Um problema explosivo. O que fazer com as baterias dos carros eletricos?

A solução de mobilidade defendida quase unanimemente pelos políticos ocidentais tem problemas de que ninguém gosta de falar. Ouvíssemos mais Bill Gates do que Elon Musk e estávamos melhor servidos.

Em 2030 a União Europeia prevê que estejam a circular na estrada 30 milhões de carros elétricos. Todos serão alimentados por baterias de lítio.

Ora estes componentes têm uma característica, digamos que, incómoda: se não forem desmontados corretamente, explodem. O que faz com que a reciclagem dos mesmos seja difícil e dispendiosa. E na realidade, atualmente, quase ninguém o faz.

"Globalmente, é muito difícil ter dados detalhados sobre qual a percentagem de baterias de iões de lítio que são recicladas globalmente, mas os valores que toda a gente refere rondam os 5%", disse esta semana à BBC Paul Anderson, codiretor do Centro de Elementos Estratégicos e Materiais Críticos da Universidade de Birmingham. "E há locais no mundo em que o valor é inferior".

Claro que com o passar do tempo o panorama melhorará -- os próprios fabricantes de automóveis estão já a fazer esforços nesse sentido (a Renault, por exemplo, garante que está a reciclar todas as baterias dos seus carros.... algumas centenas por ano) --, mas não é de um dia para o outro que o problema se resolve.

Além disso, mesmo que se consiga reciclar todas as baterias dos carros, há uma grande parte que fica reduzida ao que é chamada "massa negra", mistura de lítio, manganésio, cobalto e níquel, que para ser separada necessita de maior processamento -- e mais dispêndio de tempo e energia.

Aliás, tudo se resume a isto mesmo: energia. Onde a criar para todas as atividades humanas.

É ficcional pensar que por comprarmos hoje um Tesla, por exemplo, não estamos de um modo qualquer a dar um murro no ambiente. Aliás, a marca de Elon Musk tem problemas ambientais escondidos que vão muito para além das questões das baterias dos seus carros. Chama-se criptomoeda.

Desde a sua fundação, a Tesla tem-se financiado "minando" criptomoeda. É a forma como Musk consegue vender automóveis abaixo do preço de custo (contabilizando o R&D, etc.).

Ora a "mineração" de Bitcoins e companhia são das formas mais pouco amigas do ambiente que existem. Basicamente, trata-se de colocar potentíssimos computadores a trabalhar ao máximo, fazendo operações informáticas, cálculos matemáticos, e com isso gastando imensa energia.

Energia essa que, here we go again, tem de vir de algum lado...

Apesar dos avanços nas chamadas "renováveis", convinha olhar para estas tecnologias da forma mais fria e objetiva possível.

Da manufatura, ao transporte, passando pela manutenção, cada pá de uma turbina eólica tem uma pegada de carbono relativamente elevada. Claro que não se compara ao CO2 que emite uma central de carvão, mas existe impacto.

O mesmo raciocínio, no fundo, se aplica a qualquer elétrico. Emitem seguramente menos ao fim de 3 anos do que um motor de combustão (mesmo contabilizando toda a pegada de carbono necessária para extrair o lítio das suas baterias, o seu transporte, manufatura das mesmas, etc.). São seguramente mais "verdes" do que um carro "normal", até contabilizando a tal "mineração" de criptomoeda que a Tesla faz para sobreviver.

Mas o seu impacto ambiental é bem maior do que normalmente se fala, em especial relativamente às baterias. Regresso ao artigo da BBC que citei inicialmente: "Estamos perante algo que nunca foi feito antes para uma tal taxa de crescimento relativamente a um total novo produto", admitiu Paul Anderson.

Talento teve Elon Musk para se transformar em pop star da indústria e com isso ser carregado ao colo pelos media tradicionais. Talento que, pela sua personalidade, Bill Gates nunca teve. Infelizmente para todos nós.

Por isso, quando Gates foi à Cimeira do Clima falar aos líderes mundiais e dizer que só conseguiremos vencer o desafio das alterações climáticas com mais tecnologia (curiosamente, uma ideia que, ainda com muito menos conhecimento de causa, escrevi neste espaço em 2017), teve menos impacto mediático do que um qualquer tweet do fundador da Tesla.

Só com tecnologia capaz de produzir energia de forma eficaz conseguiremos dar continuidade à civilização.

Aliás, a Bill & Melinda Gates Foundation financiaram um projeto de reciclagem de material nuclear capaz de reutilizar os detritos de centrais antigas em centrais novas, mais pequenas e eficientes. E, acima de tudo, limpas e seguras.

Mas, claro, não se pode falar nestas coisas, porque energia nuclear é tabu.

A não ser que Elon Musk resolva tweetar sobre o assunto um dia destes? Quantas bitcoins custará?

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