Uma visita a Teixeira de Pascoaes

Em Amarante imaginei que encontrava Teixeira de Pascoaes. Apesar de ter sido demasiadas vezes reduzido aos pesados estereótipos da Saudade e da Portugalidade e de ter construído a sua obra ao arrepio dos modernismos sucessivos, Pascoaes não deixou de encontrar quem o soubesse ler: Jorge de Sena sentiu-lhe bem a grandeza e o génio e os surrealistas celebraram-no, por boas e más razões. Mas soubemos nós ler Pascoaes como se deve ler um poeta, literalmente e em todos os sentidos, como dizia Rimbaud?

O meu primeiro encontro com Pascoaes deu-se num momento preciso da minha adolescência, quando ouvi, em Chaves, numa sessão pública de leitura de poesia, a sua Elegia do Amor, logo seguida de O Amor em Visita de Herberto Helder. Foi assim que uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue passou na minha imaginação a ser aquela que, só por olhar para mim, me fazia viver a vida infinita, eterna, esplendorosa e ao beijar o degrau e o espaço me levava também a beijar o rochedo e a flor, a noite e a claridade. Há encontros assim...

Se eu cruzasse Pascoaes nestas ruas de Amarante, não teria coragem de lhe contar esta história e não creio também que ele me encarasse com a alegria com que olhava a jovem Sophia de Mello Breyner Andresen a entrar a cavalo por dentro dos seus jardins, lá em cima, em São João de Gatão. Uma poeta que atravessa como uma amazona o jardim mais íntimo da sua sabedoria, disfarçando de beleza o seu arrojo, faz a diferença no coração de um criador.

Agustina Bessa-Luís retrata Pascoaes em José Midões, protagonista de O Susto, onde ele ofusca com a sua luz tudo o que se move em volta, e o que se move em volta não é pouco, porque é Fernando Pessoa e os seus cem mil filhos (como se diz "os cem mil filhos de São Luís"), e são os heterónimos e depois somos nós todos e os nossos desassossegos...

Aqueles que, como Cesariny e os surrealistas, santificaram o poeta de Amarante para procurar diminuir o poeta dos heterónimos, também não souberam ler em todos os sentidos aquele que invocavam como mestre. O outro, o Fernando, o do mau-olhado, o Virgem Negra, o da arca e da mansarda, esse leu tão bem Pascoaes que, para usar os conceitos de Harold Bloom, criou a sua própria poesia primeiro através da desleitura que de Pascoaes fez em A Nova Poesia Portuguesa (1912) e mais tarde pela rasura que a navalha de Ockham, empunhada por Alberto Caeiro, incisivamente marcou entre as folhas que tombavam e as almas que subiam na poesia de Pascoaes.

Entendemos assim como Pascoaes é um poeta forte. Tão forte que Fernando Pessoa teve de o enfrentar quase que fisicamente dentro da sua própria poesia. Tão forte que a sua marca no mundo é visível como a montanha abrupta do Marão e oculta como o mau demiurgo das heresias gnósticas. Tão forte que não sabemos nós próprios ainda como lidar com ele.

Imagino assim que Pascoaes receberia o meu cumprimento com distraída amabilidade e me deixaria talvez só com este ensinamento:

assim como o Senhor não conheceu a Cruz Ignorante de versos é o Poeta. (Cantos Indecisos, 1921).

Esta ignorância dos versos, como bem viu Jorge de Sena, é expressão da mais fina e profunda consciência da grandeza da Poesia (em que sempre acreditou Pascoaes) e do impasse irresolúvel a que ela fatalmente nos conduz. Todos os grandes poetas acabaram ofuscados por este abismo, por esta luz negra que a poesia traça à volta de si. E por isso o amor mais fundo da poesia está ligado a esse mesmo ódio que Catulo, no Odi et amo, procurava já conjurar. Porque, como o poeta contemporâneo Ben Lerner assinala, o poema que escrevo mede-se com o Poema ideal que jamais poderei escrever e daí nasce um irreprimível ódio à Poesia. Assim em Pascoaes a força da poesia se vem desfazer na força mais terrível da natureza e do mundo:

Chamo por mim. Quem me responde? O mundo (As Sombras, 1920)

Mas é deste mundo caído e degradado que a força da poesia nos eleva para enfim podermos acertar o nosso fôlego com o pulsar esplendoroso da criação. Para lá se dirigiu Pascoaes.

Diplomata e escritor

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