Vencer a maldição

Há pouco mais de um século, quando o primeiro lorde do almirantado inglês decidiu substituir o combustível do poderio naval britânico (petróleo em vez de carvão na sua frota), estava a configurar o mundo em que vivemos. E ainda não se tinham disparado os primeiros morteiros da também primeira Guerra Mundial. De lá para cá, tudo evoluiu e se modernizou. Mas o desenho é impostor. O rasto de conflitos e atentados ao longo de décadas tresanda a disputas pelo petróleo. É a maldição desse tesouro cobiçado. Porque, descontada a Noruega e poucas mais, a desigualdade é a marca maior das nações bafejadas por esse líquido negro que faz sumariamente alguns ricos e miseráveis milhões de outros.

Uma nova revolução está a passar por nós. O Pacto Verde da União Europeia, a conversão da China à causa ambiental e a reconversão esverdeada da Casa Branca, com Joe Biden, transformam a luta contra as alterações climáticas no eixo central das políticas interna e externa das três grandes potências económicas do planeta nos próximos anos. Vivemos uma década crucial que marcará a ambição coletiva na redução de emissões - tendo 2030 como meta intermediária - e determinará se é possível alcançar a neutralidade climática das principais economias entre 2050 e 2060.

A União Europeia está bem posicionada para a transformação industrial, tecnológica e social que a revolução ambiental em curso exigirá ou desencadeará, e os indicadores revelam que parte da jornada está a ser percorrida. As emissões de gases com efeito estufa caíram 24% entre 1990 e 2019, e os 27 parceiros da União prometem redobrar esforços para atingir os 55% até ao final da década. As energias renováveis já representam 19,4% do consumo europeu, muito próximo da meta de 20% fixada para este ano.

A Europa não pode, porém, descuidar a concorrência internacional, seja dos Estados Unidos, da China ou de qualquer outra nação. O gigante asiático já é líder em várias tecnologias, e as suas empresas produzem mais de 70% dos painéis solares, 69% das baterias de lítio ou 45% das turbinas eólicas. Nas próximas décadas, portanto, não bastará estabelecer metas ambiciosas. É também crucial permanecer competitivo nos novos filões económicos que a revolução verde trará à luz.

Um relatório da organização britânica Carbon Tracker demonstra que, com a tecnologia atual, poderíamos estar a produzir cem vezes mais eletricidade a partir de energia solar e eólica do que a atual procura global - ocupando com painéis 0,3% da área terrestre do mundo, ainda assim, menos do que o espaço ocupado hoje pela exploração de combustíveis fósseis.

Por mais verde que seja, a revolução em curso é industrial e, com toda a probabilidade, determinará o ranking global das potências económicas em meados do século XXI. Nos últimos anos, a União Europeia demonstrou certa facilidade para se atrasar em áreas onde estava na vanguarda, como a telefonia móvel, ou para perder o comboio, como no caso da internet 2.0 e da exploração gigantesca e lucrativa de dados digitais. É, pois, essencial que o investimento público incentive a produção de energia renovável. Não só porque Bruxelas quer, mas porque a produção tecnológica gera empregos estáveis e valor acrescentado. A grande oportunidade está ao nosso alcance: Portugal tem extensas áreas com vento forte e uma exposição solar muito acima da média europeia.

Jornalista

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