Virtudes públicas vícios privados

Criou-se em Portugal a curiosa perceção de que qualquer iniciativa privada, porque pode visar o lucro, constitui um ato de esbulho. Pelo contrário, a coisa pública é gerida por profissionais impolutos e a ação do Estado é sempre benéfica, porque quer o bem de todos, sem distinguir nenhuns. Em tempos de pandemia, louvou-se a força do Estado e a derrota do "mercado". Transformados em caixas de ressonância de agendas políticas, os media projetam estas narrativas que apelam ao gosto, sempre simplista, da vox populi.

Não tenho nada contra manifestações do sentimento popular. Na verdade, são um sismógrafo da ação política e económica do país. O seu espaço de projeção revela a capacidade da sociedade civil acomodar o direito a ter voz, a gerir o dissenso, antecipando e, por vezes, resolvendo tensões latentes. O "popular" entrevistado para uma peça noticiosa expressa toda uma estrutura de sentimento, que se encena como pura e autêntica perante as câmaras. Mas nem sempre é assim, ou porventura, é cada vez menos assim.

A pureza do sentimento popular foi sempre um mito, habilmente utilizado pelos discursos políticos e pelas suas máquinas de produzir sentido, da mesma forma que a volonté generale de matriz iluminista manifesta com mais evidência o gosto da elite do que a alma do povo. Em tempos de acelerada circulação de narrativas e num país estruturalmente pobre, onde as elites sempre se apoiaram, e sempre se submeteram à tutela do Estado, investir, e arriscar, transformar e daí gerar valor, levantam suspeita. Porque o Estado tem por natureza uma pulsão dominante e os que dele dependem raramente perdoam voos autonómicos e sobretudo de sucesso. A isto acresce a inveja estrutural, que já Camões assinala nos seus Lusíadas. É certo que nas últimas semanas, as audições parlamentares ao Novo Banco têm dado ao país um infeliz espetáculo de gestores privados incapazes e mal formados. Mas nem aqui esta imagem divulgada pelas televisões faz jus a todos os outros que fazem o país avançar com honestidade e competência.

Que a iniciativa privada pode fazer serviço público mostrou-o à abundância o setor da saúde durante a pandemia. As avaliações das PPPs nesta área demonstraram de forma clara, que as parcerias se verteram em vantagem económica para o Estado. E que com o dinheiro poupado se pode investir em mais e melhor saúde para todos os portugueses. E mostra-o também o setor da educação. Além de um ensino reputado e com provas dadas, a Universidade Católica Portuguesa a capacitar Portugal há 54 anos, volta agora a fazer a diferença lançando uma nova Faculdade de Medicina. Responde à necessidade do país e à vocação dos jovens que desejam prosseguir a profissão. Anualmente, a universidade atribui apoios sociais e bolsas de mérito de valor representativo e que totalizaram em 2020, 5.349.498 euros. Não queremos deixar ninguém para trás. Servir o país não é apanágio nem privilégio de alguns. É vocação e missão. E aqui não há distinção entre a ação estatal e não estatal.

O Estado não tem de ser máximo nem mínimo para servir, em ambos os casos, os interesses de alguns mascarados de interesse de todos. Tem de ser o Estado que é necessário, permitindo a liberdade de agir, com responsabilidade e autonomia, de forma transparente e certamente sem fugir à necessária supervisão. Um equilíbrio feliz que nos faça crescer sem complexos nem inveja, sem ressentimento nem preconceito.

Reitora Univ. Católica Portuguesa

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