Ibuprofeno agrava infeção da covid-19? "Não existe evidência", diz a DGS

A diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, disse que o ibuprofeno não agrava a infeção pelo coronavírus e adiantou que a Agência Europeia do Medicamento vai fazer desmentido

Este sábado o ministro francês da saúde Olivier Vérain, ele próprio médico, publicou uma mensagem no Twitter com um alerta: "Tomar anti-inflamatórios (ibuprofeno, cortisona,...) poderá ser um fator de agravamento da infeção [pelo novo coronavírus]. Em caso de febre, tomem paracetamol".

Esta é, aliás, a presente recomendação das autoridades de saúde francesas, que surgiu dias depois de uma publicação na prestigiada revista científica Lancet, a 11 de março, que sugere que o ibuprofeno pode agravar o covid-19. Mas, o tweet do ministro francês, gerou novos receios e a informação deu rapidamente a volta ao mundo

Na tarde de domingo a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, referiu a propósito, em conferência de imprensa, que Agência Europeia do Medicamento vai fazer um desmentido. "Estivemos agora reunidos com o presidente do Infarmefd e vai ser feito um desmentido formal a nível europeu, inclusive. Porque, de facto, nem do Brufen nem de quaisquer outros medicamentos existe qualquer prova ou evidência que potenciem a ação do vírus", assegurou Graça Freitas.

Mais tarde, a Autoridade Nacional do Medicamento (Infarmed) emitiu uma nota no seu site a informar que "não existem, actualmente, dados científicos que confirmem um possível agravamento da infecção por covid-19 com a administração de ibuprofeno ou outros anti-inflamatórios não-esteróides". "Nesse sentido, não há motivo para os doentes que se encontrem em tratamento com os referidos medicamentos o interrompam."

A possível relação entre a exacerbação das infeções, na generalidade, e a toma de ibuprofeno está a ser avaliado na União Europeia pelo Comité de Avaliação de Risco de Farmacovigilância da Agência Europeia do Medicamento (EMA). Espera-se que esta análise, cuja conclusão se aguarda em maio, permita esclarecer se existe uma associação entre a toma de ibuprofeno e a exacerbação das infeções.

"Dado que o ibuprofeno é utilizado para tratar os sintomas iniciais das infeções, será extremamente complexo determinar esta relação", nota o Infarmed. A primeira opção para tratamento da febre deve ser o paracetamol; no entanto, também não há "evidências para contraindicar o uso de ibuprofeno", acrescenta.

Também a Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários já tinha, entretanto, feito um comunicado, afirmando que "não existe nenhum dado que que indique que o ibuprofeno agrave as infeções por covid-19"

O artigo da Lancet, da autoria de investigadores das universidades de Basileia, na Suíça, e de Tessalonica, na Grécia, com o título em forma de pergunta ("Are patients with hypertension and diabetes mellitus at incresed risk foi covid-19 infection?") é um estudo de caso preliminar que levanta a hipótese de o ibuprofeno agravar a infeção pelo SARS-cov-2 dada a sua possível estimulação dos recetores a que se liga nas células humanas para as infectar.

Para Filipe Froes, médico pneumologista, coordenador do gabinete de crise da Ordem dos Médicos e membro da task force da Direção-Geral da Saúde para a infeção pelo novo coronavírus, "não existe evidência de que o ibuprofeno faça mal, e portanto devem ser seguidas as indicações das autoridades de saúde".

O especialista considera que "o caso assumiu uma grande dimensão porque a informação foi publicada na revista médica Lancet, que é muito prestigiada". Mas, sublinha, o artigo relata "um caso de estudo preliminar", que não esclarece várias questões.

A dimensão que o caso acabou por ter, sublinha, mostra que o facto de "não estar a ser feito o processo de revisão por pares antes da publicação de dados sobre o Sars-cov-2, pela necessidade urgente de divulgação de novos conhecimentos sobre este novo vírus, pode criar situações destas de alarme social, o que na sua opinião "ressalva a importância de toda a informação científica ser devidamente contextualizada".

O especialista não tem dúvidas: a comunidade científica não deixará de debruçar-se sobre aqueles dados para estudar a questão até exaustão.

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