Tlön, Kekistão, Orbis Tertius

No conto de Borges Tlön, Uqbar, Orbis Tertius, uma conspiração global é acidentalmente descoberta pelo narrador: uma conjura secreta que dedicou anos a falsificar histórias, almanaques e volumes enciclopédicos sobre um mundo inventado chamado Tlön, descrevendo ao pormenor as suas cidades, paisagens, populações, leis e filosofias. Aos poucos, à medida que as falsificações se multiplicam e a sua dispersão e visibilidade crescem, o rigor dessa colossal efabulação começa a encantar a humanidade e a substituir sistematicamente aquilo que outrora era real: "Já penetrou nas escolas o conjectural idioma primitivo de Tlön; já o ensino da sua história harmoniosa (e cheia de episódios comoventes) obliterou o que presidiu à minha infância; já nas memórias um passado fictício ocupa o lugar de outro." Em breve, línguas e hábitos antigos desaparecerão, objectos imaginários ganharão forma física, e o mundo inteiro será Tlön. "Uma dispersa dinastia de solitários", lamenta o narrador, referindo-se à cabala desconhecida que iniciou a patranha, "conseguiu mudar a face do mundo." Por outras palavras, o shitposting de heresiarcas anónimos revelou-se uma força tão poderosa que alterou drasticamente a realidade material.

Tlön é uma das melhores e mais coerentes descrições do processo chamado meme magic, frase que voltou a ser cautelosamente usada nesta semana, após um longo período de hibernação. Um artigo da Forbes e uma peça na MSNBC mencionaram-na a propósito da saga GameStop, explicando com solenidade a forma como utilizadores do Reddit com nomes como "Thicc Dads Club" e "DeepFuckingValue" eram agora "forças de mercado". A justaposição de registos entre subculturas online e o mainstream é quase sempre hilariante, e a tradução do episódio pela imprensa tradicional lembrou o período glorioso de 2016, em que floresciam quase diariamente interessantíssimas interpretações esotéricas da ascensão de Trump. Feitiçaria de memes! Os bonecos que ganharam a eleição! Artigos sobre Julius Evola! René Guenon! Sobre Aleksandr Dugin! (Todo o fenómeno foi reminiscente de um mini-boom semelhante na historiografia popular nos anos 1970, sobre as raízes dos nazis no ocultismo).

Um dos documentários mais interessantes de 2020, Feels Good Man (disponível na Amazon Prime) conta parte dessa história, através da figura de Pepe, o sapinho que se tornou gradualmente uma espécie de suástica virtual para o século XXI. Pepe começou por ser a criação de um pacato ilustrador californiano chamado Matt Furie (a julgar pelo documentário, um dos melhores seres humanos do planeta), inserido numa banda desenhada em que vários animais antropomórficos comiam piza, fumavam ganza e iam a festas. Numa das tiras, um companheiro de Pepe entra sem aviso na casa de banho e encontra-o a urinar de pé, com as calças e a roupa interior pelos tornozelos. Quando é interrogado sobre essa intrigante escolha logística, o sapo responde "Feels good, man". A frase e a imagem foram rapidamente adoptados por uma série de comunidades online (a começar, estranhamente, por fóruns de culturismo), até migrar para o 4Chan, onde versões modificadas do painel se tornaram componentes de um dialecto de inclusão e exclusão.

A coisa poderia ter ficado por aí, mas à medida que a internet se foi consolidando em plataformas mais amplas, Pepe foi sendo redescoberto e transferido: primeiro por youtubers, depois por celebridades no Instagram. Em 2014, quando Cardi B e Katy Perry publicaram imagens de Pepe, o 4Chan reagiu como qualquer subcultura quando o mainstream a tenta cooptar: com uma mistura de fúria possessiva e auto-sabotagem. A internet começou a ser rapidamente inundada com as versões mais tóxicas do meme que era possível inventar: Pepe com a legenda "Matem os judeus", Pepe a pilotar os aviões de 11 de Setembro, Pepe a cometer pedofilia, etc.

A trajectória de Pepe é apenas aquilo que a internet faz. A velocidade e o nível de tolice inspiram uma categoria específica de deslumbramento; ao seu jeito extravagantemente anárquico, talvez seja a mais pura manifestação deste processo de manufactura de um folclore virtual, em que a disseminação é sempre revisionista, e em que o "significado" final é algo cuja circulação vai protelando e tornando mais opaco. Como muito do que acontece na internet, não é parte de uma conversa, ou sequer de um argumento, mas um anúncio - em que o que é anunciado é um projecto provisório de curadoria identitária.

Quando Trump entrou em cena no ano seguinte, a hiperpatetice da sua candidatura à presidência foi prontamente adoptada pelo exército de heresiarcas pepistas, que entretanto já tinham acrescentado alguns volumes a Tlön: Kek, uma divindade egípcia com cabeça de sapo, foi reivindicada para a causa, e essa divinidade semi-irónica presidiu às primeiras manifestações de "magia memética", quando algo afirmado no reino digital se concretizou no mundo real.

Um dos mais absurdos (e interessantes) entrevistados de Feels Good Man é um "ocultista e druida" americano chamado John Michael Greer, que recapitula algumas dessas sincronicidades e acidentes de numerologia: como os memes (deliberadamente falsos) sobre a "doença" de Clinton "causaram" o seu desmaio público durante a campanha; ou como os números arbitrários que identificavam posts no 4Chan "previram" a vitória eleitoral de Trump. Tal como acontecia nos espaços online que comenta, nunca é possível determinar com exactidão quão a sério se devem levar as afirmações de Greer. A postura oficial parece ser qualquer coisa como esta: Kek não é uma entidade real; mas caso fosse, a realidade política não seria diferente, portanto aqui estamos.

É uma ilusão peculiarmente contemporânea, que acaba por lisonjear os vocabulários e as posturas dos extremamente online, transformando-os em heróicos sucessores dos conjurados anónimos de Borges. A verdade é que mesmo os blindados pela ironia podem ser vítimas cognitivas da sua própria mitografia. Cada nova geração desde o início do século XX acreditou que podia alterar balanços de poder antigos e estruturais através da combinação de pujança demográfica e tecnologias democratizantes; e cada uma só teve razão quando deixou de ser a nova geração e passou a ser a geração anterior. A ideia de que a merdapostagem de batráquios em fóruns pode ser mais consequente do que os humores flutuantes de um eleitorado de consumidores de meia-idade e telespectadores de terceira idade é interessante e persuasiva apenas como ficção apócrifa. Não pertence à Terra, mas a Tlön.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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