Trio que não admira

Juventude é aquela idade vertiginosa que só apreciamos verdadeiramente no momento em que lhe sentimos as saudades e ela nos foge. Juventude, desemprego e precariedade é um trio de palavras que nos habituámos a ver juntas, o nó que é urgente desatar, agora mais apertado pelo efeito da pandemia no desemprego, quatro vezes superior entre os mais novos. Em apenas um ano, mais de 100 mil jovens perderam o emprego e o número de inativos até aos 34 anos subiu agora para 261 mil, agravando condições de vida e adiando sonhos de emancipação. Quatro em cada cinco jovens portugueses até aos 30 anos não tem rendimentos que lhes permitam sair de casa dos pais, e quase metade daqueles que encontram trabalho remunerado submetem-se a contratos temporários.

Ainda que a Constituição da República estabeleça que "os jovens gozam de proteção especial para efetivação dos seus direitos económicos, sociais e culturais, nomeadamente no ensino, na formação profissional e na cultura; no acesso ao primeiro emprego, no trabalho e na segurança social", este mandato da Lei Fundamental continua a patinar, envergonhando aqueles que juraram cumpri-la e fazê-la cumprir. Apesar do sistema educacional ter vindo a registar uma importante diminuição da taxa de abandono escolar, o mercado de trabalho português continua demasiado hostil aos mais jovens, condenando-os a níveis intoleráveis de desemprego e precariedade, para além de um mercado imobiliário teimosamente inacessível. É pesada a frustração que carregam nas mochilas.

Os jovens portugueses são cosmopolitas, falam línguas, tiveram oportunidades de formação e lazer muito superiores às dos pais. Mas estamos a deixá-los para trás. O Papa Francisco fala em "dívida" para com os mais novos, que deveriam ter um papel protagonista neste mundo nosso: "Criámos uma cultura que, por um lado, idolatra a juventude, querendo eternizá-la; mas, paradoxalmente, negamos aos jovens um espaço de inserção real." Aos poucos marginalizamo-los da vida pública, condenando-os a emigrar ou a implorar por empregos que não existem ou não permitem que se vislumbre um amanhã. As estatísticas confirmam uma preocupante falta de confiança no futuro. A falta de horizontes para os jovens, abalada pela crise financeira de 2008 e pela paralisação económica provocada pela pandemia, representa um problema incontornável não só para quem a sofre, mas para toda a sociedade. Porque não há outro fator que hipoteque de forma tão cortante e desastrosa o futuro deste país.

Enfrentar um problema desta dimensão reclama um novo contrato social. E exige que as forças políticas coloquem o bloqueio geracional no topo da agenda da Concertação, com o indispensável envolvimento do setor privado, criando soluções de emprego que passem por horizontes de trabalho mais claros e seguros. O fato de a crise já ter atingido mais de uma geração revela a sua profundidade. Um futuro de sucesso partilhado depende da nossa capacidade de formar devidamente as novas gerações, de as incorporar de forma estável no mercado de trabalho, para que possam desenvolver plenamente o seu potencial e, para todos os que o desejem, facilitar a constituição de família. O futuro da sociedade portuguesa depende em última análise do seu vigor económico e demográfico, da sua energia social e cultural, do seu otimismo e da sua estabilidade. Haverá desafio estratégico tão importante? Está na hora de começar a cumprir o artigo 70º da Constituição. E já não é cedo.


Jornalista

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