Umas réstias de sol

Ponhamos umas réstias de sol nestes meses de chumbo. A recuperação titubeia, mas já começou. A saúde pública e a economia oferecem os primeiros sinais incontestáveis da nova etapa.
O pior já terá passado. Portugal está a vacinar a bom ritmo, e o fim da grave paralisia da atividade produtiva detonada pela pandemia também começa a despontar. Há motivos para um otimismo precavido. Mas nenhum para relaxar ou subestimar a magnitude dos desafios que temos pela frente, para uma recuperação robusta e inclusiva.

Por cá, 17 mil mortos depois, o progresso no programa de vacinação tem vindo propiciar uma clara mudança na maré, ao ritmo de chegada dos contentores com anticoronavírus, com a taxa a avançar para as 100 mil injeções diárias: um em cada três portugueses já foram vacinados, metade dos quais com a vacinação completa. Com base nestes avanços, e tirando a "borbulha" de Lisboa, a incidência de contágio está a cair (413), assim como o número de doentes internados (210) com covid-19 - mas ainda há 59 em cuidados intensivos.

A economia persegue uma trajetória paralela à da saúde pública. Após trimestres muito difíceis, o emprego é agora a principal preocupação, apesar de os indicadores de confiança e produção industrial melhorarem e até as reservas de hotéis estarem gradualmente a recuperar. No ano que passou, a contração do conjunto dos países do euro foi de 8,3% do PIB, superior à das demais economias, em virtude das medidas de contenção mais duras que foram adotadas. A queda afetou particularmente Portugal, Espanha, mas também França e Itália - um solavanco que poderia ter sido maior se o Banco Central Europeu não tivesse acionado a cláusula de escape do limite do défice público do Plano de Estabilidade. Agora, instituições como a Comissão Europeia reveem em alta as projeções de crescimento para a Portugal: 3,9% em 2021. As melhoras são inegáveis, mas ainda é uma recuperação incipiente, desigual e balbuciante: por territórios, setores de atividade e grupos sociais.

Neste contexto, enfrentamos um duplo desafio: a curto prazo, é necessário consolidar ao máximo a melhoria do quadro sanitário nas próximas semanas, para que valha a pena reviver a época de verão que aí vem, com o enorme dinamismo que o turismo exerce na economia portuguesa. Felizmente, ainda que comporte riscos, Portugal integra a lista britânica de países para os quais a quarentena não é necessária no retorno. Um esforço de contenção, agora, facilitará a atração do turismo internacional de junho a setembro. A médio prazo, resta-nos ainda a enorme empreitada executiva e legislativa para garantir a eficácia dos investimentos dos fundos europeus e uma reforma geral do tecido socioeconómico, tendo em vista promover uma maior produtividade e uma maior coesão social. A precariedade endémica que atinge sobretudo os jovens e as mulheres tem de ser superada.

Salvo imprevistos, a retoma vai ganhar fôlego. Mas a recuperação do PIB, ou seja, o valor total dos bens e serviços finais produzidos, não pode ser a única ferramenta de medição. O aumento da produtividade e da inovação, por um lado, e a redução da precariedade e das desigualdades, por outro, também estarão na balança eleitoral que avaliará os resultados das políticas em curso. Por ora, ponhamos umas réstias de sol nestes meses de chumbo.

Jornalista

Mais Notícias

Outras Notícias GMG