Uma adolescência de cortar os pulsos

Em tempos de pandemia os nossos jovens, têm sido bastante afetados com estas "novas formas de viver e de nos relacionarmos uns com os outros. Os problemas de saúde mental têm-se agravado, nomeadamente os comportamentos autolesivos que são cada vez mais frequentes e começam cada vez mais cedo. O que está a acontecer? Onde podemos estar a falhar?

A adolescência é uma importante fase do desenvolvimento, com alterações acentuadas. Corpo novo, novas sensações e um misto de emoções que nem sempre sabem identificar. Todas as vivências contam na construção da identidade e da autonomia.

O que pode correr mal? A Mafalda começou a cortar-se... O Gonçalo....

Em comum, sentiram uma dor emocional para a qual só encontraram uma solução, apaziguá-la com dores físicas (mais ou menos) controláveis. É uma estratégia desajustada de regulação de emoções difíceis ou dolorosas.

A automutilação é uma agressão intencional ao próprio corpo, como cortar-se, arranhar-se, queimar-se... Surge de forma silenciosa e escondida, para lidar com uma dor emocional que é sentida como insuportável.

Está um calor insuportável e o seu filho teima em não tirar o casaco; apresenta cicatrizes, cortes, queimaduras ou nódoas negras; passa muito tempo na casa de banho e sozinho; está constantemente triste ou apático; manifesta alterações no sono ou no apetite. São sinais que não deve ignorar.

É preciso intervir. Procurar ajuda. E ter consciência de que o adolescente não tem vontade de expor este comportamento. Seja por vergonha, por culpa ou por medo. E encontra uma desculpa para as cicatrizes, para não gostar de ir à praia ou para ter um afia desmontado dentro do estojo.

Alguns jovens instalaram uma app - I Am Sober - que monitoriza as suas "conquistas e também as suas recaídas". Escolhemos o comportamento que queremos "conter". Um deles é a automutilação. Ao navegarmos percebemos que é uma comunidade - uma rede social - frequentada por adolescentes e pré-adolescentes onde se chora a dor. Onde se partilham dificuldades e se procura uma identificação e um (falso) aconchego: "Não estou sozinho nisto, não sou único." E recebem (muitos) alertas. O seu "miúdo" tem esta app instalada?

O que fazer?

Vivemos tempos complexos. Famílias afogadas em trabalho, meses de confinamento, sem tempo de verdadeira partilha e envolvimento. Com poucos encontros dentro da própria casa.

Temos o adulterado conceito de adolescência - "é normal na idade dela". Isto de nos centrarmos em ideias gastas de um "é normal, é da idade do armário" ou "é só uma chamada de atenção" pode ser bastante perigoso e enganador. É um pedido de ajuda.

Importa abrir espaço para diálogo, promover um ambiente seguro e de confiança. Castigar ou ameaçar? Só fará que se feche num mundo de sofrimento solitário.

Cabe-nos tudo fazer para que os jovens aumentem os seus níveis de bem-estar, facilitando o seu desenvolvimento positivo. Ajudando-os a perceber esta experiência "do crescer," como uma experiência mais saudável.

Estejamos atentos. Sem julgamentos. Vamos experimentar sentir esta dor, tantas vezes sem "nome". Mostrar alternativas. Pedir ajuda, juntos e em verdadeira equipa.

Psicólogas

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