Covid-19. OMS alerta para medicamentos falsos. Infarmed avisa para compras na Internet

Já circulam em África remédios falsos, dados como eficazes no tratamento do covid-19, como a hidroxicloroquina. Em Portugal não há registos, mas o Infarmed avisa para os cuidados a ter quando se compra na internet.

O alerta vem da Organização Mundial de Saúde: há um número crescente de medicamentos falsos no mercado, nomeadamente em África, alguns com a promessa de curar o novo coronavírus, como a hidroxicloroquina. Em Portugal, garante a autoridade nacional do Medicamento (Infarmed), até esta quinta-feira, não foi detetada qualquer situação irregular. Mas lança o alerta para que, na Internet, só se comprem medicamentos em sites autorizados. Até porque, como a OMS avisa, os medicamentos falsos podem originar "efeitos colaterais graves" e podem estar contaminados com tóxicos.

Com o alastrar da pandemia do novo coronavírus, as falsificações começaram a surgir como forma de dar resposta às falhas no mercado - a nível do equipamento, as máscaras constituem o caso mais flagrante -, mas já há muita oferta de remédios supostamente milagrosos para o novo coronavírus. Esta situação levou já a Europol a desencadear ações para intercetar a medicação e material falsificado.

A operação Pangea - levada a cabo em março pela unidade da Europol de combate à criminalidade farmacêutica e que costuma ter a participação portuguesa - resultou na prisão de 121 pessoas em 90 países em apenas sete dias. Foram apreendidos produtos no valor de 14 milhões de dólares (quase 13 milhões de euros). Da Malásia a Moçambique foram confiscadas dezenas de milhares de máscaras e remédios falsificados, alguns vendidos como cura para o covid-19. Ao todo, foram encerradas cerca de 2 500 hiperligações para produtos relacionados com o vírus em sites, redes sociais, mercados online e anúncios publicitários.

O aproveitamento que as redes criminosas estão a fazer da pandemia levou o secretário-geral da Interpol, Jurgen Stock, a afirmar que a venda destes medicamentos durante uma crise sanitária mundial mostra "uma total desconsideração pela vida das pessoas".

Para a Organização Mundial de Saúde o menos mau que pode acontecer é estes remédios não curarem nenhuma doença. Mas também pode acontecer o pior: que sejam fabricados com substâncias tóxicas e que venham a trazer efeitos colaterais muito graves a quem os tomar.

Países estão a fabricar menos

Os receios e o confinamento levaram a que, no mundo inteiro, as pessoas se abastecessem de medicamentos básicos. E essa foi também uma razão para que se começasse a sentir algumas falhas no mercado. Acresce que o circuito global do medicamento também foi afetado porque países produtores, como a China e a índia, estão a fabricar menos.

Uma fábrica indiana disse à BBC que está a laborar apenas a 50/60% da sua capacidade. E porque a índia fornece cerca de 20% dos remédios básicos para África, as necessidades começam a fazer-se sentir. Há empresas da Índia e da China, nomeadamente na região de Wuhan, que também fazem parte do circuito de produção das substâncias ativas dos remédios que chegam a Portugal. Mas fonte do Infarmed sublinha que, apesar de algumas terem encerrado uma ou duas semanas, não houve reflexos no abastecimento.

A indústria farmacêutica - que vale milhões e milhões de euros - é um negócio verdadeiramente global: substâncias ativas são produzidas na Ásia, como é o caso dos dois países referidos. Posteriormente são transformadas nos medicamentos como os conhecemos (comprimido, cápsula, suspensão oral, etc) que serão posteriormente embalados na Europa, América do Sul, ou ainda na Ásia, e só depois distribuídos pelos laboratórios.

Comprar só em sites autorizados

Em Portugal, a autoridade do medicamento não registou qualquer caso de falsificação de medicamentos depois da declaração da pandemia de covid-19, mas ainda assim entendeu fazer um alerta aos consumidores. Como, aliás, já tinha sido feito pela Agência Europeia do Medicamento (EMA).

O Infarmed faz questão de frisar que ainda não existem remédios autorizados para tratar o covid-19 e sublinha que "medicamentos falsificados podem causar graves problemas de saúde". Aconselha ainda a que antes de realizar uma compra pela internet, o consumidor deve certificar-se que o está a fazer num site autorizado. Deve também verificar se a página apresenta o "Logótipo Comum"- em caso afirmativo, deve-se fazer clique e confirmar se está registada em www.infarmed.pt

"Compre apenas em páginas de farmácias e locais de venda de medicamentos não sujeitos a receita médica autorizados", avisa o Infarmed.

A autoridade nacional do medicamento tem um protocolo com a Autoridade Tributária que está atenta à chegada de encomendas que possam levantar suspeitas - algumas são despistadas de forma administrativa, outras necessitam da intervenção do Infarmed que vê se os remédios ou suplementos alimentares com substâncias ativas podem entrar no país. Muitas vezes acontece que o comprador agiu de boa-fé, às vezes até "assessorado" online por supostos médicos, sem saber que está a participar no mercado do crime organizado.

Os falsificadores de medicamentos alargaram as suas malhas em África, revela uma investigação levada a cabo pela BBC. Na capital da Zâmbia, Lusaka, falaram com um farmacêutico que já aponta dificuldades de fornecimento. "Os medicamentos estão a acabar e não estamos a reabastecer. Não há nada que possamos fazer. Foi muito difícil conseguir alguns, especialmente medicamentos essenciais como antibióticos e antimaláricos."

Hidroxicloroquina falsa e preços a disparar

Os problemas começam na base - já faltam os ingredientes para fazer o fármaco usado para o tratamento da malária, lúpus e doenças reumáticas, a cloroquina e hidroxicloroquina, que começaram a ser usados também para tratar as infeções pelo novo coronavírus.

O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, será um dos responsáveis pela procura sem precedentes destes ingredientes, desde que começou a referir-se às suas potencialidades para curar o covid-19. A procura global tem sido tal que os preços subiram em flecha. O preço dos componentes base custavam em média 100 dólares/kg (92 euros) e atualmente está nos 1150 dólares (cerca de mil euros).

Apesar da insistência de Trump, a OMS não se tem cansado de repetir que não há evidência definitiva de que a cloroquina ou a hidroxicloroquina curem o novo coronavírus.

A BBC encontrou grandes quantidades falsificadas deste remédio à venda na República Democrática do Congo e nos Camarões. A OMS descobriu-o no Níger. O preço de um frasco com mil comprimidos do antimalárico é vendido a cerca de 40 dólares (cerca de 37 euros), mas no Congo está a atingir quantias que chegam aos 250 dólares (230 euros).

As embalagens apontavam para que o medicamento seja produzido pela britânica Brown and Burk Pharmaceutical, mas a empresa negou qualquer relação e diz que é falso.

O uso do da hidroxicloroquina no tratamento do novo coronavírus tem sido controversa. Por exemplo, o Instituto Universitário (IHU) Méditerranée Infection de Marselha confirmou a eficácia do da substância em combinação com a azitromicina (um antibiótico) no tratamento do Covid-19. O anúncio foi, no entanto, contestado de imediato por vários outros especialistas que argumentaram que era impossível tirar essa conclusão com base exclusivamente neste estudo - que não foi publicado em nenhuma revista científica - devido à forma como foi desenvolvido.

Estes especialistas alegam, nomeadamente, que o estudo não inclui um grupo de controlo (ou seja, pacientes que não estão a receber o tratamento em estudo) e, portanto, é impossível fazer uma comparação. Outro argumento desfavorável é que se baseia apenas em 80 doentes que observados no Instituto Universitário de Marselha.

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