"Vale a pena confiar na decisão fora de Lisboa"

... disse Fernando Araújo, presidente do conselho de administração do Hospital de São João ao Expresso. Estamos a falar da instituição de saúde em Portugal que enfrentou, com resultados extraordinários, os impactos iniciais das diferentes fases da pandemia. Um absoluto caso de sucesso internacional, independentemente dos parâmetros de avaliação.

No norte sentiu-se sempre uma certa aflição pelo desfasamento - de duas semanas a um mês - entre o que se passava nos hospitais e a resposta (lenta) do governo. Mas foi essencialmente na vaga de novembro que a diferença entre a gravidade da pandemia e a perceção na opinião pública/governo se tornou mais grave. Aliás, se Lisboa não tivesse sido bastante poupada ao impacto da vaga do final do ano, talvez Governo, Presidente e Parlamento não cometessem o erro mais significativo desta pandemia - um Natal com mobilidade nacional.

Em contraciclo, no Hospital de São João, vivia-se uma outra realidade. "Planear e antecipar", explicou Fernando Araújo. "Há dias foi publicado um artigo científico que demonstra que a sobrevivência dos nossos doentes foi das melhores, comparando com Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos."

Além da capacidade de aprender em tempo real na primeira vaga, o São João enfrentou uma segunda vaga com números gigantescos. Como conseguiu responder? "No verão fizemos obras, comprámos equipamentos, mudámos pessoas e demos formação". Isso permitiu responder aos picos covid, ajudar outros hospitais do país e - sublinhe-se - manter a atividade não-covid preservada, mesmo em janeiro.

A rede de contactos internacionais das suas equipas permitiu ao São João estar sempre na vanguarda do que melhor se fazia no mundo - por exemplo, nas técnicas a adotar nos cuidados intensivos e na farmacologia adotada. Mas também neste caso: a montagem de uma tenda INEM no exterior da urgência evitou, em novembro e janeiro, o arrasador efeito social (e internacional) das ambulâncias em fila à espera de socorro. Fernando Araújo acrescenta outro dado: "Quando decidimos que, ao contrário das normas da DGS, os doentes estáveis não precisavam de estar internados, criticaram-nos." Mas depois a norma foi alterada.

E o Ministério da Saúde continua muito longe das pessoas? "Infelizmente sim. Esta pandemia demonstrou que a autonomia dos conselhos de administração e a descentralização das decisões são fundamentais para se gerir com menos custos e melhores resultados. E provou que vale a pena confiar nos centros de decisão fora de Lisboa."

O caso "Hospital de São João" é essencial para gerar mudança de paradigmas. Existe uma enormíssima dúvida quanto à capacidade de Portugal apresentar projetos para 14 mil milhões de euros da "bazuca" até 2023. Ora, o país tem as comissões de coordenação de desenvolvimento às quais pode entregar tarefas de decisão e execução da "bazuca", articulando-as com as autarquias, associações setoriais e "terceiro setor". Vai fazê-lo? António Costa dispõe de uma enorme oportunidade (talvez a última) de mobilizar o país consigo, permitindo que o dinheiro seja aplicado através de uma malha de avaliação mais fina, de quem está perto dos problemas, e não por grandes linhas já decididas pelos ministros e depois burocratizadas por funcionários distantes.

Falhar a "bazuca", e depois o próximo quadro comunitário, seria imperdoável. O exemplo do Hospital de São João evidencia, uma vez mais, que há uma nova geração fora de Lisboa, competente e capaz de fazer diferente. O tempo do medo de novos "Alberto João Jardim" já passou. Vamos a tempo ou estamos a mais?

Jornalista

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