"Eu gosto da minha terra, mas isto morreu"

Dezasseis anos depois da inauguração, regressámos à Aldeia da Luz.

19 de novembro de 2002. A nova aldeia da Luz era inaugurada pelo então primeiro-ministro Durão Barroso para que as águas do Guadiana transformassem a albufeira de Alqueva no maior lago artificial da Europa. O chefe do Executivo deixaria sinais de esperança rumo ao futuro que nunca se concretizaram. "Isto é uma aldeia fantasma. Sem trabalho todos partem. Não é terra para os novos. Só ficam os velhos", lamenta José Lopes, do alto dos seus 84 anos, dando expressão à estatística exibida pela junta de freguesia que deixa espreitar um futuro sombrio: Anualmente morrem, em média, sete idosos e nascem duas crianças. Até o novo cemitério, que devia ter uma capacidade para 30 anos, só já dispõe de três sepulturas.

Entre as horas dadas pelo relógio da igreja que ecoam pelas ruas desertas, uma motorizada lá cruza a praça 25 de abril rompendo um longo marasmo de dezenas de minutos em que não se deixou ver vivalma naquela que estava pensada para ser a "sala de visitas" da aldeia da Luz. "Só lá para a tardinha é que vêm ali sentar-se três velhotes a fazerem tempo até à hora de jantar", atesta Manuel Cunha, dono da loja de artesanato ali ao lado que também faz de mercearia.

Decidiu investir há uns anos quando a nova aldeia ainda era novidade para turista ver, aquando da trasladação das gentes da terra para as novas casas, três quilómetros ao lado da antiga Luz, que foi desmantelada para ficar submersa pela água da barragem de Alqueva. Era então 423 o número de habitantes, hoje contam-se 320.

Um negócio que fecha

Se José Lopes fica de voz embargada ou recordar a velha aldeia, a par dos familiares e amigos que já partiram, Manuel Cunha não esconde a desilusão, assumindo que está pensar em virar costas ao negócio e dedicar-se apenas à sua profissão, perito avaliador de sinistros. Explica que o estabelecimento não rende com os de fora e os de dentro têm pouco dinheiro para gastar.

"São quase todos reformados e os novos já não querem nada com isto", diz, surgindo Rui Carrilho, de 21 anos, como um exemplo que ilustra a tendência. Está a tirar planeamento regional em Lisboa e só vai à Luz por festa. "Eu gosto da minha terra, mas isto morreu. Não há nada para a minha geração que valha a pena. É triste", lamenta, avançando que também o pai procurou sorte noutras paragens.

"A carpintaria deixou de dar e foi para o estrangeiro. Só cá está a minha mãe", refere, numa espécie de mote transversal à aldeia, corroborado por Manuel Silva, trabalhador rural na casa dos 50 anos que "quis" ficar na terra. "Pelo menos até agora", sublinha, sem descurar outras saídas para a vida. "Estamos parados no tempo. Da nova aldeia, só as casas é que valeram a pena. O turismo, a rega e as perspetivas de mais emprego que anunciaram correu tudo mal", insiste, sem perceber quem terá interesse nas casas que estão à venda. E são algumas, a maioria de herdeiros que tiveram direito aos imóveis, mas que vivem longe.

Com uma muleta numa mão e o saco de pão na outra, José Lopes recorda aquele 19 de novembro de 2002 quando ouviu Durão Barroso vaticinar futuro à terra. "Quem dera que todas as aldeias do país fossem como a aldeia da Luz", disse o primeiro-ministro. "Eu ainda podia trabalhar [tinha 68 anos] e quis acreditar naquilo. Mas assim que a euforia acabou foi sempre a perder", lamenta José Lopes, tendo deixado o trabalho do campo há dez anos "sem ver futuro", acrescenta.

A população admite que apesar da tristeza em dizer "adeus" à velha Luz - num processo que obrigou à trasladação do próprio cemitério - o investimento de 50 milhões de euros no projeto liderado pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva (EDIA) era animador. Construíram-se 210 habitações bem ao estilo do Alentejo, 11 estabelecimentos comerciais e 16 equipamentos coletivos.

O pavilhão coberto e centro de dia foram dois exemplos, mas a escola básica também se distinguia dos restantes estabelecimentos de ensino da região. Nem assim se livrou de ter marcado presença numa lista de estabelecimentos de ensino que deveriam fechar por falta de alunos. Em 2002 havia 18 crianças, mas chegou a ter oito.

Incentivar a natalidade

"Conseguiu-se que viessem crianças de Mourão (sede de concelho) para a escola. Seria o caos se fechasse", diz a presidente da Junta, Sara Correia, que também nasceu na antiga aldeia, e que aposta tudo na fixação dos jovens que restam. "Apesar de gerirmos 3 mil euros por mês decidimos dar apoio à natalidade", revela a autarca, que garante um subsídio de 250 euros ao primeiro filho, 500 ao segundo e 750 ao terceiro.

A presidente da junta percebe a resignação de quem se cansou de esperar pelos "ventos de mudança", resumindo que "falhou a esperança", à medida que os investimentos em torno do setor turístico se desvanecendo no tempo. "Falaram-nos da praia fluvial, da marina, mas também de um posto de recolha de azeitona. Nada avançou e ficou a ideia de que fomos aqui depositados", diz, lamentando que se tenha chegado a um ponto em que até o cemitério está sobrelotado.

Sara Correia dá prioridade ao seu alargamento para 2019 à boleia de "negociações e cedência perante a câmara de Mourão e EDIA, que vai assumir metade da despesa".

Um novo restaurante e o museu

As boas notícias dizem que os últimos seis casais da terra que casaram ficaram na aldeia, aos quais se juntaram Nídia Susano e Marco Vieira, ambos na casa dos 30 anos, ao abrirem em junho um restaurante de grelhados. Marco é cozinheiro e quis regressar a Portugal depois de estar emigrado na Suíça. Como a namorada é da Luz decidiram investir, sendo apontado como uma espécie de "lufada de ar fresco" contra o despovoamento. "No verão chegámos a servir 50 refeições por dia, mas agora baixou para dez. Vamos ter calma", diz ao DN enquanto prepara um tabuleiro de camarão cozido. Agora o restaurante está vazio, mas "à tarde a malta aparece."

O Museu da Luz, o único equipamento que continua a ser gerido pela Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas de Alqueva, é apontado como o caso de maior sucesso e de atração de visitantes, tendo garantido ao longo dos anos um milhar de pessoas por mês, onde se contam turistas, sobretudo nos meses mais quentes, mas também muitas escolas da região. A questão é que, segundo a própria presidente da junta, como os turistas não têm mais atrações na Luz acabam por visitar o museu e seguir viagem, enquanto os grupos de alunos até chegam a animar a aldeia em torno do museu, mas não dinamizam a economia.

O museu foi fundado em 2003, reunindo toda a informação sobre a relocalização da aldeia da Luz, através de fotografias, vídeos e coleções etnográficas e arqueológicas.

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