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Bispo auxiliar de Lisboa apela ao combate à fome causada pela pandemia

D. Américo Aguiar incentivou os peregrinos de Fátima a transformarem "a inevitabilidade da pandemia numa oportunidade": que cada pessoa seja mais humana e os cristãos mais autênticos. E disse que também a Igreja pode aproveitar o momento para se renovar.

"Nenhum de nós, crente ou não crente, pode dormir descansado se sabe que à sua beira existe uma família que passa fome", disse esta noite em Fátima o bispo auxiliar de Lisboa, Américo de Aguiar, que preside à peregrinação deste 12 e 13 de junho - a primeira aberta aos fieis desde o início da pandemia.

Foi a pandemia, de resto, que guiou praticamente toda a homilia, nomeadamente os efeitos devastadores que já estão a fazer-se sentir na sociedade.

"O alimento é a expressão mais básica da nossa cultura humana: é comprado pelo trabalho, é preparado para nos dar forças e é consumido pela partilha da mesa. A falta de alimento significa quase sempre falta de emprego e as consequências estão à vista de todos", disse D. Américo de Aguiar.

Afinal, esta não é uma realidade nova na história da Humanidade, tão-pouco na história de Fátima. O bispo evocou os irmãos Francisco e Jacinta Marto, os dois pastorinhos "que morreram por causa de uma pandemia mundial, ficando somente Lúcia, tal como a senhora de Fátima tinha anunciado na aparição de 13 de junho". Para os que apenas encontravam nesta peregrinação uma substituição (no tempo) do 13 de maio, ficou claro que, afinal, ela sempre teve toda a importância.

Os três pastorinhos eram, afinal, oriundos de famílias pobres, também elas (ainda mais) atingidas pela pandemia daquele tempo, a gripe pneumónica, que vitimaria os dois irmãos.

As celebrações desta noite não encheram o recinto, como noutro tempo. Depois da inédita cerimónia de maio, sem peregrinos, desta vez seriam algumas centenas a colorir de amarelo-esperança uma parte do recinto. O santuário não arrisca números, mas espera para amanhã de manhã uma moldura mais expressiva.

"É difícil cantar de máscara, eu sei", dizia ao início das cerimónias o diretor do canto da Assembleia, Marco Daniel Duarte. A maioria dos pequenos grupos de peregrinos cumpriu a distância de segurança. Na verdade, fonte do Santuário de Fátima confirmou ao DN que apenas existem três grupos oficialmente inscritos nesta peregrinação: um batalhão de combatentes das ex-colónias, mais dois grupos da região de Lisboa: um de 15 e outro de 30 elementos, que chegaram a pé.

Ao longo das estradas também não houve qualquer apoio a peregrinos, desta vez, com os tradicionais postos de socorro. E mesmo no Santuário o apoio é diminuto: até ao início da tarde desta sexta-feira, apenas sete peregrinos tinham sido assistidos no posto de socorros, de acordo com a informação disponibilizada pelos Servitas.

A reinvenção dos cristãos

D. Américo de Aguiar, 46 anos, foi ordenado sacerdote em 2001. Desde há quatro é presidente das empresas do Grupo Renascença Multimédia, e foi já diretor do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais. Atualmente é o coordenador do Comité local organizador da Jornada Mundial da Juventude (que se realizará em Lisboa, no verão de 2023). Não admira, por isso, que tenha focado uma parte da sua homilia numa certa reinvenção do conceito cristão: "ser cristão hoje é mais uma "questão de amor" do que "um assunto doutrinal"", disse o bispo auxiliar, considerando que, afinal, a pandemia fez operar um conjunto de mudanças.

"Diante do homem moderno que pensava que o controlo da natureza era só uma questão de tempo, o caos sanitário que vivemos recentemente transformará para sempre as nossas vidas . A pandemia recordou-nos a nossa identidade genética: somos frágeis e mortais. A pandemia confirmou a nossa identidade social: já não pertencemos à nossa pequena comunidade local, mas somos membros de uma comunidade mundial interligada entre si. A pandemia potenciou até uma renovada identidade eclesial: uma igreja mais doméstica, mais laical e capaz do digital", disse.

Por isso mesmo, D. Américo Aguiar acredita que a pandemia, "mais do que nunca, exige-nos a nossa identidade cristã: não podemos abandonar o nosso próximo. Estejamos juntos no combate a esta pandemia e transformemos a sua inevitabilidade numa oportunidade: que cada pessoa seja mais humana e os cristãos mais autênticos".

Invocando as 14 obras de misericórdia que a catequese ensina aos católicos, "há uma que se tornou urgente e imprescindível a todos nós, que é: dar de comer a quem tem fome", afirmou o bispo, insistindo assim na importância desse papel da Igreja. Para mais, encontrou num fado de Amália o resumo perfeito para esse desafio aos fieis: "a alegria da pobreza/está nessa grande riqueza/de dar e ficar contente".

"Este é o segredo do mandamento do amor, o sinal da nossa identidade", concluiu o bispo.

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