Um Estado brasileiro paralelo

O governo de Jair Bolsonaro montou um "orçamento paralelo" no final de 2020 para distribuir dinheiro a deputados e senadores de forma a ganhar apoio no poder legislativo e eleger os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado do seu agrado.

O escândalo, com verbas em torno de 3 mil milhões de reais (perto de 500 milhões de euros), incluiu a cedência de tratores e outros equipamentos agrícolas aos parlamentares por preços 259% acima dos valores de referência, razão pela qual foi apelidado de "tratoraço".

Os analistas não encontram diferenças substanciais entre o "tratoraço" e o "mensalão", o esquema de votos de congressistas a favor do governo em troca de verbas públicas no final do primeiro mandato de Lula da Silva, feito também na surdina e para alugar uma base parlamentar de apoio, que levou à prisão de altos dirigentes do PT.

Entretanto, a Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga os crimes cometidos pelo executivo durante a pandemia, que podem, segundo especialistas, ter aumentado em 100 mil o número de brasileiros vítimas de covid-19, descobriu a existência de um "Ministério da Saúde paralelo" a agir nas costas dos legítimos ministros da Saúde, sob liderança de um político e médico, Osmar Terra, para quem a pandemia não mataria mais de 950 pessoas por ano.

As informações que esse gabinete, também chamado de "Ministério da Doença", prestava ao presidente levaram o Brasil a investir milhões num remédio considerado ineficaz para a covid-19, a cloroquina, em recusar a compra de milhões de vacinas oferecidas a preço do saldo e a apostar na "imunidade de rebanho", que favoreceu o aparecimento de novas variantes do vírus.

Por outro lado, depois de a The Economist ter dedicado um suplemento ao Brasil em que defendia ser prioritário derrotar Bolsonaro nas urnas em 2022, o governo reagiu em 25 tweets muito provavelmente a cargo de um "gabinete de comunicação paralelo", conhecido também como "gabinete do ódio", liderado por Carlos Bolsonaro.

O texto tem as digitais do segundo filho do presidente: linguagem agressiva, argumentação delirante e erros grosseiros de tradução do inglês para o português.

Os irmãos de Carlos, a propósito, funcionam como uma espécie de "ministro do interior", o senador Flávio, e "ministro das relações exteriores", o deputado Eduardo, paralelos. Mesmo sem ocuparem cargos no governo, o primeiro, acusado de encabeçar esquema de corrupção milionário, vai indicando juízes e diretores da polícia na máquina estatal para se proteger; o segundo, esgarça a relação com a China, maior parceiro comercial do Brasil, ao atrelar a diplomacia do país às perigosas teorias infantojuvenis da extrema-direita americana.

Paralelo, paralelo, paralelo e paralelo.

O cientista político Robert Paxton cunhou o conceito "Estado paralelo" a propósito de estruturas não oficiais de apoio ao poder vigente - e deu como exemplos a Alemanha nazi e a Itália fascista, com as suas organizações paramilitares Sturmabteilung e Camicie Nere, respetivamente. No Brasil, de paramilitar só há as milícias do Rio de Janeiro, o poder paralelo ao Estado que aterroriza comunidades cariocas e matou, ao que tudo indica, Marielle Franco. Elas foram, desde sempre, o suporte político de Jair Bolsonaro e prole.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Mais Notícias

Outras Notícias GMG