Tanto poder para nada

No momento em que a Europa se convenceu de que seria pela economia que teria um lugar próprio e autónomo no mundo, o mundo voltou ao tempo em que a competição se faz entre potências com disponibilidade para usar a força.

Estava a Europa a querer ser geopolítica dominando a economia verde e regulando para ganhar relevância na economia digital, e russos, chineses e americanos a mostrar que a capacidade militar e a possibilidade de a usar voltou a ser o que conta para definir poder.

Nas últimas semanas, perante a ameaça russa de invadir a Ucrânia, o presidente Joe Biden tem oscilado entre o "se o fizerem, vamos impor tais sanções económicas que nem sabem o que vos acontecerá" e o "podemos falar sobre o assunto?". Visto de fora, parece que os Estados Unidos da América estão a tentar que os russos aceitem que já não são uma potência global, mas que podem ser uma potência regional. Que pode ser feita uma espécie de Tordesilhas, deixando à Rússia uma zona de influência, ou de não influência ocidental, desde que não haja intervenções militares. O que levanta especiais problemas à Europa.

Sendo evidente que as negociações com a Rússia são lideradas pelos Estados Unidos da América (Biden falou com os europeus, com Putin e depois com os europeus de novo), isso significa que os termos em que seja definida a convivência com a Rússia serão, sobretudo, os que negoceiem os americanos. Ora, sendo notório que os Estados Unidos se querem poder importar cada vez menos com a Rússia, enquanto a Europa sabe que a Rússia é, e vai continuar a ser, o seu maior problema de segurança e estabilidade regional, há aqui um potencial de divergência de interesses. Ou, pelo menos, de preocupações. Que a Europa não sabe, não pode nem quer resolver porque não tem uma opinião comum sobre a relação com Moscovo e, mesmo que venha a ter, não tem como a impor para lá de umas sanções económicas que podem, no limite, ser tão duras quanto as americanas.

Quando a União Soviética invadiu o Afeganistão ou, muito antes, pôs termo às tentativas de libertação em Praga ou Budapeste, não ocorreu ao Ocidente responder com armas. Por muito que espante quem cresceu no pós-Guerra Fria, em que uma invasão iraquiana do Koweit ou os abusos na Somália davam origem a intervenções militares punitivas, esse tempo já era.

A grande mudança em curso é que está de regresso o tempo das potências e das esferas de influência. E, como acontecia então, há linhas vermelhas que provocam reações, mas também há linhas que cada um sabe que pode ultrapassar. O problema está em saber quem determina, e garante, as linhas vermelhas em torno da Europa.

Compreendendo que o mundo está, de novo, mais conflitual, vários líderes europeus, e um número eventualmente crescente de teóricos e mesmo de cidadãos, quer que seja a Europa a fazê-lo. Isso tem, porém, dois problemas (simplificando muito). Para ter poder e influência não basta um exército e decisões de o usar tomadas por maioria. É preciso ter uma ideia comum do que nos importa defender, um sentimento partilhado do que nos ameaça e uma disponibilidade correspondente para reagir. Um serviço europeu de ação externa, uma força de intervenção rápida e decisões por maioria não substituem nada disso.

A Europa precisa de realismo, para reconhecer que há males que não pode impedir, e outros que só pode evitar pagando um preço. E de (um pouco de) irrealismo, para ir construindo essa ideia comum. Um dia, talvez. E, em todo o caso, precisa de economia.

Consultor em assuntos europeus

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