Tumores da cabeça e do pescoço: alertas para uma realidade

No Dia Mundial do Cancro da Cabeça e Pescoço, é nosso dever deixar um alerta para a procura de um diagnóstico precoce. As unidades hospitalares, públicas ou privadas, têm profissionais que, com a máxima celeridade, podem fazer o diagnóstico e o tratamento. Face a alguns sintomas esteja vigilante e não adie os cuidados médicos.

Quando falamos de tumores da cabeça e do pescoço, podemos estar a gerar alguma confusão nos doentes, designadamente no que à procura de cuidados médicos diz respeito. As diversas entidades englobadas nesta designação genérica, não permitem colocar todos os tumores desta área no mesmo patamar, quer seja no diagnóstico quer na orientação terapêutica.

Assim e para melhor nos situarmos no tema, devemos desde logo retirar desta designação os tumores com ponto de partida na pele, que são tratados por dermatologistas ou cirurgiões plásticos - e os tumores do sistema nervoso central, do âmbito da Neurocirurgia.

Os tumores da cabeça e pescoço são então um conjunto muito diverso de doenças que representam cerca de 6% de todas as neoplasias malignas. Genericamente, têm o seu ponto de partida nos tecidos que revestem internamente os canais por onde passam o ar e os alimentos. Por esta razão são identificados e reconhecidos fatores de risco, entre os quais se salientam o consumo excessivo de tabaco e de álcool, hábitos ainda hoje responsáveis pelo desenvolvimento da maioria dos tumores desta área.

Em oncologia, como na maioria das áreas médicas, a investigação crescente tem aberto caminhos a outras possíveis causas para alguns destes tumores. Refiro-me à influência de vírus, como o Vírus Humano do Papiloma vulgarmente designado por HPV, dos quais alguns subtipos se vêm associando à origem de tumores em localizações específicas e, ao vírus de Epstein/Barr, reconhecido como associado ao aparecimento de tumores da nasofaringe.

Falando de aspetos clínicos, poderemos enumerar como presentes nestes casos um conjunto muito diverso de sintomas, como a obstrução nasal, as perdas de cheiro, a dificuldade respiratória de maior ou menor gravidade, o desconforto, a dificuldade, ou mesmo a impossibilidade na passagem de alimentos, as alterações da qualidade da voz, as deformidades faciais, a presença de áreas ulceradas na língua ou noutra área da boca, a dificuldade de mobilização lingual, as limitações na abertura da boca e, as hemorragias por algum destes orifícios naturais. São sintomas que não esgotando a multiplicidade de queixas que podem ocorrer, são de longe os mais frequentes e expressivos e, aqueles que primeiro devem chamar a atenção dos doentes para a rápida procura de cuidados médicos.

Então, na presença e ou persistência por mais de 15 dias de qualquer um destes sintomas, a que especialidades médicas recorrer? No momento atual e no que ao diagnóstico diz respeito, diversas especialidades podem ser envolvidas. A Otorrinolaringologia continua, do meu ponto de vista, a ser a que em primeiro lugar deverá ser procurada. É hoje claro o papel dos médicos dentistas e dos cirurgiões maxilo-faciais no diagnóstico de algumas destas doenças, designadamente as localizadas na boca.

Quer para o diagnóstico, quer para clarificar e avaliar a extensão e a gravidade dos tumores, torna-se necessário o recurso a exames de imagem de maior ou menor complexidade, essenciais para preparar o doente para a decisão terapêutica, após é claro ter sido realizada uma biópsia para nos indicar se estamos face a uma entidade benigna ou maligna.

Falando de tratamento, devemos ter em atenção, pelas diversas vertentes em que cada caso deve ser analisado, que nem todas as unidades hospitalares estão capacitadas para o efetuar de forma eficaz. Sem querer discutir a legitimidade de alargar os centros de tratamento, a primeira opção terapêutica, desde que bem conduzida, condiciona de forma relevante todo o processo com reais implicações na sobrevivência. Privilegia-se atualmente, tanto na decisão como na orientação terapêutica, o conceito da multidisciplinaridade.

A maioria destes tumores, quando ainda iniciais ou de pequena dimensão, deverão ser abordados cirurgicamente. Tumores de maiores dimensões, com impactos mais previsíveis na função digestiva, na respiratória, ou até na estética, poderão inicialmente ser tratados com a associação de radio e quimioterapia, ficando a cirurgia reservada para os casos em que estas terapêuticas não sejam suficientes.

Quanto a novos fármacos, não estando ainda a ser utilizados como primeira opção terapêutica, podem ser atualmente opções para doentes selecionados, com progressão tumoral, mas ao abrigo de protocolos investigacionais.

Sendo certo que o resultado dos tratamentos e o impacto funcional são significativamente diferentes em tumores iniciais ou avançados, fica uma mensagem de alerta: na presença de sintomas anormais e persistentes é obrigatória a procura de uma consulta médica rápida.

É este o conceito do diagnóstico precoce. Unidades hospitalares, públicas ou privadas, dispõem atualmente de profissionais especializados e diferenciados que, com a máxima celeridade, podem fazer não só o diagnóstico, mas também o tratamento. Em tumores desta área não facilite. A sua agressividade e localização interferem com funções importantes. Ganhar tempo é vital. Amanhã já é tarde...

Otorrinolaringologista no Hospital CUF Porto - Unidade de Cancro de Cabeça e Pescoço

Mais Notícias

Outras Notícias GMG