Teletransporte

Agarraste numa caneta. Podia ser um lápis, um pincel, qualquer material que riscasse, mas foi uma caneta. E riscaste. Com um só risco criaste um cenário. Uma máquina de teletransporte, daquelas que só se veem nos filmes.

A velocidade a que estes mundos paralelos se constroem é estonteante e ao mesmo tempo lenta. Esta velocidade é na verdade a soma de várias velocidades, a do cérebro, a da mão e a do imaginário de quem lê o desenho. Há que ter paciência.
E acima de tudo disponibilidade para se deixar levar pela máquina de teletransporte.

Para quem desenha, a mão está dependente do cérebro, mas por vezes a mão toma conta do papel como se estivesse imbuída de um sistema sofisticadíssimo de inteligência artificial, trocando muitas vezes as voltas ao cérebro, trocando as voltas ao imaginário do próprio autor.

O cérebro para dar ordem ao desenho funciona com a informação que recebe, que tem guardada no "disco", mas há outros que têm a capacidade de atirar o cérebro para o inexistente. E no inexistente o passado não é uma referência. Não existe. Persiste no inexistente um presente cheio de futuros, um presente que não é escravo dos passados. É este presente carregado de futuros que transforma as formas criadas pelo desenho em novas formas. Em formas tridimensionais. Em formas animadas. Em formas esculpidas. Como se de um camaleão se tratasse, que ao passear num ateliê fosse ganhando a forma das variadas formas de arte que constituem o panorama geral das artes.

O desenho pode ganhar forma num livro. Mas também no cinema. Ganha forma numa ideia, numa pessoa, numa mulher. No desejo. Ganha forma num erotismo vertiginoso criando narrativas oníricas e instáveis.

O desenho é o ponto de partida. É a máquina de teletransporte.

O desenho pode não ser desenhado, pode ser imaginado, pode ser concebido sem coito. Pode ser uma imagem mental que nasce fotografia ou escultura. Mas ele está lá.

Esta máquina será melhor se o ponto de partida estiver carregado de perguntas. Daquelas que nos levam a sítios com tantas, tantas coisas que nem todas têm nome. Mas têm forma.

É isto que eu vejo na obra do Julião Sarmento. Uma máquina de teletransporte.

Infelizmente o autor partiu, mas a obra ficou.

O artista morreu, e ficou imortal.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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