Uma tarde com Brad Mehldau

No que toca a reuniões entre amigos ao fim da tarde, o jazz não é estranho e a música tão-pouco dispensável. Em 1985, uma das mais célebres e fraternas duplas do género gravou An Elegant Evening ("Uma tarde elegante"), álbum em estúdio gravado com a voz de Mel Tormé e o piano de George Shearing. A parelha é aqui evocada pelo seu ecumenismo e longevidade na colaboração. Também o trio de Brad Mehldau, que tocou no Centro Cultural de Belém nesta quinta-feira, proporcionou uma tarde elegante aos ouvintes lisboetas; variada, familiar e quase comovente.

Mehldau, que surgiu em palco pelas dezanove horas e sete minutos, foi recebido por uma sala cheia e que lhe sentiu a falta. "Se vocês tiveram saudades nossas, nós tivemos mais", acabaria por dizer, num microfone cujo fio insistia em enrolar-se em torno de uma das suas botas. O norte-americano, nascido no estado da Florida em agosto de 1970, não é estranho às paredes do CCB. Já veio em banda, a solo, com o colaborador de longa data Joshua Redman (saxofonista) e numa inovadora combinação com Mark Guiliana (percussionista). Num dos espetáculos em que ficámos entregues somente a ele e ao seu Steinway, chegou a fazer sete encores. "Ansioso por regressar a Lisboa", assumiu a início. E pudera.

Aos 50 anos, com uma carreira já longa e ocasionalmente ousada, Brad Mehldau flutuou entre as bandas sonoras (Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal, Mon Chien Stupide), as experiências sonoras alternativas (Highway Rider) de composições próprias, as reinterpretações de grandes mestres (After Bach), os concertos de improvisação ao vivo e os discos a três, com Larry Grenadier no contrabaixo e Jeff Ballard na bateria. Foi assim, nesta quinta, no CCB: um concerto algo conservador, com temas da sua assinatura, clássicos standards do Great American Songbook e covers de canções mais recentes, dos Beach Boys a Simon e Garfunkel.

Na dinâmica do trio, detetava-se um entrosamento antigo, uma cumplicidade até discreta. Grenadier, o menos evidente mas não menos essencial. Ballard, um monstro da batida e do ritmo, mas com somente um solo em todo o concerto. Mehldau, o líder e autor, numa camisa três tamanhos acima, a voz cabisbaixa e o tronco torto, com o ombro direito a palpitar acima de todo o restante corpo. Sorriam uns para os outros, combinando o que tocar a seguir. Baixavam a cabeça, para melhor escutar a arte alheia. Mehldau, a dada altura, vira ao mesmo tempo costas à plateia e ao piano, sentando-se de pernas à chinês para o seu contrabaixista. Poderia não estar mais ninguém ali, que bastava a música. Para quem lá esteve, foi uma tarde de verão com Brad Mehldau. Para o trio de Mehldau, com álbuns editados desde a década de 1990, não foi mais do que um competentíssimo ensaio.

O reportório, plural, mas convergente, abriu com Unrequited, partitura do próprio, de 1998, seguindo-se dois tributos a Theolonius Monk. Depois, Skippy, também um original, mas do disco Anything Goes, de 2004. Uma demonstração de pura técnica e envolvimento a três. A meio, uma versão de Friends, dos Beach Boys, que já conhecíamos do álbum Seymour Reads the Constitution, um tributo de 2018 ao falecido ator Philip Seymour Hoffman, seu amigo.

Em apoteose, um regresso ao jazz tradicional, com interpretações inéditas de Come Rain or Come Shine, de Johnny Mercer, e de In The Still of the Night, de Cole Porter; o primeiro com um longo e excecional improviso a solo do pianista.

No fim, em jeito de despedida ("Estamos a ficar velhos, brincou"), Still Crazy after all these Years.

E bastante bons também, há que dizê-lo.

Colunista

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