Cuidados intensivos devem atingir pico de doentes na próxima semana

Há duas semanas que o número de doentes com covid-19 em Unidades de Cuidados Intensivos não pára de aumentar. Na semana passada ultrapassou-se a barreira dos 400, sexta-feira chegou-se aos 526. E, para o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva, "as próximas três semanas a um mês vão ser muito difíceis".

As Unidades de Cuidados Intensivos do país registaram esta semana o número mais alto de doentes com covid-19 internados até agora, 526., mais dez do que os registados na quinta-feira. O número não tem parado de aumentar, só ontem, dia 26, houve uma descida, mas apenas de um doente, 516.

Mas, segundo o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Intensiva, João Gouveia, "o pico nos cuidados intensivos ainda vai ocorrer nos últimos dias de novembro e nos primeiros de dezembro". Isto porque, explicou ao DN, "o internamento em medicina intensiva ocorre entre sete a dez dias dos primeiros sintomas, e ainda não sentimos o efeito do acréscimo de casos da semana passada".

Portugal nas últimas 24 horas 5444 casos positivos e 67 óbitos, passando para um número total de 285 838 casos positivos e para 4276 mortes. Nas Unidades de Cuidados Intensivos estão internados 526 pessoas, o que corrobora as estimativas de João Gouveia.

"As previsões para os próximos dias são de mais doentes nas UCI". Aliás, sublinha, "as próximas três semanas ou um mês serão extraordinariamente difíceis em termos de medicina intensiva. Por duas razões, porque a pandemia vai continuar e a procura de doentes covid vai aumentar. E porque, e se olharmos para esta semana, há chuva e frio, o inverno está aí e vamos ter provavelmente um acréscimo de outras patologias".

Neste momento, a expectativa resume-se a que as medidas mais restritivas decretadas pelo Governo durante os dois estados de emergência que estamos a viver e que atingem mais de 200 concelhos do país, com recolher obrigatório até 8 de dezembro, comecem a surtir algum efeito e atenuem a curva de transmissão do vírus na comunidade.

Até porque, ressalva João Gouveia, "os hospitais podem abrir mais camas mas se houver um médico para 20 doentes, a resposta não é a adequada".

A resposta da medicina intensiva, o fim da linha dos cuidados de saúde, aos doentes com covid~19 tem sido uma questão polémica, sobretudo depois de saber que Portugal era dos piores da União Europeia nesta área. O que levou o Governo de António Costa a anunciar que iria investir na medicina intensiva, avançou com a compra de ventiladores, mas os próprios intensivistas foram lembrando que as máquinas sem profissionais não funcionam.

Na primeira vaga, foram recrutados profissionais de outras áreas para dar apoio à medicina intensiva, essa, aliás, foi uma das razões que levou à suspensão da atividade programada não urgente. Agora, não é bem assim. "Os hospitais são bifásicos atendem doentes covid e não covid e não há tanta disponibilidade de profissionais para apoiar os cuidados intensivos", referiram ao DN.

Depois dos ventiladores, foi anunciado um aumento de vagas para formação de médicos intensivistas, mas estes levam anos a formar-se e a medida não tem um efeito imediato. As autoridades de saúde chegaram a assumir não haver especialistas disponíveis no mercado para contratar".

Agora, esta semana, foi a vez de o Parlamento aprovar uma proposta dos partidos BE e PEV para a criação de mais 400 camas de medicina intensiva até março de 2021. No entanto, o mesmo Parlamento, através dos deputados do PS, chumbou a proposta para a contratação de mais profissionais. João Gouveia reforça: "Posso ter mais camas, mas se tiver 20 doentes para um médico a resposta não é adequada. Não podemos querer passar da cauda da Europa em medicina intensiva para líder da Europa de um momento para o outro. Não é assim".

O médico intensivista argumenta ao DN desconhecer como e onde vão ser criadas estas 400 camas agora aprovadas pelo Parlamento. "Não sei se estas 400 camas estão integradas neste cenário ou se serão mais 400 camas do que aquelas que foram propostas pela comissão", argumenta. "Se forem além das que propusemos será bom, mas tem de haver um projeto de profissionais a acompanhar tal medida", volta a referir.

Recordando que a Comissão de Acompanhamento da Resposta Nacional em Medicina Intensiva para a Covid-19, a que preside, já em agosto tinha entregue ao Ministério da Saúde um relatório sobre as necessidades nesta área, propondo que fossem criadas camas no sentido de haver uma resposta de 9,4 para 100 mil habitantes no primeiro trimestre de 2021. Ou seja, passar de uma resposta de 6,4 camas por 100 mil habitantes para 9,4, já que se antevia uma segunda vaga e um pico de procura de cuidados nesta área.

No documento, entregue à ministra Marta Temido, a comissão "referia as necessidades de recursos humanos, quer a nível de médicos quer de enfermeiros e de assistentes operacionais, face às necessidades de mais camas". Logo na altura, o documento recomendava a contratação de mais médicos, através de concursos que deveriam ser lançados de imediato, de profissionais de enfermagem, já que nesta área há a necessidade de aumentar em cerca de 60% o número de vagas para profissionais para se fazer face ao número de camas que estão previstas ser criadas.

O médico intensivista João Gouveia quer acreditar que "as 400 camas agora aprovadas são acompanhadas de um projeto de recursos humanos e das infraestruturas equivalentes", se for assim "é uma excelente notícia".

A maior pressão continua a estar no Norte do País, esta semana mesmo João Gouveia contou ao DN ter ido de novo ao Porto buscar doentes para serem tratados na UCI do seu hospital. O que vem a seguir, teme-se. Mas, ao mesmo tempo, há alguma esperança que se consiga atenuar a curva de transmissão do vírus.

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