Três homens e um destino

O primeiro foi um herói. Era jovem, muito jovem, com 27 anos apenas, quando fez aquela viagem, decisiva e derradeira. Já lá tinha estado antes, sabia o que se passava. Agora, porém, era diferente. No dia 10 de Março de 1933, iludindo as autoridades, Gareth Jones desceu de um comboio e, com um punhado de libras e meia dúzia de sanduíches numa mochila, fez-se ao caminho pela Ucrânia adentro. Sozinho, na solidão de si mesmo.

Nascera em Barry, Glamorgan, no País de Gales, em Agosto de 1905, e há quem diga que a sua atracção pela Ucrânia se devia ao facto de a sua mãe ter trabalhado lá, como governanta e preceptora dos filhos de Arthur Hughes, cujo pai, o industrial do aço John Hughes, fundara em 1869 a cidade de Hughesovka, actual Donetsk. O pai de Gareth era regente da escola em que ele estudou, antes de se matricular e formar na Universidade de Aberystwyth, onde também andaram, noutras alturas, o príncipe Carlos de Inglaterra e uma mulher notável, Íris de Freitas Brazão, a primeira jurista das Caraíbas (seria interessante que um jornalista se interessasse por saber se o pai de Íris, M. G. Freitas, ou se o seu marido, Alfredo Casimiro Brazão, eram portugueses ou tinham porventura ascendência lusa).

Depois disso, frequentou a Universidade de Estrasburgo e, em 1929, formou-se no Trinity College de Cambridge, com classificações distintas a francês, alemão e russo. Graças à intervenção de outro galês, o influente Thomas Jones, braço direito de Lloyd George (e é impossível não ver nele, um todo-poderoso civil servant, traços de sir Humphrey Appleby, a lendária personagem de Yes, Prime Minister), Gareth conseguiu emprego como assessor do antigo primeiro-ministro, que não perdera a esperança de, à frente dos Liberais, regressar ao n.º 10 da Downing Street, mesmo tendo sofrido uma amarga derrota nas eleições gerais de 1929, aquelas em que, convém lembrá-lo, os Trabalhistas se tornaram a primeira força política do Reino Unido. Gareth tinha por missão preparar notas e redigir rascunhos das intervenções de George na Câmara dos Comuns, além de o ajudar a escrever as suas memórias, e, numa tendência que já despontara em Cambridge, onde fora membro activo da League of Nations Union, as suas inclinações iam para a política internacional.

Foi então que empreendeu as suas primeiras grandes viagens ao estrangeiro, realizadas com um estatuto dúbio de colaborador de Lloyd George e de repórter. No Verão de 1930, passou três semanas na União Soviética e, no Verão seguinte, estendeu a permanência por um mês. Desta feita, viajou na companhia de Henry John Heinz II, o futuro presidente e herdeiro das fábricas de ketchup Heinz, e já então ambos testemunharam os efeitos terríveis da política de colectivização levada a cabo por Estaline. Gareth Jones era um jornalista inexperiente, antes de partir estagiara um mês apenas na redacção do The Times e não teve sequer direito a intitular-se "repórter", mas apenas "correspondente especial", o que acabava por lhe granjear maior liberdade de movimentos do que aos seus colegas estabelecidos em Moscovo, aos quais era exigido um visto de residência, o que os tornava muito mais dependentes da boa vontade do Kremlin e, logo, muito mais avessos a transmitirem notícias desfavoráveis ao regime.

Em 1930, Gareth Jones publicou três artigos anónimos no The Times, com o título "The Two Russias", e, no ano seguinte, outros três artigos no mesmo jornal, os quais, no seu conjunto, são as reportagens mais importantes alguma vez feitas sobre a tragédia do plano quinquenal soviético. Já então Jones observara os primeiros sinais de fome e miséria, longe ainda, contudo, da devastação apocalíptica de 1932-1933, responsável por quatro a cinco milhões de vítimas.

Em Janeiro e Fevereiro desse ano de 1933, esteve na Alemanha, cobrindo a ascensão imparável do nazismo. Encontrava-se em Leipzig no dia em que Hitler foi nomeado chanceler do Reich, seria um dos poucos correspondentes estrangeiros com o privilégio de subir a bordo do Richthofen para acompanhar Hitler e Goebbels no seu voo triunfal até Frankfurt. Segundo alguns, essa proximidade pagou-se caro e os artigos de Gareth Jones foram demasiado complacentes em relação aos primórdios do regime nazi. Não é bem verdade, pois o jovem repórter galês não deixou de dizer que a personalidade do Führer não dava tranquilidade a ninguém, que o seu ódio aos judeus era fruto de um espírito perturbado e que era inconcebível que Hitler tivesse enviado um telegrama de congratulações aos esbirros nazis que tinham assassinado brutalmente um militante comunista diante da sua própria família.

No mês seguinte, Março de 1933, partiu para a Rússia dos sovietes, munido de um visto que obtivera, em larga medida, por trabalhar com Lloyd George. O visto, aliás, resultou da pressão efectuada por Ivan Maisky, embaixador da URSS em Londres, sedento de impressionar e cair nas boas graças do antigo primeiro-ministro. O cônsul alemão em Carcóvia convidara-o a visitar a cidade, Jones disse ao responsável pelos correspondentes estrangeiros em Moscovo, Konstantin Umanskii, que tencionava também ir ver uma fábrica de tractores e Umanskii autorizou-o a ir à Ucrânia. Embarcou no dia 10 de Março e, sem avisar ninguém, apeou-se do comboio a cerca de 64 quilómetros de Carcóvia. Durante três dias, seguindo a linha ferroviária em direcção a Kiev, atravessou a pé mais de vinte aldeias e unidades colectivas de produção, testemunhou de perto os horrores da fome reinante. Dormia nos casebres dos camponeses, partilhava com eles o pouco que tinha, anotou tudo quanto viu até ser apanhado por uma patrulha da polícia secreta, a OGPU, e posto num comboio a caminho de Carcóvia, onde presenciou novas cenas de miséria nas ruas. Sem avisar Umanskii (há quem diga que tentou, sem sucesso, contactar um subordinado seu em Carcóvia), abandonou a URSS e, no final do mês, já se encontrava em Berlim, onde deu uma bombástica conferência de imprensa em que denunciou a catástrofe em curso e a tentativa do regime em ocultar o que se passava. Além da cobertura noticiosa dessa conferência em jornais de Nova Iorque e Chicago, Jones publicou uma dezena de artigos sobre a Ucrânia em vários periódicos ingleses. Os soviéticos ficaram furiosos. O ministro dos Estrangeiros protestou junto do embaixador Maisky, que se queixou a Lloyd George, este defendeu-se dizendo que Gareth Jones não actuara como seu representante e que jamais patrocinara a sua viagem (é sintomático que, depois deste incidente, Jones e George nunca mais se tenham visto). O jovem galês foi proibido para sempre de regressar à Rússia e acabou sendo raptado e morto pouco depois, em 1935, quando fazia uma reportagem nos confins da China.

Entra agora o segundo homem, Walter Duranty, correspondente em Moscovo do The New York Times durante largos anos, de 1922 a 1936, galardoado em 1932 com o Pulitzer pelas suas reportagens sobre a URSS, uma personalidade das boas graças do regime, com quem Estaline conversava longas horas, a quem os soviéticos pagavam um vasto apartamento, luxos e amantes. Não por acaso, existe hoje uma campanha para retirar o Pulitzer a Duranty e, em 1990, o The New York Times viu-se obrigado a declarar formalmente que os seus textos constituem "das piores reportagens alguma vez publicadas neste jornal". Na verdade, sob uma aparência de neutralidade, tais textos correspondem a uma das mais abomináveis mistificações jornalísticas de que há memória; o autor dizia nada ter contra ou a favor do regime comunista, sendo seu propósito relatar a verdade, e só a verdade, mesmo depois de reconhecer que esse regime matava os seus opositores ou deportava-os para paragens longínquas. Segundo ele, a ausência de democracia e a ditadura na URSS eram explicáveis pelo carácter "asiático" do povo russo, só compatível com governos autocráticos. Estaline era, naturalmente, o líder ideal, "autenticamente russo", como Ivan, o Terrível, e o déspota agradeceu o elogio, afirmando que Duranty era um jornalista que, ao contrário de outros, escrevia a verdade sobre a União Soviética.

Durante as grandes fomes de 1932-1933, Duranty avistou-se com um diplomata inglês em Moscovo, a quem confidenciou que a falta de alimentos nos campos tinha feito já uns dez milhões de mortos, mas nunca publicou essa estimativa aterradora nas suas reportagens. Pior ainda, quando saíram as denúncias de Gareth Jones, Duranty mobilizou-se contra ele, questionou o que Jones escrevera, duvidou da credibilidade do seu testemunho e publicou um infame artigo, intitulado "Russians Hungry But Not Starving" ("Os russos passam fome, mas não estão a morrer"), mesmo sabendo que isso não era verdade, mesmo estimando que a fome tinha feito dez milhões de vítimas. Rematou com a defesa da colectivização ainda hoje lembrada: "Não é possível fazer omeletes sem partir ovos." Os ovos eram, neste caso, quatro ou cinco milhões de mortos.

Raphael Lemkin é o terceiro homem desta história. Jurista polaco de origem judaica, com vários familiares exterminados no Holocausto, conseguiu fugir para a América e, em 1944, publicou um livro sobre a ocupação nazi na Europa em que usou pela primeira vez o termo "genocídio", o que lhe valeu ser integrado na equipa jurídica norte-americana nos julgamentos de Nuremberga. No pós-guerra, seria o autor do projecto de Convenção para a Prevenção e a Punição do Crime de Genocídio, que as Nações Unidas adoptaram em 1948. Para que tal ocorresse, Lemkin teve de ceder à pressão dos soviéticos, que se opunham a uma definição de genocídio que os pudesse incriminar pelo que haviam feito na Ucrânia. Mas, não muito depois, em 1953, Lemkin diria que o que ali aconteceu foi "o exemplo clássico de genocídio soviético, a mais vasta e mais prolongada experiência de russificação - a destruição da nação ucraniana".

Perante um destino comum, saldado em milhões de mortos, três homens seguiram caminhos diversos, até antagónicos: um optou corajosamente por buscar a verdade nas estepes da Ucrânia e por dá-la a conhecer ao mundo; o outro, o escroque, conhecia a verdade de milhões de mortos mas tudo fez para a esconder, iludindo-a sob a falsa aparência da "isenção" e da "independência" jornalísticas; o terceiro, enfim, escolheu o pragmatismo e a transigência das negociações diplomáticas, alcançando frutos duradouros e perenes, mas nem por isso perfeitos: o texto em que Raphael Lemkin defendia a tese do genocídio do povo ucraniano (ainda hoje não consensual entre os historiadores) foi incluído em 2015 no índex moscovita das "publicações extremistas" e está actualmente proibido de circular na Rússia de Vladimir Putin, um regime defendido pelos Durantys dos nossos dias.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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