Um ano depois

Há um ano, a União Europeia deu não um, mas três passos de gigante. Lançou o Plano de Recuperação, a emissão de dívida comum e a compra em conjunto das vacinas.

Cada uma destas iniciativas visava responder a necessidades urgentes criadas pela pandemia - e só por isso foi possível superar os egoísmos nacionais e a sempiterna resistência da direita europeia a tudo o que aprofunde a solidariedade entre Estados membros -, mas o seu alcance ia muito além da resposta à crise existente, criando precedentes para novas políticas solidárias na União.

Como dizia Robert Schuman, na declaração que veio a tornar-se o momento fundador da UE, "a Europa não se fará de uma só vez nem de acordo com um plano único. Será construída através de realizações concretas que criem em primeiro lugar uma solidariedade de facto".

Contudo, para grandes passos, grandes dificuldades. E, passado um ano, o Plano de Recuperação tarda a chegar ao terreno.

O governo português foi o primeiro a entregar o seu plano em Bruxelas, resultado da prioridade política e do enorme esforço que foi colocado na preparação do documento. Portugal esteve bem, assumindo a urgência de fazer chegar o apoio europeu rapidamente à economia, para que as empresas e as pessoas sintam algum alívio e a retoma se inicie.

Mas mesmo isso não assegura que o dinheiro chegue rapidamente, pois a emissão de dívida comum para financiar a recuperação depende da ratificação dos recursos próprios pelos parlamentos nacionais que ainda não o fizeram.

Com estas dificuldades, e perante uma crise económica que exigia medidas urgentes, a União Europeia mais não conseguiu do que continuar o longo processo em que nos encontramos. A situação exigia mais rapidez; e também mais dinheiro.

Sei bem que não vale a pena chorar sobre leite derramado. Mas temos de aprender com os erros para poder fazer melhor.

A Conferência sobre o Futuro da Europa, que simbolicamente se inicia no aniversário da Declaração de Schuman,
9 de maio, será uma oportunidade que não podemos perder. Com ela, a UE pretende ouvir os cidadãos sobre os caminhos que deve tomar.

De forma quase caricatural, começa com um ano de atraso, apenas porque a Comissão, o Conselho e o Parlamento Europeu não conseguiram pôr-se de acordo relativamente a quem a deveria presidir. Guerras de alecrim e manjerona.

Sei bem que há motivos para a morosidade dos processos de decisão europeus. É uma construção institucional complexa, que precisa de respeitar a vontade dos Estados membros e dos seus cidadãos. Mas são os próprios cidadãos que não nos perdoarão se não soubermos superar estas limitações.

Sobretudo em momentos de urgência. Como o que vivemos.

16 VALORES
Marcelo Rebelo de
Sousa
Subscrevo quase tudo o que foi dito e escrito sobre o discurso do Presidente da República na sessão solene de comemoração do 25 de Abril.
Quero deixar registado: foi um discurso de grande densidade, ponderado, inclusivo, pedagógico e aglutinador.
É o que esperamos do Presidente Marcelo.

Eurodeputado

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