Dar vida ao interior: o papel principal de dois atores

Há sete anos que Catarina Santana e André Louro ajudam a mudar o destino de aldeias como a Chanca ou o Rabaçal, no concelho de Penela. Foi ali que criaram uma companhia de teatro e uma comunidade de aprendizagem - a escola alternativa que queriam para os filhos, duas das três crianças do lugar onde moram.

Quem é você?", perguntou o vizinho do lado, quando avistou no largo da aldeia um novo morador. Era André Louro, o ator que acabara de se mudar para a Chanca, freguesia do Rabaçal, no concelho de Penela. Quando a conversa entrou num campo mais pessoal, acabaram na adega. "E foi aí que eu conheci os homens todos da aldeia", conta ao DN o ator, que juntamente com a mulher, a atriz Catarina Santana, e os dois filhos pequenos, se mudou há sete anos para o interior. A ideia era mudar de vida, mas acabou por ser também criar vida numa região desertificada e envelhecida: além de uma companhia de teatro profissional, fizeram nascer uma escola alternativa para os filhos, devolvendo crianças a um edifício desativado.

O casal já tinha intenção de sair de Lisboa, "por diversas razões". Tinham amigos no concelho de Penela e a região já lhes havia despertado um interesse especial. Quando encontraram a casa da Chanca, foi uma espécie de "tudo alinhado" no universo. Os amigos também já tinham ligações ao mundo rural "e a este modo de vida", coisa que não se verificava com nenhum dos dois. O mais próximo que André esteve desse registo foi na infância, quando morou em Estarreja. Já Catarina, a cidade mais pequena onde viveu foi Lisboa, como sublinha.

Foram os filhos (agora com 8 e 10 anos) a razão que mais pesou na procura de outro modo de vida: "Ter mais tempo para fruir da companhia, para os educar - de uma maneira mais próxima da natureza, da comunidade. Eram valores que eu via que em Lisboa, naquele lufa-lufa da cidade, era muito difícil incutir", sublinha Catarina.

Depois de instalados na Chanca, veio a realidade. Quando os filhos começaram a frequentar o pré-escolar, perceberam que o cenário idílico que imaginavam naqueles montes e vales da serra de Sicó era uma miragem, nalguns aspetos. Uma expectativa defraudada. "Os meninos estavam fechados dentro de um edifício, desde manhã até à tarde, sem saírem para o exterior sequer."

Eram 11 crianças para três adultos, numa região em que chove muitas vezes e noutras faz frio. Num dia, Catarina chegou ao infantário e teve uma epifania: vê-los a colorir um desenho de um trator. "Viemos nós para um sítio ainda cheio de tratores, em que as pessoas poderiam mostrá-los e ficariam contentes por isso, por ter essa ligação com as crianças, e afinal aquilo não fazia sentido. Isso serviu também para percebermos qual é que poderia ser o nosso papel." Acabou por ser um papel principal.

Catarina volta atrás no tempo para o explicar. "Um dos grandes problemas já era a falta de pessoas, mas pareceu-me nessa altura que se estava a educar as pessoas para o êxodo rural, desde pequeninos, ao não fazer essa ligação com o meio em que estavam inseridos."

Foi nessa viagem pela educação pré-escolar, pela infância dos filhos e pelo repovoamento que encontraram outros pais com as mesmas preocupações. E foi assim que nasceu o projeto de uma "escola" alternativa, como a comunidade educativa que acabaram por criar na aldeia das Cerejeiras, numa antiga escola primária desativada há uma década. Mais tarde, o pré-escolar do Rabaçal (que conheciam da experiência inicial, pois foi jardim de infância depois de ser escola primária) acabou por fechar. E foi assim que se mudaram para lá, mantendo o nome do projeto: Comunidade de Aprendizagem das Cerejeiras.

O dia caminha para o fim quando o DN acompanha aquele momento em que Catarina e André vão buscar os filhos à "escola". Na verdade, trata-se do ensino doméstico acompanhado, num trabalho pedagógico coordenado por Adriano Félix. Licenciado em Letras e Pedagogia pela Universidade de São Paulo, mestre em Educação, veio do Brasil em 2018 para fazer doutoramento em Democratização do Currículo (construído a partir da criança), Inovação Pedagógica e Comunidades de Aprendizagem. Vinha atrás da conhecida Escola da Ponte e, pelo caminho, descobriu as Cerejeiras.

A ele juntam-se mais duas pessoas que dividem o seu tempo inteiro, "e depois um projeto de voluntariado em que vêm professores aprender connosco". Ao todo, a comunidade é feita de 12 crianças, até aos 12 anos. "Não sabemos até onde iremos, no equivalente aos níveis de ensino, porque o projeto tem crescido connosco. A nossa ideia seria que o projeto crescesse com elas. É como a vida, não sabemos o que lhes vai acontecer nem o que vão preferir. No final de cada ciclo fazem o exame que lhes dá equivalência, sem perder de vista que o ensino doméstico está em linha com o grau de formação dos pais", sustenta Catarina.

Entretanto, a equipa completa-se com membros da comunidade que se voluntariam para fazer algumas atividades. É o caso de três professores reformados, ingleses, que vêm desenvolver atividades com as crianças. André Louro recorda que "uma delas vai lá uma vez por semana ensinar lavores. Só fala inglês. E assim matamos três coelhos com uma só cajadada. Eles têm de se desenrascar e aprendem a falar com ela. Outro era professor numa escola técnico-profissional em Inglaterra, de canalização e aquecimento, e faz construções com eles, no jardim".

É o caso do baloiço da entrada e das casas de pássaros que moram no recreio. Da escola convencional só restam mesmo as paredes. "O currículo é muito abrangente. É um processo mais lento, não estão sentados numa carteira a aprender conteúdos curriculares. Porque não é mais importante fazer uma ficha de matemática do que construir uma casa de pássaros. Tudo é conhecimento e tudo é saber. E a metodologia que temos estado a encontrar é sempre um desafio: eles saem muito, jogam pela aldeia toda aos polícias e ladrões, vão aprender matemática para o cemitério, para o café ou o minimercado, recolhem histórias pelas casas dos vizinhos, e depois trabalham-nas em português."

"Não é mais importante fazer uma ficha de matemática do que construir uma casa de pássaros. Tudo é conhecimento e tudo é saber."

Na aldeia - conhecida pelas ruínas da vila romana e pelo queijo (que se faz ainda em muitas casas) - pairava uma tristeza desde que a escola fechou. Faltava o barulho das crianças. "Se não há crianças, não há vida", lembra André Louro, 46 anos, pai de duas das três crianças que ainda moram na Chanca. Quando o casal chegou, havia perto de 40 habitantes. Mas todos os anos a capela abre para mais um funeral, pelo que agora serão cerca de 30. No largo, mantém-se o parque infantil, mesmo em frente à casa dos atores. Do outro lado da estrada acabou de estrear neste verão uma casa de turismo rural. É a vida que regressa, no ano da pandemia.

O dia em que a aldeia se reviu numa peça de teatro

À entrada da Chanca há um palco, construído em pedra, virado de costas para o Rabaçal. Ainda lá está a estrutura metálica que terá suportado um toldo, mas é evidente a falta de uso. Porém, "não há uma associação ou um centro cultural, um sítio neutro em que as pessoas se encontrem. A sorte é que se dão todos bem. Quando estreámos veio toda a gente, menos uma pessoa", conta ao DN André Louro, recuando a agosto de 2015, quando a companhia de teatro estreou ali mesmo a primeira peça. O casal de atores convidou cada um dos habitantes para o espetáculo. "Foi algo feito com muito amor, muito carinho, e tempo", enfatiza André. De modo que, dois anos depois de chegarem, um dos quais a construir o primeiro espetáculo - teatro físico, sem palavras, um trabalho de muito detalhe -, a Companhia de Teatro da Chanca estreou O Sítio, no quintal da casa.

Pediram aos vizinhos uns bancos corridos, montaram a plateia, e no final acabaram todos a partilhar uma merenda, pois cada um levou alguma coisa. Feitas as contas, eram 80 pessoas, numa aldeia de 30. No final, André concluiu que "se calhar o evento foi mais interessante do que o espetáculo. Mas o espetáculo tem de ser muito bom para o evento ser interessante. Estava aqui tudo misturado: os autóctones, as pessoas que vieram de fora, os recém-habitantes, os autarcas como público. E conseguimos levar as conversas das pessoas a uma discussão que não seja partidária, futebolística ou religiosa - ou de invejas locais. O teatro trabalha emoções. E é tão importante que as pessoas possam discutir", conclui.

A peça fala de um casal de idosos, nas suas rotinas, que recebe um postal a anunciar o nascimento de um neto. E enquanto prepara a encomenda que quer mandar ao neto, há um incêndio, que ajudam a combater. Moram numa aldeia recôndita, "que pode ser de Portugal ou de outro país". São 50 minutos sem uma única palavra.

Estava então conseguido "um objeto artístico que falasse aos nossos vizinhos, mas não só, que também falasse aos nossos pares e às pessoas que estão nos gabinetes a decidir como é que podem apoiar o interior e a refletir sobre o isolamento e a desertificação nestes territórios". Depois levaram-na a vários sítios do mundo: Brasil, Macau, Cabo Verde. Na última edição do Festival de Teatro Ibérico, recebeu uma menção honrosa.

"Estava aqui tudo misturado: os autóctones, as pessoas que vieram de fora, os recém-habitantes, os autarcas como público."

Até 2019 a Companhia andou em volta deste espetáculo, e depois de um outro, para crianças, que percorreu o país em 80 exibições e dez mil espectadores, a maioria no concelho de Almada, a convite do Teatro Extremo. André e Catarina foram fazendo outros trabalhos, às vezes juntos - como o dueto para piano e voz, com poemas de Frederico Garcia Lorca e José Afonso. Entretanto, concorrem a um programa de apoio relacionado com os fogos de 2017 - a revitalização do território através das artes. Concorreram e ganharam.

"Como as câmaras municipais e os agentes não criam nem promovem estruturas, quando aparece um programa de apoio a estruturas profissionais não há quem participe, porque as estruturas profissionais não existem. Houve 300 mil euros para serem distribuídos e sobrou dinheiro. Porque o teatro profissional continua em Lisboa, Porto e nas capitais de distrito, quando muito", frisa André. Em fevereiro iniciaram esse novo espetáculo financiado. Em março a pandemia avançou, travando tudo. Restruturam-no para 12 pequenas curtas (de base documental e teatral, Os Gestos e as Gentes) sobre outros tantos comércios tradicionais do concelho de Penela. É dali que continuam a ver a serra da Estrela, em dias claros, e o mundo inteiro.

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