Viragem à esquerda na América do Sul

A vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018, depois da eleição de Trump, em 2016, foi mais um sinal importante da onda populista e dos radicalismos de direita em crescimento pelo mundo naquele tempo. Lembremos que esses movimentos nos trouxeram também o Brexit ou o crescimento da extrema-direita em países fundadores do projeto europeu, como França ou Itália.

Constatou-se, contudo, que Bolsonaro e Trump terão sido o pico do crescimento naquela conjuntura da direita populista americana. Desde então, a maré política tem vindo a mudar.

Argentina, em 2019; EUA em 2020; Perú e Chile, em 2021; Colômbia, no último domingo. Neste país, em particular, a vitória do candidato de esquerda é especialmente significativa.

Gustavo Petro será o primeiro presidente de esquerda na História da Colômbia, ganhando as eleições contra um populista de direita, machista e violento, a quem alguns chamam Trump colombiano.

A eleição deste ex-membro de uma guerrilha que lutava pela democracia e depôs as armas há mais de 30 anos, passando a participar no processo democrático, representa uma oportunidade para a reconciliação do país com o seu passado marcado pela violência.

Vive-se uma grande esperança na Colômbia. Oxalá seja possível cumpri-la.

No Brasil, por outro lado, a esperança reside na mudança que pode surgir com as eleições de outubro.

Tudo indica que a segunda volta será disputada entre Bolsonaro e o ex-presidente Lula da Silva. A divulgação das gravações em que o ex-juiz Sérgio Moro, depois ministro da Justiça de Bolsonaro, combinava com o procurador uma estratégia que foi vista como uma tentativa de incriminar Lula, com motivações políticas, veio juntar-se à perceção de que todo o processo era muito frágil, reabilitando a sua imagem junto de uma parte dos cidadãos brasileiros.

Acresce que muitos brasileiros, em particular os mais carenciados, se lembram bem de como o país e a sua vida melhorou nos oito anos em que Lula foi presidente. Dezenas de milhões resgatados da pobreza, expansão da classe média, crescimento económico, modernização do país. Comparando com o tempo atual, sentem que estavam muito melhor.

As sondagens apontam para a vitória de Lula, mas as campanhas populistas, assentes na disseminação de ódios e ressentimentos, tornam tudo imprevisível.

A concretizar-se a mudança política, o Brasil poderá retomar, por exemplo, as políticas de combate às desigualdades. O Brasil pode e deve retomar o seu papel no quadro das organizações multilaterais, contribuindo para a afirmação do sul e a defesa de um mundo mais equilibrado.

Muito se espera deste novo tempo na América do Sul. Mas como se pode ver no caso norte-americano, a direita radical nacionalista e populista estará sempre à espreita. Em qualquer caso, estes são tempos interessantes, em que o desenvolvimento progressista pode voltar àquele continente. Estejamos atentos, saibamos ser parceiros para novas oportunidades.

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O governo da Hungria está a bloquear a implementação na UE de uma taxa mínima sobre os lucros das multinacionais. Viktor Órban utiliza o veto como chantagem, mesmo quando isso significa a impossibilidade da UE aceder a largos milhares de milhões euros de uma receita fiscal justa e ética.

Eurodeputado

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