Tempo do coração, tempo de cinema

O livro Tempo do Coração, dedicado à correspondência entre Ingeborg Bachmann e Paul Celan, traduzido por Claudia J. Fischer e Vera San Payo de Lemos, desafia qualquer descrição (ed. Antígona). Nele se recolhem as cartas trocadas por Bachmann (1926-1973) e Celan (1920-1970), a primeira datada de 1948, a última de 1967, naquilo que talvez possamos chamar uma história de amor suspensa - ou o "suspense" de uma história de amor.

Por razões históricas, indissociavelmente familiares, Bachmann e Celan são poetas assombrados pelas memórias do Holocausto. Há na sua correspondência uma perturbante ambiguidade: a sequência das cartas gera uma continuidade, de alguma maneira uma "narrativa", em que vamos descobrindo os sobressaltos de uma relação tão convulsiva quanto enigmática; quanto mais lemos, os muitos hiatos temporais adquirem um peso tão grande ou maior do que as palavras que realmente foram escritas. Como se se tratasse de um estudo sobre o poder do silêncio.

A 20 de agosto de 1949, Celan escrevia: "Talvez me engane, talvez estejamos a divergir precisamente no ponto em que mais desejamos encontrar-nos, talvez a culpa seja de ambos. Mas às vezes digo para mim próprio que o meu silêncio talvez seja mais compreensível do que o teu, porque é mais antiga a escuridão que me impõe." No final, despede-se assim: "A que distância estás, Ingeborg? Diz-me para que eu saiba se vais fechar os olhos quando eu agora te beijar." Bachmann responde-lhe a 24 de novembro ("a carta que te escrevi em agosto ainda ali está") e quer saber se "ainda me estendes a mão e me remetes ao escuro do sonho pesado, dentro do qual quero tornar-me claridade."

Enganamo-nos se arrumarmos este Tempo do Coração na prateleira das "paixões fatais" - isto não é literatura cor de rosa. Assim, é verdade que a escrita de Bachmann e Celan pertence a uma época ligada, por um fio trágico, aos horrores da Segunda Guerra Mundial. Mas não é menos verdade que as camadas do tempo conferiram às suas cartas um valor simbólico de resistência às ilusões "comunicacionais" do nosso mundo virtual - não poucas vezes, vivemos agora num aquário de "mensagens" palavrosas e fúteis, sem sequer termos consciência do menosprezo pela escrita que, escrevendo, apenas reforçamos.

Prova fascinante do poder encantatório das palavras escritas por Bachmann e Celan é o filme Die Geträumten (Os Sonhados), da cineasta austríaca Ruth Beckermann, produção de 2016 que, nesse ano, integrou a programação do Doclisboa. Não creio que haja muitos objectos de cinema capazes de revisitar, assim, um universo tão íntimo e delicado sem ceder aos lugares-comuns "ilustrativos" que predominam nas abordagens correntes de "artes & artistas".

Descobrimos, assim, dois actores - Laurence Rupp e Anja Plaschg - que lêem a correspondência de Celan e Bachmann. Não para "reconstituir" o que quer que seja, muito menos para aprisionar o fulgor nas palavras numa "significação" unilateral e definitiva. Nada disso. Vêmo-los, precisamente, como actores, num estúdio, gravando os textos das cartas. Nos dias que correm, a pressão mediática leva a que perguntemos: qual é, então, o "tema" do filme? A resposta adequada é, a meu ver, a que nasce do reconhecimento mais básico: este é um filme sobre o trabalho, ou melhor, "um" trabalho de encenação a partir de palavras que outros escreveram.

Há uma beleza, de uma só vez contida e convulsiva, no facto de a alternância das cenas (entre os momentos de gravação e as pausas para descanso) ir instalando uma dúvida metódica, propriamente poética. A saber: até que ponto as palavras dos outros vão pontuando aquilo que somos? Ou ainda: quando viajamos através dessas palavras, que parte de nós se transforma através da leitura que fazemos?

Vimos Laurence Rupp num papel secundário de Missão Impossível: Nação Secreta (2015); Anja Plaschg desenvolve, enquanto compositora, instrumentista e cantora, um magnífico projecto de música electrónica designado Soap&Skin. Pela candura e vulnerabilidade da sua presença no filme de Ruth Beckermann perpassa uma verdade primitiva do cinema: a capacidade de, no simples labor da voz, contemplar o corpo como um misto de transparência e mistério.

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