Da infertilidade a salvar o casamento. O que leva alguém a raptar um bebé?

A tentativa de rapto de um bebé no Hospital de São João, no Porto, não é caso isolado em Portugal. Outras mulheres tentaram o mesmo e com sucesso.

Fingem ser médicas, enfermeiras, inspetoras do Ministério da Saúde. É assim que conseguem raptar recém-nascidos em maternidades. Antes, muitas delas já tinham simulado estar grávidas, nove meses inteirinhos a enganar até o próprio companheiro. Movem-nas um quadro de infertilidade ou até mesmo a idade avançada, que já não lhes permite engravidar. Como não conseguem ter filhos, chegam a acreditar que o bebé raptado é mesmo delas.

A maioria trata as crianças roubadas muito bem - são encontradas nos berços, agasalhadas, limpas e bem alimentadas. As raptoras arrependem-se, pedem desculpas. As penas, em Portugal, costumam ser leves - raras vezes cumprem prisões efetivas -, mas também podem ser duras, se ficar provado que houve premeditação ou quando quem rapta já tinha filhos - também os há, quando o rapto de um bebé serve para salvar um casamento em queda livre. Nestes casos, o tribunal não é meigo: quem é a mãe que rouba um filho a outra mãe?

Aconteceu ao longo dos anos de norte a sul do país, em grandes maternidades como a Alfredo da Costa, em Lisboa, mas também em hospitais mais pequenos, como o de Penafiel. A última vez foi neste sábado, ao princípio da noite, quando uma mulher vestiu uma bata branca e, de estetoscópio ao pescoço, fingiu ser médica para raptar um recém-nascido do berçário do Hospital de São João. Foi a própria avó da criança quem passou a bebé para os braços da raptora, e a criança só foi salva porque o pai desconfiou da situação.

A raptora acabou por ser detida pela PSP ainda no interior da maternidade, passou dois dias numa cela até lhe ser decretada, nesta segunda-feira de manhã, a medida de coação mais gravosa: prisão preventiva. Sai indiciada por dois crimes: usurpação de funções, com uma moldura penal que pode ir até aos dois anos de cadeia, e tentativa de rapto, com uma moldura penal entre dois e oito anos de cadeia.

Fonte policial que está a acompanhar o caso adiantou ao DN que a mulher tem 48 anos, reside em Vila Nova de Gaia e está desempregada. Foi encontrado na sua posse um cartão de técnica socorrista, emitido em 2016, o que pode ter ajudado à sua entrada furtiva no hospital. É secretária de profissão, solteira, e não tem antecedentes criminais. Para já não é ainda conhecida a motivação para a sua atitude. Entretanto, o hospital anunciou a abertura de um inquérito "para esclarecimento completo da ocorrência", disse à agência Lusa fonte da unidade, que se escusou a avançar com mais detalhes.

O Hospital de São João, à semelhança dos outros hospitais com obstetrícia, dispõe de pulseiras eletrónicas para vigiar os bebés. O sistema passou a ser obrigatório em 2009 depois de vários casos de rapto nos hospitais nacionais. Conheça os mais mediáticos.

Márcio Júnior não existia, a não ser na cabeça de Simone

Simone Ferreira tinha apenas 22 anos, em 2008, quando raptou um bebé do Hospital Padre Américo, em Penafiel. Em julgamento, já em 2009, confessaria todos os factos que constavam da acusação. Pela prática de sequestro agravado, arriscava uma pena de dois a dez anos de prisão, mas o representante do Ministério Público disse aceitar que fosse condenada a pena de prisão suspensa. Principalmente porque Simone se mostrou arrependida e pedira desculpa à família da criança.

"Queria pedir desculpa à Vera Mónica [mãe da criança] e a toda a sua família", afirmou a arguida. Foi "o desespero e o desejo de não querer desiludir o namorado que a levou a raptar o bebé". A advogada dos pais da criança raptada também disse aceitar que a eventual pena de prisão pudesse ser suspensa pelo tribunal, como acabou por acontecer.

Simone Ferreira, que residia em Felgueiras, chegou a ficar em prisão preventiva. Tinha planeado muito bem o rapto. Entrara no hospital fazendo-se passar por enfermeira e foi assim que conseguiu raptar um bebé. Em seu poder, quando na noite do dia do rapto os inspetores da PJ a foram interrogar - tinham recebido uma denúncia -, mostrou um impresso da Segurança Social com vista à obtenção de abono de família, um boletim individual de saúde no qual constava o registo de vacinas e ainda um impresso de certificação de gravidez. Em todos eles, o nome que tinha escolhido para um bebé que não era seu: Márcio Júnior.

Enganou todos: o namorado, de 25 anos, que a deixou no hospital supostamente grávida, e a família, a quem disse que não podia assistir ao parto nem ficar no hospital. Durante três dias andou pela maternidade até que conseguiu roubar um bebé. Mas acabaria por contar o plano a um amigo, a quem pediu ajuda. O amigo não acreditou, mas, depois de a ter deixado duas vezes à porta do hospital e ao ouvir todos os pormenores do plano, decidiu contar a uma amiga e foi esta quem contactou as autoridades.

Mais tarde, soube-se que Simone Ferreira tinha sido seguida naquele hospital em consultas de ginecologia na especialidade de infertilidade/esterilidade. Conhecia o funcionamento da unidade de saúde e tinha dificuldades em engravidar.

O que leva uma mãe a roubar o filho a outra mãe?

Não foi a única a simular uma gravidez. Em fevereiro do ano 2000, aconteceu na maior maternidade do país e a Maternidade Dr. Alfredo da Costa saltou para as páginas dos jornais pelos piores motivos. Uma falha na segurança deu margem a que Cristina Nazaré raptasse a bebé Bruna Alexandra. Nazaré tinha 43 anos e era uma ex-auxiliar de enfermagem. Estava numa relação com um homem mais novo e queria dar-lhe um filho, para salvar a união. Já tinha filhos - quatro -, mas nenhum do novo namorado. Calculista, entrou na MAC, onde se identificou como inspetora do Ministério da Saúde. Aproveitou o final do dia - foi também por volta das 19.00, tal como aconteceu no passado sábado, no Hospital de São João, no Porto - e tirou a bebé diretamente dos braços da mãe, alegando que a criança tinha de ir fazer o "teste do pezinho". Não passaram muitas horas até que a Polícia Judiciária entrasse na casa de Cristina Nazaré, em Odivelas. Bruna Alexandra dormia. Estava "muito bem tratada".

Um caso passional. A maioria das mulheres que raptam bebés recém-nascidos quer muito ser mãe, devido a problemas de infertilidade, ou quer "dar" um filho ao companheiro. No caso de Cristina Nazaré foi exatamente isto que se passou. Estava numa relação com um homem há alguns meses e pensou que um filho poderia deixá-lo mais "preso" a ela. Simulou a gravidez, contou as semanas e, na altura em que seria suposto o parto acontecer, entrou na MAC e roubou uma criança dos braços da mãe, Susana Canelas, que nunca esperou ouvir a sentença decretada pelo tribunal, oito meses após o rapto: cinco anos de prisão efetiva.

A mulher, de 43 anos, auxiliar de enfermagem, no desemprego, sem antecedentes criminais, terá simulado uma gravidez durante nove meses, alegadamente devido ao desejo de dar ao namorado um filho. Bruna, "três quilos e trezentos, 49 centímetros de altura, loirinha, olhinho azul como o pai", voltou para os braços da mãe ao fim de sete horas - a investigação-relâmpago da PJ, na altura, conseguiu que o caso não tomasse proporções maiores. Mas o choque foi nacional.

Em julgamento, o tribunal não ficou convencido com as alegadas perturbações psicológicas da raptora e condenou-a a cinco anos de prisão efetiva. No acórdão sublinha-se como agravante para estes factos a situação da arguida como profissional de saúde, já que desempenhava as funções de auxiliar de enfermagem. A juíza fez ainda referência à condição de mãe de quatro filhos de Cristina Nazaré, o que a obrigaria a ter consciência da aflição dos pais da bebé raptada. A sentença dizia que a arguida "levou a cabo esta ação motivada apenas por razões passionais e não relacionadas com o desejo de ter uma criança".

O milagre do André. Raptora nunca foi encontrada

Um outro caso que abalou a opinião pública e levou o Ministério da Saúde a pressionar de imediato os conselhos de administração das maternidades Magalhães Coutinho e Dr. Alfredo da Costa a contratarem empresas privadas de segurança aconteceu em 1991, também em Lisboa, no Hospital de Santa Maria. Uma mulher fez-se passar por médica e raptou um recém-nascido. Rúben Filipe foi levado por Maria Cristina Valente, que, envergando também uma bata branca, entrou na sala de obstetrícia do hospital com o objetivo de roubar um bebé. Disse a Ana Isabel, de 28 anos, que iria fazer o "teste do pezinho" à criança. O menino tinha apenas dois dias de vida e só seria devolvido aos pais uma semana depois. A polícia encontrou Maria Cristina Valente com Rúben Filipe em Castelo Branco. A mulher nunca mostrou arrependimento e foi condenada a quatro anos e seis meses de prisão.

Por causa deste caso, o antigo diretor da Maternidade Dr. Alfredo da Costa Luís Barroco disse ser "praticamente impossível" algo semelhante acontecer na MAC, mas nove anos depois Cristina Nazaré provava que até na maior maternidade portuguesa a segurança falhava.

O caso de André Tiago, o bebé raptado em julho de 2002 no hospital de Guimarães, recebeu até a alcunha de "milagre", tudo porque a criança acabaria por ser encontrada nas escadas de uma igreja. Nunca se descobriu a identidade de quem a raptou. Maria Emília Monteiro dera à luz há apenas dois dias quando passou para os braços de uma desconhecida o filho. O rapto de André foi um duro golpe na vida de um casal que passara por três traumáticos abortos e vários tratamentos de fertilidade. O pai, pedreiro, e a mulher, doméstica, nunca se esqueceram dos dias de angústia até o pequeno ser encontrado. Principalmente a mãe, que, segundo o companheiro, "esteve sempre semi-inconsciente, numa grande depressão", como contou ao Correio da Manhã, quatro anos após o rapto.

Temeram que o filho fosse vendido a pedófilos ou levado para longe, para casa de alguém que não podia ter filhos. O telefonema da PJ chegou cinco dias depois, mas o casal pensou isto: "É para nos informarem de que o André está morto", confessaram, na mesma entrevista. Foram até à esquadra, a mãe de cadeira de rodas, o desespero no coração. Afinal, estava lá o André, tinha sido encontrado, embrulhado em cobertores, no altar do Santuário de Nossa Senhora da Penha (Guimarães).

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