesta altura de grande risco".

"Não vão deixar de morrer doentes que precisam de um transplante urgente e alguns transplantes podiam fazer-se perfeitamente, mas é preciso responder-se aos milhares que já estão feitos e que precisam muitas vezes de ser internados. Era possível fazer esse circuito no Curry Cabral? Sim. Bastava ter ouvido as pessoas responsáveis pelo transplante no Curry Cabral. Têm de ouvir os peritos. Quando é que foram ouvidos?", questionou.

"Eu estou muito preocupado com o covid, como qualquer cidadão, mas a minha vida foi tratar sobretudo doentes com cancro, integrado em equipas multidisciplinares e há doentes com cancro que não podem esperar que passe o surto para obterem uma chance de sobreviver", sublinha.

Para o especialista a decisão deveria ter sido publicitada e preparada, reunindo especialistas para se organizar, sugere, uma "Comissão de Crise Nacional"

"Ao menos que se tivessem ouvido os especialistas destes tratamentos e que eu saiba não ouviram. Ninguém me ouviu a mim. Eu dediquei 30 a 40 anos da minha vida a estes doentes e ninguém me ouviu a mim nem a outros responsáveis", sublinhou Eduardo Barroso acrescentado que provavelmente vai ser preciso adaptar grandes espaços públicos como se está a fazer em Nova Iorque, porque o Curry Cabral "não vai resolver o problema de todos os doentes que vão precisar de internamento por covid".

"Além dos transplantados, há aqui um abandono dos doentes com cancro, por exemplo, que me preocupa muito e não sei se ter um hospital geral só para o covid é correta porque não vai haver no mundo um hospital livre de covid", diz o médico.

Na segunda-feira, o Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Central esclareceu que a transferência do transplante hepático do hospital Curry Cabral para Santa Marta decorre da necessidade de garantir aos doentes "a máxima segurança" durante a pandemia covid-19.

O Santa Marta será "um hospital livre de covid-19, de forma a nele concentrar os doentes, que, como os transplantados, exigem cuidados especiais", afirma o CHULC num esclarecimento enviado à agência Lusa, recordando que este "é o único centro no país a realizar transplante pulmonar" e onde ocorre também transplante cardíaco.

Entretanto, o Grupo de Transplantados do Hospital Curry Cabral lançou uma petição pela manutenção dos serviços na unidade hospitalar.

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